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Os limites do balanço · Aula 1 de 4

O preço chega antes do balanço, de 3 a 6 meses

O balanço conta um trimestre que já acabou, semanas depois. O preço é a aposta de hoje sobre o que vem. Medido em 65 ações de 2012 a 2026, ele anda na frente do lucro, na média, por um ou dois trimestres.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
O preço chega antes do balanço, de 3 a 6 meses

Em 1 minuto

  • O balanço é o retrovisor: conta um trimestre que já acabou e chega semanas depois. O preço é o para-brisa: é negociado todo dia por quem tenta adivinhar os próximos trimestres.
  • Na MGLU3, o lucro de 12 meses bateu recorde no 2T21 com o preço já em queda; o primeiro prejuízo de 12 meses chegou com o preço 91% abaixo do topo.
  • Medido em 65 ações de 2012 a 2026, o preço anda, na média, um ou dois trimestres na frente do lucro. É uma tendência, não um relógio.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Ler o lucro de 12 meses como passado, com a idade certa de cada trimestre
  • Comparar a linha do preço com a do lucro antes de concluir 'barato'
  • Saber quanto vale, em média, a antecipação do preço, e quando ela falha

A tese: lucro subindo com preço caindo não é pechincha, é aviso

Você abre uma ação, vê que o lucro dos últimos 12 meses está positivo e crescendo, e o preço está caindo mês após mês. A primeira reação é achar que o mercado está errado. A segunda, que é uma oportunidade.

Quase sempre, é o contrário. O balanço conta o que aconteceu num trimestre que já acabou e chega às suas mãos semanas depois. O preço é o resultado das compras e vendas de hoje, feitas por gente que está tentando adivinhar os próximos trimestres.

A ideia: O lucro é o retrovisor; o preço é o para-brisa. Por isso o preço costuma virar antes do balanço.

Este módulo é a fronteira honesta do curso. Os módulos anteriores ensinaram a ler a empresa. Este mostra o que o balanço não consegue fazer: avisar a tempo.

O mecanismo: três atrasos que se somam

1. O trimestre já acabou. O balanço trimestral (o ITR, na CVM) fala de três meses fechados e é entregue semanas depois. O resultado do segundo trimestre de 2021 da Magazine Luiza, por exemplo, chegou à CVM em 12/08/2021, 43 dias depois do fim do trimestre. O módulo 1 mede esse prazo em toda a bolsa.

2. O lucro de 12 meses é uma média do passado. Para fugir da sazonalidade, o investidor soma os quatro últimos trimestres. Só que o trimestre mais velho dessa soma tem mais de um ano quando você o lê. O número que você usa para decidir hoje carrega uma realidade de mais de um ano atrás.

3. O preço não espera. Ele muda a cada negócio, feito por quem está estimando o próximo trimestre, não relendo o último. Quando a informação nova aparece no balanço, quem a tinha já negociou.

O caso MGLU3: o preço desabou com o lucro no azul

Siga a ordem dos acontecimentos, com o preço ajustado pelo grupamento e sem dividendos:

  • Janeiro de 2021: o preço fecha o mês no topo, R$ 240,67.
  • Março de 2021: o fechamento do mês fica abaixo da média dos últimos 5 meses e a régua vira para baixa, a R$ 192,76, 20% abaixo do topo. A régua é a regra do curso Gráfico Sem Mentira: fechamento mensal acima da média exponencial de 5 meses é alta; abaixo, baixa.
  • 2T21 (balanço entregue em 12/08/2021): o lucro de 12 meses chega ao maior valor do ciclo, R$ 0,78 bilhão, o dobro do fim de 2020. Quem olhava o balanço via uma empresa no auge.
  • 4T21: lucro de 12 meses ainda positivo, R$ 0,59 bilhão. O preço: R$ 68,76, 71% abaixo do topo.
  • 2T22 (entregue em 11/08/2022): aparece o primeiro prejuízo de 12 meses, −R$ 0,06 bilhão.

Antes de continuar: Quando a MGLU3 mostrou o primeiro prejuízo de 12 meses do ciclo, no 2T22, quanto o preço já tinha caído desde o topo de janeiro de 2021?

a) Uns 20%: o mercado só reagiu depois do prejuízo · b) Uns 50% · c) Uns 90%

Resposta: Uns 90%. 91%. Quando o balanço confirmou a piora, o preço já tinha ido. A régua tinha saído em março de 2021, 20% abaixo do topo.

Quem esperou o balanço confirmar a piora ficou com menos de um décimo do valor do topo. A régua não sabia nada sobre as vendas da empresa. Ela só registrou que o dinheiro estava saindo.

O mesmo filme ao contrário: PETR4 em 2016

A antecipação também funciona para cima, e aí ela dói de outro jeito: você vê a ação subir e acha que "não faz sentido".

Em janeiro de 2016, a PETR4 fechou o mês a R$ 4,84. Em março, a régua virou para alta, a R$ 8,35, já 72,5% acima do fundo. O balanço, nesse tempo todo, só piorava: o prejuízo de 12 meses foi de −R$ 35,2 bilhões no fim de 2015 para −R$ 51,4 bilhões no 3T16, o pior da série. No fim desse trimestre, o preço estava em R$ 13,57, 62% acima da virada da régua. E esse balanço só chegou à CVM em 10/11/2016. O lucro de 12 meses só voltou ao positivo no 3T17.

Quem esperou "o balanço melhorar" para comprar pagou, no mínimo, 62% a mais. E quem olhava o P/L não tinha nem o que olhar: com prejuízo, o múltiplo não existe.

Medir antes de acreditar: 65 ações, 2012 a 2026

Dois casos escolhidos não provam nada. A pergunta honesta é: em muitas empresas e muitos anos, o preço vem mesmo antes? Quanto antes? A conta, publicada na Academy em setembro de 2026, usou 65 ações líquidas da B3 (mais de R$ 20 milhões negociados por dia) com pelo menos seis anos de balanços trimestrais. Para cada trimestre, mediu quanto o preço andou em 12 meses e quanto o lucro de 12 meses mudou em um ano, e calculou a correlação entre as duas séries deslizando uma contra a outra. A correlação vai de −1 a +1: +1 é andar sempre junto; 0 é não ter relação.

Preço comparado com o lucro… Correlação média nas 65
de um trimestre antes 0,15
do mesmo trimestre 0,24
de um trimestre depois 0,29
de dois trimestres depois 0,27

A curva é torta para a frente. O preço de hoje conversa mais com o lucro dos próximos 3 a 6 meses do que com o lucro que já saiu. Depois de cinco trimestres, a ligação some.

Antes de continuar: Empresa por empresa, em quantas das 65 a ligação foi mais forte com o preço vindo antes do lucro?

a) Em todas · b) Em 45 · c) Em 33, metade

Resposta: Em 45. Em 45 das 65, e em 30 delas a melhor defasagem foi de um ou dois trimestres. Em 6, os dois andaram juntos. Em 14, o lucro virou primeiro.

Uma correlação de 0,29 é moderada. O preço se mexe por juros, dólar e humor do mercado, não só pelo lucro. A antecipação é uma tendência forte na média, não um relógio.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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