Entrar
Risco e proteção: sobreviver às quedas · Aula 3 de 5

Concentração: quando uma ação vira metade da carteira

Uma carteira que começou com 10% em MGLU3 no fim de 2015 e nunca foi mexida chegou a ter 95% num papel só. Multiplicou por 40, depois devolveu 91%. Vendendo o excesso, terminou com quase o dobro.

por Vinícius Rosa6 min de leituraatualizada em trecho aberto
Concentração: quando uma ação vira metade da carteira

A ideia

Todo investidor sonha com a ação que multiplica. Poucos pensam no problema que ela cria: quando uma posição sobe muito mais que as outras, ela passa a ser a carteira. O que começou como uma aposta de 10% vira 50%, 70%, 90% do patrimônio, sem que você tenha comprado nada. E aí o seu futuro depende de uma empresa só.

Esta aula conta essa história com um caso real da B3 e com os testes da pesquisa do Quantor.

O que testamos

Uma simulação simples, com dados reais: em dezembro de 2015, uma carteira de R$ 100 mil com R$ 10 mil em MGLU3 e R$ 90 mil no Ibovespa (o índice das principais ações; aqui ele faz o papel das outras ações). Três jeitos de cuidar dela até setembro de 2026, sempre com dividendos:

  1. Nunca mexer. A vencedora corre solta.
  2. Voltar a 10% todo mês. Vende o que a MGLU3 subiu acima de 10% e compra índice.
  3. Vender o excesso quando passar de 25%. Só mexe quando a MGLU3 ultrapassa um quarto da carteira; aí volta a 10%.

Nada disso é recomendação. É uma ilustração com uma ação real e datas reais, escolhida justamente porque é um caso extremo.

O resultado

MGLU3: a vencedora que virou a carteira

Leitura: em cima, quantas vezes a MGLU3 multiplicou desde dez/2015; embaixo, o peso dela na carteira que nunca foi mexida. O que olhar: o peso embaixo sobe junto com a ação, até quase ocupar a carteira toda.

De dezembro de 2015 a janeiro de 2021, a MGLU3 multiplicou por 375, contando dividendos. Na carteira que nunca foi mexida, o peso dela foi a 32% no fim de 2016, 70% no fim de 2017 e 95% em outubro de 2020. Depois, a ação caiu 98% do topo. Em setembro de 2026, valia cerca de 10 vezes o valor de 2015.

Três jeitos de cuidar da vencedora

Leitura: escala logarítmica (a mesma distância vale a mesma porcentagem). As quatro linhas começam em 1 (os R$ 100 mil de dez/2015). Repare: a linha de quem nunca mexeu sobe mais alto e cai mais fundo; a de quem vendeu o excesso termina na frente.

  • Nunca mexer: a carteira chegou a 40 vezes o valor inicial no fim de 2020 e depois devolveu 91%. Terminou em 4,8 vezes.
  • Voltar a 10% todo mês: nunca passou de 6 vezes, e a pior queda (o maior tombo do topo ao fundo) foi de 35%. Terminou em 5,5 vezes.
  • Vender o excesso acima de 25%: pegou uma parte maior da subida e também caiu só 35%. Terminou em 8,8 vezes, quase o dobro de quem não mexeu.
  • Só Ibovespa: 4,2 vezes.

Quem não mexeu teve o melhor momento de todos e terminou pouco acima de quem nunca teve a MGLU3. Quem vendeu o excesso nunca viu o 40 vezes, e terminou na frente.

O que quase ninguém sabe. Na pesquisa do Quantor, deixar a vencedora correr quase não muda o retorno médio. Nas 10 ações de maior índice da casa (IQ, uma nota que o Quantor dá para ações que sobem com constância, sem sustos), com a trava do Ibovespa, reequilibrar todo mês fez +27,1% ao ano; não reequilibrar, +27,4%. O que muda é a dependência. Com 3 ações e sem reequilibrar, a MGLU3 chegou a 81% da carteira. E numa carteira concentrada de momentum (ações que vêm subindo e tendem a continuar subindo por um tempo) com 3 ações, as duas melhores (MGLU3 e BIDI4) eram quase todo o ganho. Sem elas, o retorno caía de +17,2% para +11,3% ao ano, perto do CDI. Nas 10 ações do IQ, tirar as duas melhores custava só 1,2 ponto percentual. Carteira boa é a que não depende de uma ação dar certo.

Voltar à trilha Risco e proteção: sobreviver às quedasTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.