Entrar
Bancos: poupança, CDB, LCI, LCA e FGC · Aula 1 de 5

Poupança contra CDI: o teto que trava quando o juro sobe

A poupança não perde do CDI por igual. Ela tem um teto de 0,5% ao mês, e é justamente nos anos de Selic alta, quando o resto da renda fixa paga mais, que ela fica mais para trás.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Poupança contra CDI: o teto que trava quando o juro sobe

Em 1 minuto

  • A poupança tem um teto: com a Selic acima de 8,5%, rende 0,5% ao mês mais TR, por mais alto que o juro esteja.
  • De 2006 a 2026, 88% da distância entre o CDI e a poupança se abriu nos meses de Selic alta; nos de Selic baixa, ela perdeu 1,48% ao ano da inflação.
  • Em outubro de 2026 ela rende 8,24% ao ano, 60% do CDI, e um CDB de 78% do CDI já empata com ela mesmo pagando 22,5% de imposto.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Dizer qual das duas fórmulas da poupança vale pela Selic do mês
  • Calcular o percentual do CDI que um CDB precisa pagar para empatar com ela
  • Não perder rendimento no aniversário nem no saldo antigo

A tese: a poupança fica mais para trás justamente quando os juros estão altos

A ideia que se ouve é que a poupança "rende pouco, mas acompanha os juros". Ela não acompanha. A poupança tem uma regra com um teto, e esse teto faz com que ela perca do CDI de forma muito desigual: pouco quando a Selic está baixa, muito quando a Selic está alta.

De janeiro de 2006 a setembro de 2026, R$ 10 mil viraram R$ 77.153 no CDI e R$ 38.136 na poupança, como o módulo 1 mostrou. O que nenhum extrato mostra é de onde veio essa diferença.

Antes de continuar: R$ 77 mil no CDI contra R$ 38 mil na poupança em 20 anos. Essa distância se abriu mais nos meses de Selic alta ou nos de Selic baixa?

a) Quase toda na Selic baixa, quando a poupança rende menos · b) Mais ou menos meio a meio · c) Quase toda na Selic alta

Resposta: Quase toda na Selic alta. 88% da distância se abriu nos 183 meses de Selic acima de 8,5%. É quando o resto da renda fixa paga mais e a poupança, presa ao teto de 0,5% ao mês, para de subir.

Separando os meses pela Selic de cada um, a conta é clara: 88% da distância entre as duas se abriu nos meses de Selic acima de 8,5%. É quando todo o resto da renda fixa paga mais e a poupança, presa ao teto, para de subir.

Esta aula mostra a regra por dentro, porque é ela, e não o "rendimento baixo" genérico, que decide quanto a poupança custa em cada momento.

O mecanismo: três peças de uma regra de 2012

1. Duas fórmulas, escolhidas pela Selic. Desde a Lei 12.703, de 2012 (conversão da Medida Provisória 567), a poupança rende de um de dois jeitos. Se a meta da Selic está acima de 8,5% ao ano, rende 0,5% ao mês mais a TR. Se a meta está em 8,5% ou menos, rende 70% da Selic, transformada em taxa mensal, mais a TR. Vale a meta em vigor no início de cada mês de rendimento. Os 0,5% ao mês dão 6,17% ao ano, e esse é o teto da parte fixa: com a Selic a 10%, a 14% ou a 15%, a poupança paga os mesmos 0,5%.

2. A TR, o pedaço que ninguém acompanha. A Taxa Referencial é calculada pelo Banco Central a partir dos juros de mercado e só fica relevante quando eles estão altos. Ela ficou praticamente zerada de 2018 a 2021 (0,00% em 2018, 2019 e 2020; 0,05% em 2021) e voltou com a Selic: 1,63% em 2022, 1,76% em 2023, 1,97% em 2025. É a TR que faz a poupança render mais de 6,17% em 2026, mas ela não chega nem perto de cobrir a distância até o CDI.

3. O aniversário. A poupança de pessoa física não rende por dia. Rende por mês fechado, contado da data em que o dinheiro entrou, o "aniversário". O rendimento é calculado sobre o menor saldo do período e só é creditado no aniversário. Quem saca um dia antes perde o mês inteiro daquele dinheiro. E, pela Lei 8.177, de 1991, depósitos feitos nos dias 29, 30 e 31 ganham aniversário no dia 1º do mês seguinte.

Com essas três peças, a poupança vira uma função simples da Selic: em juro baixo, ela é 70% da taxa básica mais quase nada; em juro alto, é 6,17% mais a TR, não importa quão alta a Selic esteja.

O que isso significa na prática: a poupança por regime de Selic

Separando os 249 meses de janeiro de 2006 a setembro de 2026 pela meta da Selic no dia 1º de cada mês, com o CDI, a poupança e o IPCA do Banco Central:

Jan/2006 → set/2026 Meses CDI ao ano Poupança ao ano IPCA ao ano Poupança real ao ano
Selic acima de 8,5% 183 12,13% 7,64% 5,47% +2,06%
Selic em 8,5% ou menos 66 5,57% 4,02% 5,58% −1,48%

Leia a tabela pelas duas pontas.

Com a Selic alta, a poupança ganhou da inflação, mas pagou só 63% da taxa do CDI. A cada ano desses, o CDI andou cerca de 4,2% a mais. Em 183 meses, isso multiplicou a distância por 1,86.

Com a Selic baixa, a poupança chegou mais perto do CDI (72% da taxa dele), mas o próprio CDI não pagou a inflação: rendeu 5,57% ao ano com o IPCA a 5,58%. A poupança, abaixo dele, perdeu 1,48% ao ano de poder de compra. Em 66 meses, a distância para o CDI cresceu só 8,5%.

Somando, a diferença de 2,02 vezes entre os R$ 77 mil e os R$ 38 mil se divide assim: 88% dela veio da Selic alta, 12% da Selic baixa.

A ideia: A poupança custa caro exatamente quando o juro está alto, que é quando a maioria das pessoas pensa "pelo menos está rendendo bem".

Os anos em que ela perdeu da inflação

Nos 20 anos, a poupança perdeu do IPCA em cinco: 2013 (−0,09%), 2015 (−2,35%), 2019 (−0,05%), 2020 (−2,30%) e 2021 (−6,43%). Quatro deles caem, inteiros ou em boa parte, nos dois trechos em que a Selic esteve em 8,5% ou menos: de junho de 2012 a agosto de 2013 e de outubro de 2017 a dezembro de 2021.

O pior foi 2021. A Selic começou o ano em 2%, a mínima da série iniciada em 1999, e a poupança rendia 70% disso: 0,1159% ao mês, com a TR zerada. O IPCA do ano foi 10,1%. A poupança fechou com 3,0%. A exceção é 2015: Selic alta, poupança no teto de 0,5% mais uma TR de 1,8%, e mesmo assim perdeu, porque a inflação chegou a 10,7%.

Ano CDI Poupança IPCA Poupança como % do CDI
2016 14,0% 8,3% 6,3% 59%
2020 2,8% 2,1% 4,5% 77%
2021 4,4% 3,0% 10,1% 68%
2025 14,3% 8,3% 4,3% 58%

Repare que, em 2020, a poupança entregou 77% do CDI, a melhor proporção dos 20 anos, e mesmo assim perdeu da inflação. Proporção alta do CDI não é ganho. É só sinal de que o CDI também estava baixo.

Voltar à trilha Bancos: poupança, CDB, LCI, LCA e FGCTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.