Entrar
Small caps · Aula 4 de 4

Small caps: a família que mais perdeu, e a lista que só mostra quem sobreviveu

"As pequenas crescem mais" é uma das frases mais repetidas da bolsa. Com as empresas que quebraram de volta na conta, comprar as menores da B3 transformou R$ 1.000 em R$ 267 entre 2011 e 2026. E a tela de hoje esconde o motivo: dos 548 códigos que negociavam em janeiro de 2011, só 221 seguem ativos.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Small caps: a família que mais perdeu, e a lista que só mostra quem sobreviveu

Em 1 minuto

  • Na B3, a lista das menores empresas é, na maior parte do tempo, uma lista de empresas que encolheram, não das que vão crescer.
  • Com as empresas que quebraram de volta na conta, comprar as 10 menores transformou R$ 1.000 em R$ 267 entre 2011 e 2026.
  • Qualquer tela de hoje só mostra quem sobreviveu: dos 548 códigos de janeiro de 2011, só 221 seguem ativos.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Explicar o viés de sobrevivência e onde ele aparece
  • Perguntar por que uma empresa está pequena antes de comprá-la
  • Desconfiar de qualquer estatística feita só com as empresas listadas hoje

A tese: na B3, pequeno costuma ser o fim, não o começo

Em 1981, o economista Rolf Banz publicou um estudo mostrando que, na bolsa americana, as empresas menores tinham rendido mais que as grandes ao longo de décadas. Anos depois, o efeito tamanho entrou nos modelos acadêmicos mais usados do mundo. Na conversa de mercado, a ideia virou frase pronta: "as pequenas crescem mais."

A lógica parece boa. Uma empresa pequena pode dobrar de tamanho com um contrato novo; uma gigante, não. Pequenas são menos acompanhadas, então haveria barganhas escondidas. Quem compra antes do crescimento leva a valorização inteira.

A ideia: Uma empresa pode ser pequena porque ainda vai crescer ou porque já encolheu. Na B3, a segunda categoria domina a lista das menores, e o prêmio de tamanho vira prêmio de quebra.

O problema não é a lógica, que pode até valer em outros mercados. É quem aparece na lista brasileira, e por que aparece. Uma mesma posição na tabela pode ser ocupada por uma empresa jovem em expansão ou por uma companhia de décadas que perdeu quatro quintos do valor. E, para ver isso, é preciso olhar também quem saiu dela.

O mecanismo: três forças que enchem a lista de empresas em crise

1. O valor de mercado cai junto com o preço. Valor de mercado é preço vezes número de ações. Uma empresa que caiu 80% em dois anos fica, automaticamente, cinco vezes menor. Ordenar a bolsa pelo tamanho é, em boa parte, ordenar por quem mais caiu.

2. Poucas empresas jovens chegam à bolsa brasileira. Nos Estados Unidos, milhares de empresas pequenas e saudáveis estão listadas. Aqui, a abertura de capital é cara e se concentra em ondas, e muita empresa pequena listada é uma empresa antiga que encolheu.

3. Quem quebra some da tela, mas não do bolso de quem tinha a ação. Uma empresa em recuperação judicial (o processo em que a empresa, sem conseguir pagar as dívidas, pede à Justiça prazo para renegociá-las) costuma passar meses ou anos entre as menores antes de sair da bolsa. Quem a comprou "porque está barata" carrega a perda até o fim.

O teste: as menores da B3, com quem quebrou dentro

A aula atual sobre o tema, publicada em setembro de 2026, testou a versão mais direta da ideia na base da B3 sem viés de sobrevivência, de maio de 2011 a setembro de 2026. Todo fim de mês, entre as ações que negociavam pelo menos R$ 5 milhões por dia, comprava as 10 de menor valor de mercado, com o mesmo peso. Quem saiu da bolsa conta pelo valor que o acionista de fato recebeu, inclusive zero.

Antes de continuar: R$ 1.000 nas 10 menores empresas líquidas da B3, refeitas todo mês, de mai/2011 a set/2026. Quanto viraram?

a) Uns R$ 5.000, mais que o CDI · b) Uns R$ 2.800, perto do Ibovespa · c) Uns R$ 267

Resposta: Uns R$ 267. R$ 267: −8,2% ao ano, com uma queda de 88% no pior momento. No mesmo período, R$ 1.000 viraram R$ 4.200 no CDI e R$ 2.782 no Ibovespa. Um sorteio de 10 ações quaisquer do mesmo universo rendeu +3,8% ao ano.

R$ 267 R$ 1.000 nas 10 menores, de mai/2011 a set/2026 · R$ 2.782 no Ibovespa · R$ 4.200 no CDI

As 10 menores renderam −8,2% ao ano, com uma queda de 88% do topo ao fundo. Diversificar ajudou um pouco: com 20 ações, −3,4% ao ano. Descer para empresas ainda menores piorou tudo: as 10 menores entre as que negociam R$ 1 milhão por dia renderam −16,5% ao ano, com queda de 95%. Nenhuma versão bateu o CDI ou o Ibovespa.

A fase boa, que fez a fama

Dividido em blocos de anos, o resultado foi −21,4% ao ano em 2011–15, +30,2% em 2016–20 e −23,2% em 2021–26. A fase boa existiu, e é dela que vem a fama: em 2019, a carteira subiu 62%. É a mesma janela de juro em queda das aulas 2 e 3. Mas ela ficou espremida entre duas fases de destruição. Em 2014 e 2015, a carteira perdeu 39% em cada ano. Em 2024, perdeu 53%.

O que havia dentro da carteira

O número que explica tudo é o de presença de empresas em crise. Em 51 dos 185 meses do teste, a carteira das 10 menores tinha pelo menos uma empresa que passou por recuperação judicial e depois saiu da bolsa, como OGX, MMX e Saraiva. No corte de R$ 1 milhão por dia, isso aconteceu em 97 meses, mais da metade do tempo. Oi, PDG e Americanas estiveram entre as menores do universo em vários meses, depois de quedas enormes.

Na mesma pesquisa, a regra "compre as 10 que mais caíram em 12 meses" rendeu −13,3% ao ano. Comprar as menores sem nenhum outro filtro é, na prática, uma versão dela.

Voltar à trilha Small capsTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.