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Por que e quanto · Aula 4 de 4

Quanto pôr fora do Brasil: a fatia que muda a queda, não a que muda o retorno

Em 31 anos de dados, cada fatia fora cortou a pior queda da carteira em todos os períodos medidos. O retorno, não: ele subiu quando o dólar subiu e caiu quando o dólar caiu. A fatia se escolhe pelo tombo que você aguenta.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Quanto pôr fora do Brasil: a fatia que muda a queda, não a que muda o retorno

Em 1 minuto

  • Pôr uma parte da bolsa fora do Brasil cortou a pior queda da carteira em todos os períodos medidos desde 1995.
  • De 2014 a 2026, a pior queda foi −37,7% sem nada fora e −18,6% com metade fora.
  • O retorno da fatia dependeu do dólar: subiu em três dos quatro pedaços de oito anos e caiu no outro. Por isso a fatia se escolhe pela queda.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Ler a tabela de retorno, pior queda e pior ano de cada mistura
  • Estimar quanto uma fatia fora corta da queda num mês ruim
  • Escolher a sua fatia pelo tombo que você aguenta em reais

A tese: a fatia fora é um controle de queda, não um acelerador de retorno

A pergunta "quanto pôr fora?" quase sempre vem com outra escondida: quanto a mais isso vai render. É a pergunta errada, porque a resposta dela depende de uma coisa que ninguém sabe prever, o dólar dos próximos dez anos.

A pergunta certa é o que a fatia faz com o tombo. E essa tem resposta, medida em décadas diferentes, com o dólar subindo e com o dólar caindo.

A ideia: A fatia fora decide sobretudo o tamanho do tombo. O retorno dela dependeu do período.

Esta aula prova as duas metades da frase com carteiras de 0% a 50% fora do Brasil, rebalanceadas uma vez por ano.

O mecanismo: três forças que encolhem a queda

1. As duas bolsas, medidas em reais, quase não andam juntas. Mês a mês, de 2014 a 2026, a correlação entre o BOVA11 e o IVVB11 foi de −0,20. Correlação vai de −1 (sempre em sentidos opostos) a +1 (sempre juntos). Perto de zero, uma não ajuda a prever a outra. Quando duas peças andam assim, a mistura oscila menos que cada uma delas.

2. O dólar sobe justamente no mês ruim do Brasil. A aula 1 mostrou: nos 18 meses desde 2014 em que o Ibovespa caiu mais de 5%, o dólar subiu em todos. A fatia fora tende a subir, medida em reais, no momento em que a parte daqui afunda.

3. O rebalanceamento vende o que subiu. Uma vez por ano, a carteira volta ao alvo: se a parte fora cresceu além da conta, vende-se um pedaço dela e compra-se Brasil, e vice-versa. É isso que impede a fatia de 20% de virar 40% depois de uma alta do dólar, e de levar junto o risco de uma queda como a de 2022.

O que o teste mede

Duas versões, as duas com rebalanceamento no fim de cada ano:

  • 2014–2026, com os ETFs de verdade. BOVA11 (Ibovespa) e IVVB11 (S&P 500 em reais), de abril de 2014 a agosto de 2026, com os proventos reinvestidos na cota. É o que um investidor teria conseguido na B3.
  • 1995–2026, com os índices. Ibovespa e S&P 500 convertido pela PTAX do fim de cada mês, de janeiro de 1995 a agosto de 2026. Os dois só com o preço, sem dividendos, para comparar igual com igual. O período inclui 1998, 2002, 2008 e 2020.

A pior queda é a maior distância entre um pico e o fundo seguinte, nos fechamentos mensais. Oscilação é o tamanho típico do sobe e desce em um ano.

2014–2026: os ETFs da B3

Antes de continuar: De 2014 a 2026, a pior queda de uma carteira só de BOVA11 foi de −37,7%, no começo de 2020. Com 20% no IVVB11, rebalanceada uma vez por ano, de quanto foi?

a) Quase a mesma: uns −36% · b) Uns −29% · c) Uns −15%

Resposta: Uns −29%. −29,3%. Um quinto da carteira fora cortou mais de 8 pontos da pior queda. Com metade fora, a pior queda foi de −18,6%.

Fatia fora R$ 100 viraram Retorno ao ano Oscilação Pior queda Pior ano
0% R$ 348 10,6% 21,8% −37,7% 2015: −13,2%
10% R$ 417 12,3% 19,2% −33,5% 2021: −6,9%
20% R$ 491 13,8% 16,9% −29,3% 2021: −1,7%
30% R$ 568 15,1% 15,0% −25,5% 2022: −3,4%
40% R$ 647 16,3% 13,5% −22,0% 2022: −6,3%
50% R$ 726 17,4% 12,6% −18,6% 2022: −9,1%
100% R$ 1.062 21,1% 17,4% −27,3% 2022: −23,4%

BOVA11 e IVVB11 com proventos, abril de 2014 a agosto de 2026, rebalanceamento todo fim de ano. O CDI rendeu 10,0% ao ano no mesmo período.

Duas coisas saltam. A pior queda cai em linha reta, cerca de 4 pontos a cada 10% fora. E o retorno subiu muito, mas por um motivo que esta tabela não mostra: o dólar foi de R$ 2,24 para R$ 5,18 no período. É aqui que o período longo entra.

1995–2026: o dólar subindo e o dólar caindo

Fatia fora Retorno ao ano Oscilação Pior queda Pior ano
0% 12,9% 27,4% −51,6% (2000–2002) 2008: −41,2%
20% 14,7% 22,4% −42,9% (2008) 2008: −36,7%
30% 15,3% 20,4% −40,6% (2008–2009) 2008: −34,5%
50% 16,2% 17,7% −37,2% (2007–2009) 2008: −30,0%

Ibovespa e S&P 500 em reais, só preço, janeiro de 1995 a agosto de 2026, rebalanceamento todo fim de ano.

Agora corte os 31 anos em quatro pedaços de cerca de oito anos e olhe o que aconteceu com 30% fora:

Período Dólar × real Retorno: 0% → 30% fora Pior queda: 0% → 30% fora
1995–2002 +317,6% 14,4% → 20,4% ao ano −51,6% → −35,5%
2003–2010 −52,8% 25,5% → 17,6% ao ano −49,6% → −40,6%
2011–2018 +132,6% 3,0% → 9,6% ao ano −41,7% → −17,3%
2019–ago/2026 +33,7% 9,6% → 14,0% ao ano −36,9% → −25,3%

A ideia: A fatia fora cortou a pior queda nos quatro pedaços. O retorno só subiu nos três em que o dólar subiu.

De 2003 a 2010, o real se valorizou e a bolsa brasileira viveu o melhor período da sua história recente. Quem tinha 30% fora rendeu 8 pontos por ano a menos. Mesmo assim, a pior queda da carteira, em 2008, foi 9 pontos menor. É a prova de que o retorno da fatia é uma aposta no dólar, e o corte da queda, não.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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