A trava do índice: o que ela fez em 2008, 2015, 2020 e 2022
Uma regra de uma linha, conferida uma vez por mês, levou o Ibovespa de +8,8% para +11,2% ao ano desde 2006 e cortou a pior queda de −50% para −20%. Mais da metade das saídas foram alarmes falsos, e mesmo assim ela ganhou.

A ideia
Em setembro de 2008, quem tinha ações assistiu ao Ibovespa (o índice das principais ações da bolsa brasileira) perder metade do valor em poucos meses. A pergunta que todo mundo faz depois é a mesma: dava para ter saído antes? Não no topo, que ninguém acerta. Mas antes do pior?
Esta aula mostra uma regra que responde "em boa parte, sim", com os números de 20 anos, as quatro crises e, principalmente, o custo.
A trava em uma frase
No último pregão (dia de negociação) de cada mês, olhe o Ibovespa. Se fechou abaixo da média exponencial dos últimos 5 fechamentos mensais, o dinheiro vai para o CDI no mês seguinte. Se fechou acima, fica na bolsa.
A média exponencial de 5 meses é uma média dos últimos cinco fechamentos mensais que dá mais peso aos meses recentes. Ela acompanha a tendência de médio prazo: um índice que cai por dois ou três meses seguidos costuma fechar abaixo dela. No Quantor, chamamos essa linha de régua. Aplicada ao índice, ela vira a trava.
A decisão é mensal, no fechamento. Nada de olhar o gráfico todo dia.
O que testamos
Fizemos um backtest, isto é, simulamos como a regra teria se saído no passado, com os dados de cada época. Pegamos o Ibovespa com proventos (o índice com os dividendos reinvestidos) e o CDI, mês a mês, de dezembro de 2005 a setembro de 2026: 250 meses. Comparamos três caminhos: ficar sempre no índice, ficar sempre no CDI e seguir a trava. Depois olhamos de perto as quatro grandes quedas do período.
O resultado

Leitura: as faixas escuras são os meses no CDI. A linha verde anda de lado nas crises, enquanto a amarela afunda. O que olhar: nas crises, a linha com a trava fica parada enquanto o índice despenca.
Em 20 anos, a trava rendeu +11,2% ao ano, contra +8,8% do Ibovespa e +10,2% do CDI. A pior queda (o maior tombo do topo ao fundo) caiu de −50% para −20%. R$ 1.000 viraram cerca de R$ 9.000 com a trava e R$ 5.800 no índice. O dinheiro ficou no CDI em 96 dos 250 meses, quase 40% do tempo.

Leitura: pior queda dentro de cada período, com e sem a trava. Embaixo, o resultado ao fim do período. Repare: em todas as crises, a barra com a trava é bem menor que a do índice.
- 2008. O Ibovespa fechou junho abaixo da régua e a trava saiu no começo de julho. Nos nove meses seguintes, fora da bolsa, o índice caiu 37% e o CDI rendeu 9,5%. A volta foi em abril de 2009, já no começo da recuperação. De junho de 2008 a junho de 2009, o índice terminou em −29%; com a trava, em +23%.
- 2013–2016. Uma queda lenta, de três anos, com muitos repiques (altas curtas no meio da queda). A trava entrou e saiu várias vezes e passou 24 meses no CDI. O índice terminou o período em −30%; a trava, em +9%.
- 2020. O Ibovespa fechou fevereiro abaixo da régua, e a trava estava fora em março, quando o índice caiu 30% num mês. Perdeu a recuperação de abril a junho, mas ainda saiu na frente nesses quatro meses. O que custou caro foi outra saída, em outubro, logo antes de uma alta de 16% em novembro. No ano, o índice fez +3% e a trava, −1%.
- 2021–2022. Juros subindo, bolsa de lado para baixo. Pior queda de −22% no índice e −10% com a trava.
O que quase ninguém sabe. Das 34 vezes em que a trava saiu da bolsa em 20 anos, 19 foram alarmes falsos: o Ibovespa subiu mais que o CDI enquanto ela estava fora. Mais da metade dos sinais errou, e mesmo assim a regra ganhou do índice por 2,4 pontos percentuais ao ano (a diferença entre as duas taxas). A conta fecha porque os erros são curtos (sempre um ou dois meses fora numa alta) e os acertos, nas crises, são enormes: só a saída de julho de 2008 evitou uma queda de 37%. Uma boa regra de proteção não precisa acertar muito. Precisa errar barato.
O outro lado: a trava não ganha sempre

Leitura: em 2020–2026, a trava rendeu menos que o índice e que o CDI. O que olhar: nos dois primeiros períodos ela ganha; no último, fica atrás dos dois.
De 2006 a 2012 e de 2013 a 2019, a trava ganhou do índice com folga. De 2020 a 2026, perdeu: +5,7% ao ano, contra +7,1% do Ibovespa e +10,0% do CDI. Foram anos de quedas rápidas seguidas de voltas rápidas. É o pior cenário para uma regra mensal: ela sai depois da queda e volta depois da alta. Quem usa a trava precisa aceitar períodos assim.
Onde o teste pode enganar
- O CDI alto ajudou muito. Nos EUA, com o caixa rendendo quase nada, a mesma regra custou caro. A trilha Brasil × EUA mostra os números.
- Decisão só no fim do mês. Uma queda relâmpago dentro do mês passa inteira.
- Imposto e custo de entrar e sair não estão na conta do índice. Com ETF (um fundo negociado na bolsa que copia um índice), cada saída pode gerar imposto.
A versão prática
- Decida a regra antes da crise. Na hora do pânico, ninguém consegue criar critério.
- Olhe uma vez por mês, no fechamento. A trava é mensal justamente para não reagir a cada notícia.
- Aceite os alarmes falsos. Mais da metade das saídas vão parecer erro. É o preço do seguro.
- Use a trava como camada, não como estratégia inteira. Ela funciona melhor sobre uma carteira boa do que sozinha.
No Quantor
Em Mundo, o Ibovespa aparece na régua com os outros índices. Na tela Analisar papel do BOVA11 (o ETF que copia o Ibovespa), o bloco A régua, na Técnica, mostra o preço em que a régua do índice vira e a folga até lá: é a trava, ao vivo. A aba Risco traz o termômetro do mercado para dar contexto. Nos testes da pesquisa do Quantor, a trava foi o melhor controle de risco para carteiras de ações. Nas 10 ações de maior índice da casa (IQ, uma nota que o Quantor dá para ações que sobem com constância, sem sustos), levou a pior queda de −46% para −20%.
O que fica
- Uma regra mensal de uma linha cortou a pior queda do Ibovespa de −50% para −20% em 20 anos.
- Mais da metade das saídas foram alarmes falsos. A regra ganhou porque os erros foram pequenos e os acertos, grandes.
- De 2020 para cá, ela perdeu do índice. Proteção tem custo e tem fases ruins.
Para pensar: se a bolsa caísse 30% no mês que vem, você já sabe hoje o que faria, ou decidiria no meio da queda?
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