O índice sobe, a ação típica não: e a vitória das gigantes é recente
O ganho de uma bolsa mora em poucas ações, e o índice carrega essas poucas sem precisar saber quais são. Mas a década em que as gigantes americanas deixaram o resto para trás é uma década, não uma lei.

Em 1 minuto
- O ganho de um índice vem de poucas ações que multiplicam muitas vezes; a ação típica anda pouco ou perde.
- Nos EUA, o índice normal abriu mais de 12 pontos por ano sobre a ação típica em 2023 e 2024, mas em 35 anos o peso igual ganhou.
- Quem quer o mercado americano compra o índice e, com ele, muito peso em poucas empresas: é bom saber disso antes.
Ao fim desta aula você vai saber
- Explicar por que a média de uma bolsa fica tão acima da ação típica
- Diferenciar o índice por tamanho do índice de pesos iguais
- Decidir entre o índice e uma lista curta de BDRs sabendo o que cada um carrega
A tese: um índice não é a média das ações, e o ganho dele mora em poucas
Um índice de ações parece uma média: sobe quando "as ações" sobem. Não é bem assim. O ganho de uma bolsa vem de poucas ações que multiplicam muitas vezes, enquanto a ação típica anda pouco ou perde. E o S&P 500 ainda pesa cada empresa pelo tamanho, então as que mais sobem passam a pesar cada vez mais.
Isso decide duas coisas para quem vai pôr dinheiro fora. A primeira: comprar o índice inteiro e comprar cinco ou dez BDRs de empresas conhecidas não são duas versões da mesma coisa. A segunda: quando alguém diz que "as gigantes sempre ganham", está descrevendo uma década, e não o mercado americano.
A ideia: O índice carrega a cauda sem precisar saber onde ela está. Uma lista curta, quase sempre, não carrega.
O mecanismo: três forças que concentram o ganho
1. A perda tem teto, o ganho não. Uma ação pode perder no máximo 100%, mas pode ganhar 1.000% ou 10.000%. Com o tempo, essa assimetria concentra o resultado em poucos nomes. O economista Hendrik Bessembinder mediu isso no estudo "Do stocks outperform Treasury bills?", publicado em 2018 no Journal of Financial Economics, com todas as ações americanas listadas de 1926 a 2016, quase 26 mil empresas. Cerca de 4% das ações explicaram toda a riqueza líquida que a bolsa criou acima dos títulos curtos do Tesouro americano. E mais da metade rendeu, na vida inteira, menos que esses títulos, a aplicação mais segura que existe por lá.
2. O índice por tamanho põe mais dinheiro em quem já subiu. No S&P 500, uma empresa que vale 50 vezes mais que outra pesa 50 vezes mais. Quando as maiores sobem mais que o resto, o índice sobe com elas, mesmo que a empresa típica esteja parada. Existe uma versão do mesmo índice com as 500 empresas de peso igual, cada uma com 1/500 do dinheiro, reequilibradas de tempos em tempos. A diferença entre as duas versões responde a uma pergunta simples: neste ano, foram as gigantes ou foi o mercado inteiro?
3. Uma lista curta quase nunca pega a cauda. Se o ganho está em 4% das ações, uma carteira de dez nomes tem pouca chance de ter as certas. Na maioria das vezes, ela fica com a ação típica.
Dá para ver na B3
A mesma ideia aparece aqui. No arquivo do Quantor, pegamos todas as ações com preço em agosto de 2016 e em agosto de 2026: foram 238.
Antes de continuar: 238 ações da B3, de agosto de 2016 a agosto de 2026, só o preço. A média subiu 188%. Quanto subiu a ação do meio da fila, a mediana?
a) Uns 180%, perto da média · b) Uns 100% · c) Uns 40%
Resposta: Uns 40%. 39%. A diferença entre a mediana e a média é a cauda: poucas ações puxaram a média para cima. E 99 das 238 terminaram abaixo do preço de 2016.
+39% a ação do meio da fila (mediana), em dez anos · +188% a média das 238 ações · 99 de 238 terminaram abaixo do preço de 2016 · 59% de todo o ganho veio das 10 melhores
Imagine R$ 1 em cada uma das 238. As 10 melhores, 4% da lista, somaram 59% de todo o ganho. Uma ação sozinha, a PRIO3, que multiplicou o preço por mais de 170 vezes, respondeu por 38,5%. As 139 que subiram somaram 113% do ganho, e as 99 que caíram devolveram os 13% de excesso. Em 37, a queda passou de 75%.
E a pergunta prática: sorteamos 20 mil carteiras de 10 ações dessa lista. Em 80% delas, o resultado ficou abaixo da média do conjunto. A carteira típica subiu 107%; o conjunto inteiro, 188%. Quem tem tudo tem a cauda. Quem tem dez, na maioria das vezes, não tem.
A década das gigantes americanas
Nos EUA, a comparação certa é entre o S&P 500 normal e o S&P 500 de pesos iguais, os dois com dividendos.
| Ano | S&P 500 normal | S&P 500 de pesos iguais | Diferença |
|---|---|---|---|
| 2020 | +18,4% | +12,8% | +5,6 pontos |
| 2021 | +28,7% | +29,6% | −0,9 ponto |
| 2022 | −18,1% | −11,4% | −6,7 pontos |
| 2023 | +26,3% | +13,9% | +12,4 pontos |
| 2024 | +25,0% | +13,0% | +12,0 pontos |
| 2025 | +17,9% | +11,4% | +6,5 pontos |
De 2011 a 2022, os anos se alternaram, com diferenças quase sempre abaixo de 6 pontos. Em 2022, as gigantes caíram mais e o peso igual ganhou por quase 7. Depois veio a virada: dois anos seguidos com mais de 12 pontos para o índice normal. De 2019 a setembro de 2026, o S&P 500 normal rendeu 17,5% ao ano, e o de pesos iguais, 13,6%: quase 4 pontos por ano só pelo peso das maiores empresas do mundo.
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