O "120% do CDI": o excesso não é mérito, é crédito
Nenhum banco paga mais por generosidade. Cada ponto acima do CDI é o preço que o mercado cobra pelo risco daquele emissor, e o FGC decide só uma parte do que acontece se a conta chegar.

Em 1 minuto
- O percentual do CDI incide sobre a taxa de cada dia útil, então um CDB de 120% rende mais que 1,2 vez o CDI anual.
- Os pontos acima do CDI são o preço do risco daquele banco; recuperando 40% num calote, uma chance anual de quebra de 4,9% já zera o prêmio de um CDB de 120%.
- O Banco Master chegou a oferecer até 140% do CDI e foi liquidado em 18/11/2025: dentro do FGC houve fila, acima de R$ 250 mil, crédito contra a massa.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular a taxa anual de um percentual do CDI
- Ler o percentual acima do CDI como uma nota de crédito do banco
- Medir quanto do prêmio uma fila do FGC ou um calote levaria
A tese: o percentual alto é uma informação sobre o banco, não sobre a aplicação
O aplicativo oferece um CDB a 120% do CDI. Ao lado, o Tesouro Selic rende a Selic. A diferença parece um achado, e a pergunta natural é "por que todo mundo não faz isso?".
A resposta é que a taxa não é um mérito do produto.
A ideia: Um CDB é um empréstimo que você faz ao banco. Se ele oferece pagar mais do que o mercado cobra dos bancos sólidos, é porque o mercado só empresta a ele por esse preço.
Cada ponto acima do CDI é o mercado avaliando o risco de aquele emissor não pagar. Quem recebe o prêmio é quem assume o risco, e é você.
Isso não quer dizer que o CDB de 120% seja errado. Quer dizer que ele precisa ser comparado com o que pode dar errado, e não com o CDB de 100%.
Antes de continuar: Com o CDI a 13,65% ao ano, quanto rende ao ano um CDB a 120% do CDI?
a) 16,38%: 1,2 × 13,65% · b) 16,60% · c) 15,65%: o CDI mais 2 pontos
Resposta: 16,60%. 16,60% ao ano. O percentual incide sobre a taxa de cada dia útil, e os dias se compõem; por isso dá mais que 1,2 × 13,65% = 16,38%. São 2,95 pontos acima do CDI.
Primeiro, a conta certa: 120% do CDI não é 1,2 vez o CDI anual
Um detalhe que muda o número. O percentual do CDI de um CDB pós-fixado incide sobre a taxa de cada dia útil, e os dias se compõem. Com o CDI a 13,65% ao ano em 26/10/2026, um CDB a 120% do CDI rende 16,60% ao ano, e não 1,2 × 13,65% = 16,38%.
| Percentual do CDI | Taxa ao ano | Acima do CDI | Líquido de IR (15%) |
|---|---|---|---|
| 100% | 13,65% | — | 11,60% |
| 105% | 14,38% | 0,73 ponto | 12,22% |
| 110% | 15,11% | 1,46 ponto | 12,85% |
| 120% | 16,60% | 2,95 pontos | 14,11% |
| 130% | 18,10% | 4,45 pontos | 15,38% |
| 140% | 19,62% | 5,97 pontos | 16,67% |
Para referência, em 26/10/2026 o Tesouro Selic com vencimento em 2029 pagava a Selic mais 0,06 ponto ao ano, sem risco de banco. A última coluna da tabela é o que entra no bolso se tudo der certo. A pergunta desta aula é o que acontece se não der.
O mecanismo: de onde vêm os pontos a mais
1. Do custo de captação do banco. Um banco grande, com milhões de correntistas e acesso fácil ao mercado, capta barato. Um banco menor, ou um banco que o mercado vê com desconfiança, precisa pagar mais para atrair o investidor. A taxa que ele oferece no varejo segue o que o mercado profissional já cobra dele. Quanto mais o percentual se afasta do CDI, mais o mercado está dizendo que aquele banco é arriscado.
2. Da garantia que muda quem avalia o risco. Dentro do limite do FGC (aula 3), o investidor quase não precisa avaliar o banco: se ele quebrar, o fundo paga. Isso permite que um banco frágil capte de pessoas que não emprestariam a ele sem a garantia. O prêmio continua sendo prêmio de risco, mas o risco mudou de lugar: parte dele passou para o fundo, que é pago por todos os bancos associados. É por isso que, depois do caso Master, o Conselho Monetário Nacional subiu a contribuição dos bancos mais arriscados.
3. Da liquidez e da isenção, que explicam só uma parte. Um CDB sem liquidez paga mais que um de liquidez diária (aula 4). Um CDB paga mais que uma LCI do mesmo banco, porque a LCI é isenta (aula 2). Essas duas diferenças são de poucos pontos de CDI. Quando a oferta está 20, 30, 40 pontos acima, o que sobra é crédito.
O caso Master
O Banco Master chegou a oferecer CDBs de até 140% do CDI, vendidos em plataformas de varejo com o argumento da garantia do FGC de até R$ 250 mil, segundo reportagens da época. Pela tabela acima, eram quase 6 pontos ao ano acima do CDI. Em 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação do conglomerado, citando grave crise de liquidez e violações às normas do sistema financeiro. O FGC estimou R$ 40,6 bilhões em garantias para cerca de 800 mil credores, o maior pagamento da história do fundo.
O que aconteceu com quem tinha os CDBs se divide em duas partes.
Dentro do limite, o investidor recebeu o saldo com juros até 18/11/2025, mas só pôde pedir o dinheiro a partir de 17/01/2026. Foram 60 dias parados.
Antes de continuar: O CDB de 120% paga 2,95 pontos por ano a mais que o de 100%. Quanto desse prêmio de um ano inteiro os 60 dias de fila do Master comeriam?
a) Quase nada, uns 5% · b) Uns 25% · c) Mais de dois terços
Resposta: Mais de dois terços. 60 dias corridos são cerca de 41 dias úteis: 2,10% de rendimento perdido com o CDI de 26/10/2026, contra 2,95 pontos de prêmio num ano inteiro. Uma única fila come mais de dois terços de um ano de prêmio.
Com o CDI de 26/10/2026, 60 dias corridos são cerca de 41 dias úteis e valem 2,10% de rendimento perdido. Compare com o prêmio de um ano inteiro do CDB de 120% sobre o de 100%: 2,95 pontos. Uma única fila come mais de dois terços de um ano de prêmio.
Acima do limite, o que passou de R$ 250 mil virou crédito comum contra a massa liquidanda, sem garantia de quando, nem de quanto, vai voltar.
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