O release é escrito na ordem inversa da importância
O material de resultados abre com os números que a empresa escolheu, como o EBITDA ajustado e o lucro recorrente, e termina com os que ela é obrigada a publicar. Quem lê de trás para frente chega primeiro ao que ninguém pôde escolher.

Em 1 minuto
- O release abre com os números que a empresa escolheu e termina nos que ela é obrigada a publicar: vale ler ao contrário.
- Em 2024, a Americanas lucrou R$ 8,28 bi com lucro operacional de R$ 0,65 bi e caixa das operações negativo; o lucro era quase todo da renegociação da dívida.
- O "ajustado" e o "recorrente" são definidos pela empresa; o teste é ver se o não recorrente volta todo trimestre.
Ao fim desta aula você vai saber
- Ler um release na ordem que protege do recorte favorável
- Separar o lucro da operação do lucro de um evento
- Testar se um ajuste é exceção ou custo com outro nome
A tese: o release é comunicação com número dentro
A cada trimestre, junto com o ITR ou a DFP, a empresa publica o release de resultados: um documento preparado pela área de relações com investidores, com gráficos, destaques e a mensagem da administração. A aula 1 mostrou onde achá-lo. Esta mostra como lê-lo.
O release não mente. Mas ele é organizado na ordem que favorece a empresa: primeiro vem o que ela escolheu mostrar, e só no fim, ou só no documento da CVM, o que ela é obrigada a publicar.
A ideia: Leia na ordem inversa: notas explicativas e fluxo de caixa primeiro, a capa por último. Quando chegar aos destaques, você já vai saber se eles contam a história inteira.
Isso não é desconfiança pessoal. É leitura de incentivo: ninguém é demitido por escolher, dentro das regras, o recorte mais favorável do trimestre.
O mecanismo: três escolhas que a empresa faz por você
1. A ordem. A capa traz o número que cresceu. Se a receita caiu e a margem subiu, a capa fala de margem. Se as duas caíram, fala do "avanço estratégico". A ordem já é uma opinião.
2. A definição. O EBITDA ajustado e o lucro recorrente não são linhas das demonstrações oficiais. São contas que a própria empresa faz a partir delas, tirando o que ela chama de não recorrente: uma reestruturação, uma baixa de valor, um ganho com venda de ativo, um processo. Às vezes a exclusão é justa. Mas quem decide o que é exceção é quem está sendo avaliado.
3. O recorte. O release escolhe a comparação: contra o trimestre anterior ou contra o mesmo trimestre do ano passado, antes ou depois de uma regra contábil, com ou sem uma controlada. Cada escolha pode virar a mesma empresa de lado.
A ordem em que vale ler
1. Notas explicativas, começando pela de empréstimos e financiamentos. É o texto mais seco que a empresa publica, e o mais útil: quanto deve, quando vence, em que moeda, com que garantias e com que cláusulas. Se uma parte grande da dívida vence nos próximos 24 meses e não há caixa equivalente, o próximo trimestre é sobre refinanciamento, não sobre operação. Na mesma busca, procure "risco sacado", como a aula 5 mostrou.
2. Fluxo de caixa. A demonstração completa, não o gráfico do release. Compare o caixa das operações com o lucro dos mesmos 12 meses (aula 2) e tire o capex (aula 4).
3. Balanço. Veja o que cresceu: estoques, recebíveis, dívida (aula 5).
4. DRE. Agora ela tem contexto. Ache o degrau onde está a mudança do ano (aula 3).
5. Só então, a capa e o ajustado. Você já sabe o que aconteceu com o dinheiro. Agora dá para julgar se o destaque é justo.
O caso: um lucro de R$ 8,28 bilhões sem operação por trás
Antes de continuar, arrisque.
Antes de continuar: Em 2024, a Americanas registrou lucro líquido de R$ 8,28 bi. Quanto foi o caixa gerado pelas operações no mesmo ano?
a) Uns R$ 8 bi, perto do lucro · b) Uns R$ 3 bi positivos · c) Negativo, uns −R$ 3,5 bi
Resposta: Negativo, uns −R$ 3,5 bi. −R$ 3,55 bi. O lucro operacional foi de só R$ 0,65 bi. Quase todo o lucro veio de baixo da operação, do resultado financeiro.
Desça a DRE de 2024 da Americanas, na DFP entregue em 26/03/2025, e o lucro se desmonta:
| Americanas 2024 | R$ bilhões |
|---|---|
| Receita | 14,35 |
| Lucro operacional | 0,65 |
| Resultado financeiro | +12,32 |
| Lucro antes do imposto | 12,97 |
| Imposto de renda | −4,69 |
| Lucro líquido | 8,28 |
| Caixa das operações | −3,55 |
O resultado financeiro de R$ 12,3 bilhões não veio de aplicações. Segundo a própria empresa, ao divulgar o ano, o resultado "foi influenciado principalmente por ganhos financeiros decorrentes da quitação das dívidas concursais", com o reconhecimento de descontos sobre a dívida (os haircuts do plano de recuperação judicial) e a reversão de encargos. O imposto incluiu uma baixa de cerca de R$ 4,7 bilhões de créditos fiscais diferidos.
Nada disso é irregular. É o registro contábil correto de uma dívida que foi perdoada em parte. Mas não é operação, não é caixa e não se repete: em 2025, a mesma empresa teve prejuízo de R$ 0,27 bilhão.
R$ 8,28 bi lucro líquido da Americanas em 2024 · R$ 0,65 bi lucro operacional no mesmo ano · −R$ 3,55 bi caixa gerado pelas operações
Quem lesse a manchete veria uma virada. Quem lesse na ordem desta aula veria primeiro um caixa das operações negativo, depois uma dívida que encolheu, depois um lucro operacional pequeno, e só então entenderia o lucro da capa: um evento de uma vez só.
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