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Estratégia: montar a sua renda fixa · Aula 2 de 6

Carteira por objetivo: um balde para cada data

Uma carteira só, com um "perfil" só, mistura dinheiros que vencem em datas diferentes. O que decide o título não é o seu perfil, é a data de cada objetivo, e errar a data custa nos dois sentidos.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Carteira por objetivo: um balde para cada data

Em 1 minuto

  • Uma pessoa não tem um prazo, tem vários: a reserva, um objetivo de poucos anos e a aposentadoria, cada um com a sua data.
  • Vencer depois da data traz risco de preço; vencer antes traz risco de reinvestimento; casar o prazo elimina os dois.
  • Um prefixado que vence na data transforma o objetivo num número conhecido no dia da compra; renovar títulos curtos deixa o resultado na mão da taxa futura, que no prefixado de um ano já foi de 18,62% a 2,46%.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Separar o seu dinheiro em baldes por data
  • Escolher o vencimento e o indexador de cada balde
  • Calcular quanto aplicar hoje para chegar a um valor líquido

A tese: o seu perfil de investidor não escolhe título nenhum

A pergunta mais comum na renda fixa é "qual é o melhor título para o meu perfil?". Ela parte de uma ideia errada: a de que uma pessoa tem um prazo. Não tem. Uma mesma pessoa tem uma reserva que pode ser usada amanhã, uma entrada de apartamento para daqui a quatro anos e uma aposentadoria para daqui a vinte.

A ideia: Cada um desses dinheiros tem uma data, e a data decide o título.

Uma carteira única, com uma régua única de risco, faz a média dessas datas. E a média de três prazos é um prazo que não serve a nenhum deles: longo demais para a entrada do apartamento, curto demais para a aposentadoria.

A saída se chama carteira por objetivo: um "balde" para cada objetivo, cada balde com a sua data, o seu valor e o seu tipo de título. É a ficha do diagnóstico do módulo 0 virando carteira.

O mecanismo: três forças que fazem a data mandar

1. Vencimento depois da data: risco de preço. Se o título vence depois do dia em que você precisa do dinheiro, você vai vender antes, pelo preço do dia. Um título prefixado sem cupom com taxa de 15,71% e vendido quando ainda faltam quatro anos para vencer ganha 7,2% se a taxa de mercado tiver caído 2 pontos e perde 6,6% se ela tiver subido 2 pontos. Num título longo, a gangorra é muito maior: o Tesouro IPCA+ 2045 caiu 30,4% entre 30/12/2020 e 29/12/2022.

2. Vencimento antes da data: risco de reinvestimento. Se o título vence antes, você reaplica sem saber a que taxa. O prefixado de um ano, em prazo constante, já pagou 18,62% (agosto de 2005) e 2,46% (julho de 2020). Quem tinha um objetivo de cinco anos e foi comprando títulos de um ano descobriu no meio do caminho que a taxa dos anos seguintes era outra.

18,62% o prefixado de um ano em agosto de 2005 · 2,46% o mesmo prazo em julho de 2020

3. Prazos longos são em poder de compra, não em reais. Um objetivo de vinte anos não é "ter R$ 500 mil". É ter o que R$ 500 mil compram hoje. Os R$ 10 mil de janeiro de 2006 precisariam valer R$ 30.354 em setembro de 2026 só para comprar a mesma coisa. Um título prefixado garante os reais, não o que eles compram; por isso o balde longo pede proteção contra a inflação.

Casar o vencimento com a data elimina os dois primeiros riscos de uma vez. Escolher o indexador certo resolve o terceiro.

Os três baldes

Balde Data O risco que importa Tipo de título que casa Regra de revisão
Reserva a qualquer momento liquidez pós-fixado com liquidez diária recompor depois de cada saque
Objetivo de 1 a 5 anos uma data conhecida preço no dia da data um vencimento perto da data (prefixado, ou pós com prazo certo) rever quando a data mudar
Longo prazo (10 anos ou mais) distante inflação protegido da inflação, com taxa travada rever a cada ano e na aproximação da data

A reserva já foi resolvida na aula anterior. Os outros dois baldes pedem conta.

O balde do meio: R$ 80 mil em janeiro de 2031

Ana quer R$ 80 mil líquidos para a entrada do apartamento em janeiro de 2031, daqui a quatro anos e pouco. Em 26/10/2026, o Tesouro Direto vendia um prefixado sem cupom com vencimento em 01/01/2031, a 15,75% ao ano, com 4,18 anos de prazo.

Antes de continuar: Para ter R$ 80 mil líquidos em janeiro de 2031, travando 15,75% ao ano num prefixado que vence na data, quanto Ana precisa aplicar hoje?

a) Uns R$ 70 mil · b) Uns R$ 60 mil · c) Uns R$ 47 mil · d) Uns R$ 35 mil

Resposta: Uns R$ 47 mil. R$ 46.606, ou cerca de R$ 46.873 com a custódia da B3. Em 4,18 anos, cada real vira 1,84 vezes, e o imposto de 15% sai só do ganho.

O que acontece se ela casar o prazo:

  • R$ 1 aplicado hoje vira R$ 1 × 1,1575^4,18 no vencimento, ou seja, 1,84 vezes o valor.
  • O imposto é de 15% sobre o ganho, porque o prazo passa de 720 dias.
  • Para chegar a R$ 80 mil líquidos, ela precisa aplicar hoje R$ 46.606. Com a taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano sobre o saldo, cerca de R$ 46.873.

O número fica travado no dia da compra. Se o juro subir no meio do caminho, o preço do título cai, mas ela não vai vender: vai levar até 2031, quando o título paga exatamente o contratado.

Compare com deixar o mesmo balde no pós-fixado. Se a Selic seguir as medianas do Focus de 23/10/2026 (13,25% no fim de 2026, 11,75% no fim de 2027 e 10% de 2028 a 2030), o CDI médio até janeiro de 2031 fica perto de 10,8% ao ano, e ela precisaria aplicar cerca de R$ 55 mil hoje para chegar aos mesmos R$ 80 mil. Mais dinheiro, e sem garantia: se a Selic cair mais que o Focus, falta; se cair menos, sobra.

Isso não quer dizer que o prefixado "é melhor". Quer dizer que ele faz uma coisa que o pós não faz: transforma um objetivo com data num número conhecido. A aula 4 deste módulo discute quando a taxa do pré compensa o risco de travar.

E se o vencimento certo não existir?

Ele quase nunca existe exatamente. Se Ana quisesse proteção contra a inflação, os Tesouro IPCA+ sem cupom à venda em 26/10/2026 venciam em 2029, 2032, 2035, 2040, 2045 e 2050. Nenhum em 2031. Ela teria três saídas:

  1. Um vencimento um pouco antes (2029) e reaplicar por dois anos: aceita um pouco de risco de reinvestimento.
  2. Um vencimento um pouco depois (2032) e vender um ano e meio antes: aceita um pouco de risco de preço, menor quanto mais perto do vencimento estiver.
  3. Um título bancário com o prazo exato, como um CDB ou uma LCI com vencimento na data, dentro do limite do FGC. O módulo 3 mostra como comparar.

Nenhuma é perfeita. Todas são muito melhores do que colocar o dinheiro do apartamento num título de 2045.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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