Entrar
Mão na massa: o seu plano · Aula 1 de 3

O primeiro título: o clique é fácil, a tela é que engana

Abrir conta e comprar um título do Tesouro leva minutos. O que decide se a compra foi boa está em quatro números da tela que quase ninguém lê: a taxa de compra, o preço, a data de vencimento e a diferença para o preço de venda.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
O primeiro título: o clique é fácil, a tela é que engana

Em 1 minuto

  • Comprar um título do Tesouro leva minutos, pelo portal com a conta gov.br e PIX ou por uma corretora; o erro está no que não se lê na tela.
  • A tela trava a taxa, não o preço, e mostra a taxa de compra, mas a saída é pela de venda: no IPCA+ 2050, essa diferença vale 2,7% do preço.
  • O número da tela é bruto: imposto, custódia de 0,20% ao ano e IOF ficam por sua conta.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Ler os quatro números da tela de compra
  • Saber os horários em que a compra e a venda saem pelo preço do momento
  • Calcular quantos títulos você compra e quanto sobra no vencimento

A tese: comprar é a parte fácil; o erro está no que você não leu na tela

Comprar o primeiro título público leva menos tempo que pedir comida pelo celular. Esse é o problema. A facilidade do clique dá a impressão de que a decisão também foi simples, e a maior parte dos erros caros da renda fixa acontece exatamente aí: no título certo comprado para o prazo errado, na taxa que parecia alta e era de outro vencimento, no "rende 15%" lido como garantia mesmo para quem vender antes.

Esta aula é um passo a passo. Mas o objetivo não é ensinar onde clicar, porque os botões mudam de lugar a cada atualização de aplicativo. O objetivo é ensinar o que conferir em cada tela.

A ideia: Os quatro números que decidem a compra são os mesmos em qualquer instituição: a taxa de compra, o preço unitário, o vencimento e a distância até o preço de venda.

O mecanismo: três coisas que a tela de compra faz por você (e uma que não faz)

1. Ela trava a taxa, não o preço. No momento em que você confirma, a taxa do título fica contratada até o vencimento. O preço que você vê no extrato, no dia seguinte, já é outro: é o preço de mercado, que sobe e desce com os juros. A taxa só vira resultado se você ficar até o fim. O módulo 2 mostrou por quê; aqui você vai ver isso acontecer na sua própria conta.

Antes de continuar: Em 26/10/2026, você compra R$ 1.000 no Tesouro Prefixado 2032 e, por algum motivo, vende no mesmo dia. Quanto recebe?

a) R$ 1.000: o título é do governo e o juro não mudou · b) Cerca de R$ 995 · c) Cerca de R$ 950

Resposta: Cerca de R$ 995. Cerca de R$ 995. O Tesouro vendia a 15,78% e recomprava a 15,90%: 0,12 ponto que, em cinco anos de prazo, vira cerca de 0,5% do preço. No IPCA+ 2050, a mesma diferença vira 2,7%.

2. Ela mostra a taxa de compra, mas a saída é pela taxa de venda. O Tesouro vende o título por uma taxa um pouco menor do que a usada para recomprá-lo. Taxa menor quer dizer preço maior. Em 26/10/2026, o Prefixado 2032 era vendido ao investidor a 15,78% e recomprado a 15,90%: uma diferença de 0,12 ponto que, multiplicada por cinco anos de prazo, vira cerca de 0,5% do preço. No IPCA+ 2050, com quase 24 anos de prazo, a mesma diferença vira 2,7%. É o custo de entrar e sair, e a aula 6 do módulo 2 já mostrou o tamanho dele.

3. Ela calcula o mínimo, mas não o prazo certo. A tela diz quanto você pode aplicar e quanto o título "rende". Ela não pergunta para quando é o dinheiro. Essa pergunta é sua, e a ficha do diagnóstico (módulo 0) já a respondeu.

E a coisa que ela não faz:

Cuidado: A tela nunca mostra quanto sobra depois do imposto e da custódia. O número que aparece é bruto.

A conta líquida é com você, e a próxima aula entrega uma planilha que faz isso.

Caminho 1: pelo site ou aplicativo do Tesouro Direto

Hoje dá para comprar direto no portal do Tesouro Direto, sem abrir conta antes numa corretora. O caminho, conferido no site oficial (tesourodireto.com.br) em outubro de 2026:

Etapa O que acontece O que conferir
Entrar com a conta gov.br o login é o mesmo dos serviços do governo; as notícias do lançamento citam o nível prata ou ouro se o seu nível de conta é suficiente
Escolher a instituição de custódia um banco ou corretora habilitado guarda os títulos em seu nome; no cadastro simplificado, a lista é a das instituições integradas a taxa que ela cobra, se cobrar (a lista de bancos e corretoras está no próprio site do Tesouro)
Responder ao perfil de investidor o questionário de suitability, exigido pela CVM (Resolução 30), mede prazo, objetivo e tolerância a risco responda com honestidade: é a mesma pergunta 3 do diagnóstico
Pagar por PIX, lendo um QR code, de uma conta corrente no seu próprio CPF a titularidade: PIX de conta de outra pessoa não é aceito

O PIX mudou a parte mais chata do processo. Antes, era preciso transferir o dinheiro para a corretora e só depois comprar. Pelo portal, você escolhe o título, define o valor e paga na hora.

Caminho 2: por uma corretora ou banco

O caminho mais comum ainda é a corretora ou o banco onde você já tem conta. Ela cadastra você no Tesouro Direto e mostra os títulos numa área própria do aplicativo. O fluxo é o mesmo em todas:

  1. Abrir a conta de investimento, com documento, comprovante de residência e o questionário de perfil.
  2. Transferir o dinheiro de uma conta no seu nome para a conta da corretora.
  3. Ir à área do Tesouro Direto, que é diferente da prateleira de CDBs e de crédito privado.
  4. Escolher o título e confirmar com a sua assinatura eletrônica.

A corretora também vende CDB, LCI, LCA, debêntures e CRI na mesma tela. Ali, os números a conferir são outros: quem é o emissor (o banco ou a empresa que deve o dinheiro, não a corretora), se tem FGC, a liquidez (diária, no vencimento ou com carência) e o valor mínimo. O título fica registrado em seu nome, e o extrato da B3, na Área do Investidor, mostra isso. Se a corretora quebrar, o título continua seu; se o emissor quebrar, entra a regra do FGC do módulo 3.

A tela de compra, número por número

Pegue o Tesouro Prefixado 2032, que paga R$ 1.000 por título em 01/01/2032. Com a taxa de compra de 15,78% em 26/10/2026 e cerca de 5,2 anos até o vencimento, o preço de um título fica perto de R$ 468. É o valor de face trazido a valor presente pela taxa: 1.000 ÷ 1,1578 elevado a 5,18.

O que a tela mostra Exemplo (26/10/2026) O que significa
Taxa de compra 15,78% ao ano o que você recebe se ficar até 01/01/2032, antes de imposto e custódia
Preço unitário cerca de R$ 468 quanto custa um título inteiro hoje
Investimento mínimo cerca de R$ 4,70 1% do título: o regulamento exige compras em múltiplos de 0,01 título
Vencimento 01/01/2032 a data em que o dinheiro volta sem depender do preço de mercado

Duas observações que a tela não faz. A primeira: a taxa mais alta da lista não é a melhor, é a de outro prazo. Nesse mesmo dia, o Tesouro Selic pagava a Selic mais 0,05 e o IPCA+ 2045 pagava a inflação mais 7,66%. São três apostas diferentes com o mesmo nome, e compará-las pela taxa é comparar laranja com litro de leite. A segunda: o mínimo pequeno não é um convite para comprar um pouco de cada. Cada título precisa ter um objetivo na ficha.

Voltar à trilha Mão na massa: o seu planoTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.