P/L e earnings yield: anos de lucro contra a Selic
P/L 5 e um rendimento de lucro de 20% são a mesma informação. Ela só vira decisão quando você pergunta para onde o lucro vai: com o lucro caindo 20% ao ano, o P/L 5 nunca devolve o preço pago.

Em 1 minuto
- O P/L diz quantos anos de lucro, no ritmo de hoje, o preço compra; o earnings yield é a mesma conta virada, um rendimento ao ano.
- Em 30/09/2026, a mediana das ações líquidas com lucro rendia 9,3% de lucro, contra a Selic de 13,75%; só 37 de 137 rendiam mais que a Selic.
- O múltiplo não mede o valor da empresa: mede o que o mercado espera do lucro, e o lucro pode crescer, parar ou sumir.
Ao fim desta aula você vai saber
- Converter P/L em rendimento de lucro de cabeça
- Comparar o rendimento do lucro com a Selic sem cair na armadilha do cupom
- Calcular em quantos anos o lucro devolve o preço, com crescimento ou queda
A tese: o P/L é um prazo, não um veredicto
Você abre a tela de um papel e vê "P/L 5,0". Em outro, "P/L 33". A conclusão parece óbvia: o primeiro está barato, o segundo está caro. É a conclusão mais comum do mercado e, muitas vezes, a errada.
O P/L (preço sobre lucro) responde a uma pergunta só: quantos anos de lucro, no ritmo de hoje, o preço da ação está comprando. Ele não diz se o lucro vai durar, se vai crescer ou se já está no pico. Tudo o que torna um P/L barato ou caro está fora da conta.
A ideia: P/L baixo nunca é o motivo. É o convite para investigar por que o mercado paga tão pouco por aquele lucro.
A conta, feita na frente de você
Na base do Quantor, em 30/09/2026, a PETR4 fechou a R$ 49,12. Nos 12 meses até o ITR de 30/06/2026, a empresa lucrou o equivalente a R$ 9,80 por ação (o lucro total dividido pelo número de ações, o LPA). R$ 49,12 ÷ R$ 9,80 = 5,01. Se o lucro ficasse igual para sempre e fosse todo seu, o preço voltaria em cinco anos. Na WEGE3, com P/L de 33,18, levaria 33.
Vire a conta e o mesmo número fala outra língua. O earnings yield (rendimento do lucro) é o lucro dividido pelo preço, ou 1 ÷ P/L. Na PETR4, 1 ÷ 5,01 = 20,0%: para cada R$ 100 pagos pela ação, a empresa lucrou R$ 20 em 12 meses. Na WEGE3, 3,0%.
| Papel, 30/09/2026 | P/L | Earnings yield | Contra a Selic de 13,75% |
|---|---|---|---|
| PETR4 | 5,01 | 20,0% | +6,2 pontos |
| TAEE11 | 8,72 | 11,5% | −2,3 pontos |
| ITUB4 | 10,92 | 9,2% | −4,6 pontos |
| VALE3 | 27,46 | 3,6% | −10,1 pontos |
| WEGE3 | 33,18 | 3,0% | −10,7 pontos |
Para converter de cabeça: P/L 5 é 20%, P/L 10 é 10%, P/L 20 é 5%, P/L 33 é 3%. É a ferramenta mais útil do curso para pôr ação e renda fixa na mesma régua.
O mecanismo: três forças que o número não mostra
1. O lucro pode crescer. Um título prefixado paga a taxa combinada e acabou. O lucro de uma empresa que reinveste a taxas altas cresce. Com P/L 33 e o lucro parado, o preço só volta em 33 anos. Com o lucro crescendo 15% ao ano, a soma dos lucros alcança o preço em 12 anos.
2. O lucro pode cair. É a força que o P/L baixo esconde.
Antes de continuar: Uma ação custa 5 vezes o lucro. Se o lucro cair 20% ao ano, todo ano, em quanto tempo a soma dos lucros devolve o preço pago?
a) Em cerca de 6 anos · b) Em cerca de 10 anos · c) Nunca
Resposta: Nunca. Nunca. Com o lucro caindo 20% ao ano, a soma de todos os lucros futuros chega a 4 vezes o lucro de hoje, menos que os 5 pagos. Com queda de 10% ao ano, devolve em 8 anos.
É por isso que o mercado paga 5 vezes por um lucro e 33 por outro. O P/L não mede o valor da empresa: mede a expectativa do mercado sobre o lucro futuro. Um P/L baixo diz que o mercado acha que o lucro vai encolher, ou que corre um risco que o número não mostra. Às vezes o mercado erra. A tarefa é descobrir se errou desta vez.
3. O lucro de hoje pode não ser o lucro normal. Venda de ativo, crédito tributário, baixa contábil, pico de commodity: tudo isso move o lucro de 12 meses sem mudar o negócio. A VALE3 tinha P/L de 3,78 em dezembro de 2022, com o minério alto, e de 27,46 em 30/09/2026, com o lucro de 12 meses comprimido. A mesma empresa pareceu baratíssima e caríssima em quatro anos. Nas cíclicas, o P/L funciona ao contrário, e o módulo de setores de ciclo dedica uma aula inteira a isso.
O teste: a bolsa rende mais lucro que a Selic?
Se o earnings yield põe ação e renda fixa na mesma régua, vale perguntar com que frequência a bolsa ofereceu mais lucro por real do que o juro sem risco. Medimos o P/L mediano das ações líquidas da B3 com lucro (mais de R$ 2 milhões por dia em valores corrigidos, uma classe por empresa) em cada dezembro desde 2011, contra a Selic meta do mesmo dia.
Antes de continuar: Nas 16 datas medidas (os dezembros de 2011 a 2025, mais setembro de 2026), em quantas o rendimento de lucro mediano das ações líquidas ficou ACIMA da Selic?
a) Na maioria, uns 12 · b) Em metade, uns 8 · c) Em pouquíssimos, uns 2
Resposta: Em pouquíssimos, uns 2. Só em 2 deles: dezembro de 2019 (4,6% contra 4,5%) e dezembro de 2020 (4,4% contra 2%). Em todos os outros, a Selic pagava mais que o lucro mediano da bolsa.
| Data | P/L mediano | Earnings yield | Selic meta | Diferença |
|---|---|---|---|---|
| Dez/2013 | 19,3 | 5,2% | 10,00% | −4,8 |
| Dez/2016 | 16,6 | 6,0% | 13,75% | −7,7 |
| Dez/2019 | 21,6 | 4,6% | 4,50% | +0,1 |
| Dez/2020 | 22,6 | 4,4% | 2,00% | +2,4 |
| Dez/2022 | 10,4 | 9,6% | 13,75% | −4,1 |
| Dez/2024 | 8,4 | 11,8% | 12,25% | −0,4 |
| Dez/2025 | 10,2 | 9,8% | 15,00% | −5,2 |
| 30/09/2026 | 10,7 | 9,3% | 13,75% | −4,4 |
Isso não quer dizer que a bolsa sempre perde da Selic. Quer dizer que quem compra ação no Brasil quase nunca está comprando o lucro de hoje: está comprando o crescimento dele. O lucro corrige com a inflação e cresce com o negócio; a Selic não cresce. Por isso a comparação mais justa costuma ser com o juro real, a taxa acima da inflação. Mas a tabela fixa uma disciplina: se o rendimento do lucro está 4 ou 5 pontos abaixo da Selic, a tese depende de crescimento, e o crescimento precisa aparecer.
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