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Setores da B3, um por um · Aula 9 de 13

Construção: P/L 5 não é desconto, é juro na conta

As incorporadoras têm o P/L mais baixo e o maior dividendo desta trilha, e mesmo assim caíram em 12 meses. O lucro de hoje é a venda de anos atrás; o juro de hoje decide o lucro de amanhã.

por Vinícius Rosa4 min de leituraatualizada em trecho aberto
Construção: P/L 5 não é desconto, é juro na conta

A ideia: o múltiplo é emprestado da curva de juros

Em 23 de setembro de 2026, as 16 incorporadoras líquidas da B3 tinham P/L mediano de 5,4, P/VP de 0,90 e dividend yield de 9,7%. O resto da bolsa estava em 10,5, 1,37 e 3,7%. Pelo manual, o canto mais barato da B3.

Mas o retorno mediano do setor em 12 meses era de −9%, contra +6% do resto, e só 31% dos papéis estavam em alta na régua. O dinheiro está vendo o mesmo múltiplo que você e não está comprando.

Numa incorporadora, o P/L não mede a empresa. Mede o juro que existia quando aquele lucro foi formado.

O que move uma incorporadora: o juro da empresa, do comprador e de quem avalia

O juro entra três vezes na mesma conta. No centro, por que o lucro de hoje é de outro ciclo.

Três anos entre lançar e receber

Acompanhe um prédio:

  1. Lançamento, digamos em janeiro de 2024. A empresa vende boa parte das unidades naquele ano.
  2. Obra, de dois anos ou mais. A empresa reconhece o lucro aos poucos, conforme a obra avança.
  3. Entrega e repasse, em 2026. O comprador pega o financiamento no banco e o dinheiro finalmente entra.

O lucro que aparece no balanço de 2026 é, em boa parte, a venda de 2024 sendo reconhecida agora. Enquanto isso, o caixa que sai é o da obra lançada hoje. Por isso uma incorporadora pode mostrar lucro alto e caixa negativo ao mesmo tempo, sem nada de errado na contabilidade.

O juro entra três vezes

  • No financiamento da empresa: a obra se paga com dívida, e cada mês de construção custa juro.
  • Na prestação do comprador: um financiamento de 30 anos fica muito mais caro com juro alto, e o comprador de média renda sai do mercado.
  • Na taxa que o mercado usa para avaliar o futuro: juro alto faz o mesmo lucro futuro valer menos hoje.

Com a Selic em 13,75% em setembro de 2026, as três pesam juntas. Nenhum outro setor da bolsa tem o mesmo número entrando em três lugares da conta.

Medianas das incorporadoras contra o resto da B3

Múltiplos de pechincha e dividendo alto, com retorno negativo e poucos papéis em alta.

Três negócios com o mesmo rótulo

CURY3 atende o Minha Casa Minha Vida: comprador com financiamento subsidiado pelo FGTS, cuja taxa não acompanha a Selic na mesma proporção, obra curta e pouco terreno parado. Resultado: ROE de 66,4% e ROIC de 41,1%, com mais caixa que dívida.

MRVE3 também é Minha Casa Minha Vida, com dívida de 11,6 vezes o EBITDA, ROE negativo e −34% em 12 meses. A diferença não está no cliente; está no balanço e no tempo de ciclo.

JHSF3 é alta renda em São Paulo. Quem compra apartamento de milhões costuma pagar à vista ou direto com a incorporadora, sem depender do juro do banco. Em 12 meses, +101% nos Rankings, com Índice Quantor (IQ) de 74 e Nota Fundamentos de 74.

CURY3, JHSF3 e MRVE3 desde setembro de 2020, no preço

Base 100 em setembro de 2020, com proventos. O mesmo setor, três sensibilidades ao juro.

Com os proventos, desde setembro de 2020: CURY3 +314%, JHSF3 +157%, MRVE3 −64%.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.