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Risco e proteção: sobreviver às quedas · Aula 2 de 5

A queda e o tempo de recuperação

O Ibovespa levou mais de 9 anos para voltar ao topo de 2008. E das 336 ações da B3 que caíram 50% ou mais desde 2006, só 125 voltaram ao preço de antes. Perder metade exige dobrar.

por Vinícius Rosa5 min de leituraatualizada em
A queda e o tempo de recuperação

A ideia

"No longo prazo, a bolsa sempre volta." A frase é verdadeira para o índice, na maior parte do tempo. O que ela esconde são duas coisas: quanto tempo a volta leva, e o fato de que muitas ações, sozinhas, nunca voltam.

Esta aula mede as duas, com o Ibovespa (o índice das principais ações brasileiras) desde 1996. E com todas as ações que estiveram entre as líquidas da B3 desde 2006, inclusive as que quebraram ou fecharam o capital (saíram da bolsa).

Todos os números usam o retorno com proventos, ou seja, somando dividendos e juros sobre capital próprio.

A conta que ninguém faz

A conta da volta

Leitura: a barra é a alta necessária para voltar ao ponto de partida; à direita, quanto tempo isso leva rendendo 10% ao ano. O que olhar: a barra cresce muito mais rápido que a queda.

Uma queda de 10% pede uma alta de 11% para empatar. Até aí, parece simétrico. Mas uma queda de 50% pede +100%: R$ 100 viram R$ 50, e R$ 50 precisam dobrar para voltar a R$ 100. Uma queda de 80% pede +400%. De 90%, +900%.

Rendendo 10% ao ano, recuperar uma queda de 50% leva 7,3 anos. Uma de 80%, quase 17 anos. O tamanho da queda manda mais no seu resultado do que o tamanho da alta.

O que saiu: o índice

Quanto o Ibovespa esteve abaixo do topo

Leitura: a área vermelha é a distância do último topo. Os rótulos dão a pior queda e os meses do topo até voltar a ele. Repare: a área de 2008 é a mais longa de todas.

Desde 1996, o Ibovespa teve oito quedas de 20% ou mais. As maiores: a de 1997–1998 chegou a −65% e levou 28 meses do topo até a volta. A de 2000–2002, −56%, 44 meses. A de 2020 foi a mais rápida: −47% em dois meses e volta ao topo em um ano.

A de 2008 é a lição. O índice caiu 60% entre maio e outubro de 2008, em cinco meses. Voltou ao topo só em setembro de 2017: 112 meses, mais de nove anos, contando os dividendos. E isso sem descontar a inflação; em poder de compra, a volta demorou mais.

O que saiu: as ações

Depois da pior queda, quantas voltaram ao topo?

Leitura: cada barra é um grupo de ações pelo tamanho da pior queda. Verde: voltaram ao topo anterior até set/2026 ou até sair da bolsa. O que olhar: quanto maior a queda, menor a parte verde.

Das 437 ações, só 13 nunca caíram 20%. A queda típica (a mediana, a do meio da fila) foi de −75%.

  • Caiu de 20% a 50%: 74% voltaram ao topo, e quem voltou levou um ano (12 meses, na mediana).
  • Caiu de 50% a 70%: 63% voltaram, em 19 meses.
  • Caiu de 70% a 90%: 41% voltaram, em quase quatro anos.
  • Caiu 90% ou mais: 119 ações, e só 16 voltaram.

O que quase ninguém sabe. Das 336 ações da B3 que caíram 50% ou mais desde 2006, só 125 voltaram ao preço do topo anterior, contando dividendos. As outras 211 ainda estavam abaixo em setembro de 2026, ou saíram da bolsa antes de voltar. Esse número só aparece numa base que guarda as empresas que deixaram a bolsa. Numa lista das ações de hoje, as que nunca voltaram simplesmente não estão lá, e a frase "sempre volta" parece verdade. Esse erro tem nome: viés de sobrevivência (testar só com as empresas que existem hoje, esquecendo as que quebraram ou saíram da bolsa).

Um caso: PETR4

A PETR4, uma das ações mais negociadas da bolsa, caiu 87% entre maio de 2008 e janeiro de 2016, com dividendos incluídos. Só voltou ao topo de 2008 em dezembro de 2021: mais de 13 anos depois do pico. Quem comprou no fundo de 2016 multiplicou o dinheiro por mais de 40 até 2026. Quem comprou no topo de 2008 esperou uma década e meia para empatar. A mesma empresa, dois investidores, duas histórias opostas: o que mudou foi o preço de entrada e o tamanho da queda que cada um atravessou.

Não é recomendação: é o que o número mostra sobre o passado.

Onde o teste pode enganar

  • Fechamentos mensais. A pior queda das ações (o maior tombo do topo até o fundo) foi medida no fim de cada mês; dentro do mês, pode ter sido maior.
  • Valores nominais (sem descontar a inflação). Com a inflação descontada, os tempos de volta seriam mais longos.
  • "Voltou ao topo" até set/2026. Algumas das que não voltaram ainda podem voltar.

A versão prática

  1. Pense em queda como tempo, não como porcentagem. "Caiu 50%" quer dizer "anos para empatar".
  2. Não conte com a volta de uma ação sozinha. O índice voltou; a maioria das ações que caíram forte, não.
  3. Limite a queda antes de ela ficar grande. Um stop (ordem de saída se o preço cair até certo ponto) ou uma régua (a linha dos fechamentos dos últimos 5 meses; fechou abaixo, "em baixa") que tira você com −25% evita a conta dos +400%.
  4. Guarde o dinheiro de curto prazo fora da bolsa. Quem precisa vender no fundo transforma queda temporária em perda definitiva.

No Quantor

Na Carteira, a aba de risco mostra a pior queda da sua carteira, a volatilidade (o tamanho do sobe-e-desce) e o pior dia. Na tela Analisar papel, o bloco Risco × mercado compara o papel com o Ibovespa desde 2016, em retorno e em risco. O bloco Seguir a régua funcionou? mostra a pior queda de segurar contra a de seguir a régua naquele papel. Os números desta aula saíram da base histórica da pesquisa do Quantor.

Teste você mesmo

Pegue a ação que mais pesa na sua carteira. Descubra a pior queda dela nos últimos 15 anos e quanto tempo levou para voltar ao topo. Agora imagine que a próxima queda seja igual: você aguentaria esperar esse tempo todo, sem vender?

O que fica

  • Perder 50% exige ganhar 100%; perder 80% exige ganhar 400%.
  • O Ibovespa levou mais de nove anos para voltar ao topo de 2008.
  • Das ações que caíram metade ou mais desde 2006, só pouco mais de um terço voltou.

Para pensar: qual é a maior queda que você aguentaria ver na sua carteira sem mudar de plano, em reais, não em porcentagem?

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.