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Tesouro Direto por dentro · Aula 1 de 6

Tesouro: três apostas opostas com o mesmo nome

Selic, Prefixado e IPCA+ têm o mesmo emissor e o mesmo risco de calote. O que muda é quem carrega o risco do juro e da inflação, e essa escolha vem escrita no nome do título, não na taxa.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Tesouro: três apostas opostas com o mesmo nome

Em 1 minuto

  • Selic, Prefixado e IPCA+ têm o mesmo emissor e o mesmo risco de calote; o que muda é quem carrega o risco do juro e da inflação.
  • Em 26/10/2026, o Prefixado 2032 travava 15,78% e o IPCA+ 2032, IPCA + 8,10%: o empate entre os dois pede inflação média de 7,10% ao ano.
  • No mesmo mês, o Tesouro Selic quase não oscilou, o Prefixado 2032 caiu 6,1% e o IPCA+ 2050, 9,9%.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Dizer qual aposta cada título do Tesouro faz por você
  • Calcular a inflação implícita entre um Prefixado e um IPCA+
  • Escolher o título pelo uso do dinheiro, não pela taxa

A tese: "Tesouro" é o nome da loja, não do produto

"Coloquei no Tesouro" é uma frase que não diz quase nada. No Tesouro Direto há sete famílias de títulos, e três delas reagem de forma oposta ao mesmo acontecimento. Num mês em que o juro de mercado sobe, uma segue rendendo o juro do dia, outra perde 6% de preço e a terceira perde 10%. Todas são do mesmo emissor e têm o mesmo risco de calote.

A ideia: O que muda de um título para outro não é a segurança, é a aposta.

E a aposta não está na taxa, que é a parte que todo mundo olha. Está no nome: Selic, Prefixado, IPCA+. Cada nome diz quem carrega o risco do juro e quem carrega o risco da inflação, você ou o governo.

O módulo 1 mostrou as três formas de render (pós, pré e híbrido). Esta aula mostra como o Tesouro embala cada uma delas, com as taxas de 26/10/2026, e qual aposta você assina sem perceber quando escolhe uma.

O mecanismo: três escolhas que vêm junto com o título

1. O indexador decide quem carrega o risco do juro. No Tesouro Selic, o título é corrigido pela Selic de cada dia: se o Copom sobe a taxa, o título passa a render mais na mesma hora. O risco do juro fica com o governo. No Prefixado, a taxa é travada no dia da compra: se o juro sobe depois, você continua recebendo a taxa velha, e o preço do título cai para compensar quem comprar dele. O risco do juro fica com você. No IPCA+, o governo carrega a inflação (ele corrige o valor do título pelo IPCA) e você carrega o juro real, a parte fixa acima da inflação.

2. O prazo decide o tamanho da aposta. Um Prefixado que vence em três meses quase não aposta em nada; um que vence em seis anos aposta na média do CDI de seis anos. Quanto mais longe o vencimento, mais o preço balança com cada movimento do juro. A aula 4 transforma isso em reais.

3. O fluxo decide quando você recebe e quando paga imposto. Alguns títulos pagam tudo no vencimento. Outros pagam juros a cada seis meses, com imposto retido em cada pagamento. E dois deles, o Renda+ e o Educa+, acumulam por anos e depois devolvem o dinheiro em parcelas mensais. A taxa pode ser a mesma e o resultado no bolso, diferente.

A família inteira, numa tabela

Título Como rende Fluxo Quem carrega o risco do juro
Tesouro Selic Selic do dia, mais ou menos um ajuste pequeno tudo no vencimento o governo
Tesouro Prefixado taxa travada, valor de R$ 1.000 no vencimento tudo no vencimento você (juro nominal)
Prefixado com Juros Semestrais taxa travada; cupom de 10% ao ano sobre R$ 1.000, pago a cada seis meses cupons semestrais + R$ 1.000 no fim você (juro nominal)
Tesouro IPCA+ inflação + taxa travada tudo no vencimento você (juro real)
IPCA+ com Juros Semestrais inflação + taxa travada; cupom de 6% ao ano sobre o valor corrigido cupons semestrais + principal no fim você (juro real)
Tesouro Renda+ inflação + taxa travada acumula até a data de conversão; depois, 240 parcelas mensais (20 anos) você (juro real)
Tesouro Educa+ inflação + taxa travada acumula até a data de conversão; depois, 60 parcelas mensais (5 anos) você (juro real)

Os cupons de 10% e de 6% ao ano são fixos por regra do título e não são a rentabilidade: a rentabilidade é a taxa de compra. O cupom só define quanto do dinheiro volta antes do fim. A aula 5 mostra o que isso faz com o imposto e com o reinvestimento.

Renda+ e Educa+ são, por dentro, títulos IPCA+ com um calendário de pagamento diferente, pensado para aposentadoria e para mensalidade escolar. Eles carregam a mesma aposta no juro real que o IPCA+ e, por serem longos, oscilam de preço como os IPCA+ mais longos. Também têm regras próprias de taxa de custódia, que a aula 6 detalha.

As três apostas com os números de 26/10/2026

Estas são taxas de compra, as que quem comprou em 26/10/2026 travou. A aba Juros mostra a taxa de venda, 0,12 ponto acima (a aula 2 explica a diferença).

Título Taxa de compra em 26/10/2026 A aposta escrita em uma frase
Tesouro Selic 2031 Selic + 0,10% (Selic em 13,75%) "quero o juro do dia, sem opinião"
Prefixado 2029 15,40% ao ano "o CDI médio até jan/2029 vai ficar abaixo de 15,40%"
Prefixado 2032 15,78% ao ano "o CDI médio até jan/2032 vai ficar abaixo de 15,78%"
IPCA+ 2029 IPCA + 8,16% "quero 8,16% acima da inflação, dê no que der"
IPCA+ 2035 IPCA + 8,02% idem, por 8 anos e meio
IPCA+ 2045 IPCA + 7,66% idem, por 18 anos e meio

Repare no contexto do dia. A Selic estava em 13,75%, depois de cinco cortes seguidos de 0,25 ponto (o último em 17/09/2026). O Focus de 23/10/2026 esperava Selic de 13,25% no fim de 2026 e 11,75% no fim de 2027. Mesmo assim, o Prefixado 2032 pagava quase 16%. Quem compra esse prefixado não aposta só que a Selic vai cair: aposta que vai cair mais do que a taxa de 15,78% já desconta. Essa é a parte que quase ninguém escreve.

Prefixado ou IPCA+? A conta do empate

Quando há um Prefixado e um IPCA+ com vencimento parecido, a escolha entre eles se resume a uma pergunta: quanto vai ser a inflação até lá? Existe uma inflação que deixa os dois empatados, e ela se chama inflação implícita:

(1 + taxa do Prefixado) ÷ (1 + taxa do IPCA+) − 1

Antes de continuar: Prefixado 2032 a 15,78% contra IPCA+ 2032 a IPCA + 8,10%. Qual inflação média até 2032 deixa os dois empatados?

a) Uns 3,5%, perto do que o Focus espera · b) Uns 5,2%, a inflação esperada para 2026 · c) Uns 7,1%, bem acima do que o Focus espera

Resposta: Uns 7,1%, bem acima do que o Focus espera. (1,1578 ÷ 1,0810) − 1 = 7,10% ao ano. Para 2029, o empate é de 6,69%. O Focus esperava 4,34% em 2027 e 3,50% em 2029: o mercado cobrava caro pelo seguro contra a inflação.

Com as taxas de compra de 26/10/2026: para 2029, (1,1540 ÷ 1,0816) − 1 = 6,69% ao ano. Para 2032, (1,1578 ÷ 1,0810) − 1 = 7,10% ao ano. Se o IPCA médio até 2032 ficar abaixo de 7,10%, o Prefixado entrega mais. Acima, o IPCA+ entrega mais.

Agora compare com a previsão. O Focus esperava IPCA de 5,19% em 2026, 4,34% em 2027, 3,75% em 2028 e 3,50% em 2029 e 2030. O empate está bem acima de qualquer um desses números. Se os economistas acertarem, o Prefixado rende mais.

Por que então alguém compra IPCA+? Porque ninguém sabe a inflação dos próximos cinco anos, e o IPCA+ é o seguro contra o cenário em que ela dispara.

A ideia: A distância entre o empate e a previsão é o preço do seguro contra a inflação.

E esse preço muda: em 18/09/2026, o empate até 2032 era de 6,14%. Em pouco mais de um mês, subiu quase 1 ponto, porque os prefixados subiram de taxa bem mais que os IPCA+.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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