Saúde e educação: o crescimento que foi comprado
A Hapvida negocia a 0,07 vez o patrimônio depois de cair 83% em 12 meses. Quando o patrimônio é feito de ágio de aquisições, P/VP baixo não é desconto, é aviso.

A ideia: crescer comprando tem uma conta que chega depois
Um grupo de saúde paga R$ 10 bilhões por uma empresa cujo patrimônio contábil é de R$ 2 bilhões. Os R$ 8 bilhões de diferença não somem: viram um ativo no balanço chamado goodwill (ágio). Ele representa a expectativa de que a compra vá gerar lucro no futuro.
O goodwill não gera caixa e não é descontado ano a ano. Uma vez por ano, a empresa testa se ele ainda vale o que diz. Enquanto o teste passa, o lucro sai limpo e o patrimônio parece grande. No dia em que não passa, vem a baixa contábil, de uma vez, e o patrimônio encolhe.
Quando boa parte do patrimônio é ágio de aquisições, P/VP baixo não mede desconto. Mede quanto o mercado já decidiu que aquele ágio não vale.

O ágio infla o patrimônio (centro). Sinistralidade e evasão decidem se a compra se paga.
Saúde: o custo que chega com atraso
Um plano de saúde vende hoje e paga consultas, exames e internações nos meses seguintes. A fatia da receita que vira despesa médica é a sinistralidade. Quando a inflação médica roda acima do reajuste que o regulador autoriza, a sinistralidade sobe e a margem desaparece.
Em fusões, a carteira comprada pode trazer um perfil de uso diferente do da compradora. Escala não dilui o custo médico; multiplica.
Educação: o ativo comprado é a matrícula
Faculdade não tem contrato longo, tem matrícula semestral. A base de alunos comprada com ágio pode evaporar por evasão, por migração do presencial para o ensino a distância (que cobra várias vezes menos por aluno) e por mudanças no financiamento estudantil. A receita pode até crescer enquanto o lucro por aluno desaba.
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