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Cripto sem fé · Aula 4 de 6

Bitcoin é o Ibovespa do cripto: nenhuma regra de escolher moedas ganhou dele

Uma cripto que subiu 80% num semestre em que o Bitcoin subiu 90% teve um semestre pior que o do líder. Testamos cinco regras conhecidas de escolher moedas desde 2019, contando as que sumiram: nenhuma chegou perto de simplesmente segurar Bitcoin.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Bitcoin é o Ibovespa do cripto: nenhuma regra de escolher moedas ganhou dele

Em 1 minuto

  • No cripto, o papel do Ibovespa é do Bitcoin: qualquer outra moeda precisa responder se valeu a pena em relação a simplesmente ter Bitcoin.
  • De 2019 a setembro de 2026, nenhuma de cinco regras conhecidas de escolher moedas ganhou de segurar Bitcoin (49,5% ao ano). A melhor, as 10 mais negociadas, fez 24,1%, com queda de −88%.
  • Nos ETFs da B3, o de cesta rendeu 24,6% contra 65,9% do de Bitcoin, de setembro de 2021 a setembro de 2026. Diversificar dentro do cripto foi trocar o líder por quem perdeu dele.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Medir qualquer cripto em Bitcoin, não só em dólar
  • Ler o resultado de uma regra de seleção contando as moedas que sumiram
  • Saber o que o seu ETF de cripto segue de verdade

A tese: a pergunta certa não é "subiu?"

Uma cripto que subiu 80% num semestre em que o Bitcoin subiu 90% não teve um bom semestre. Teve um semestre pior que o do líder, disfarçado de número grande. E, como ela provavelmente oscila mais que o Bitcoin, você pagou mais risco para chegar a menos lugar.

Na B3, ninguém avalia um fundo de ações sem compará-lo com o Ibovespa. Fundo que sobe 15% num ano em que o índice subiu 25% perdeu, e o gestor sabe disso.

A ideia: No cripto, o papel do Ibovespa é do Bitcoin. Qualquer outra moeda precisa responder: valeu a pena em relação a simplesmente ter Bitcoin?

Ele é o maior, o mais antigo e o mais negociado. É o fator que puxa todos os outros: na aula 1, a correlação mensal do Ether com ele foi de 0,73. E é o risco mínimo de quem decidiu estar no cripto. Tudo o que vem depois é aposta em cima dele.

O mecanismo: por que o líder é tão difícil de bater

1. A seleção natural do cripto é brutal. Na bolsa, uma empresa ruim pode levar anos para sair do índice. No cripto, um projeto perde relevância em meses, e a moeda pode ser deslistada ou simplesmente parar de negociar. A aula 1 mostrou: das 171 moedas líquidas de dezembro de 2021, 142 perderam mais da metade até setembro de 2026. Toda regra que compra várias moedas compra também as que vão sumir.

2. Quase tudo cai junto, mas não volta junto. Nas quedas, a correlação alta faz todas caírem. Nas voltas, o dinheiro novo costuma ir primeiro para o líder. O resultado é uma assimetria que as médias escondem: a moeda pequena pega a queda inteira e só parte da volta.

3. O líder concentra a liquidez. Em 90 dos 93 meses de janeiro de 2019 a setembro de 2026, o Bitcoin foi a moeda mais negociada contra o dólar digital na Binance (fonte de dado, não indicação). Quando o mercado precisa vender, vende o que tem comprador; quando volta, volta pelo mesmo lugar.

Medir em Bitcoin: a conta

O jeito mais direto de comparar é dividir um preço pelo outro. Em setembro de 2026, o Ether fechou o mês a US$ 2.684 e o Bitcoin a US$ 83.554. Então 1 Ether valia 2.684 ÷ 83.554 ≈ 0,032 Bitcoin. Essa razão sobe quando o Ether ganha do Bitcoin e cai quando perde. O dólar some da conta.

Antes de continuar: Em novembro de 2017, 1 Ether valia 0,0437 Bitcoin. Em setembro de 2026, quanto valia?

a) Uns 0,09: o Ether dobrou contra o Bitcoin · b) Uns 0,044: empate · c) Uns 0,032: perdeu cerca de um quarto

Resposta: Uns 0,032: perdeu cerca de um quarto. 0,0321. Em quase nove anos, a segunda maior cripto do mundo perdeu 26,5% contra o Bitcoin, mesmo subindo 500% em dólar. O Bitcoin subiu 717%.

No caminho, houve dois períodos em que o Ether ganhou com folga. Em janeiro de 2018, chegou a valer 0,109 Bitcoin; em novembro de 2021, 0,081. Quem comprou no primeiro pico perdeu 70,6% contra o líder até setembro de 2026; no segundo, 60,5%. E o Ether não é um caso extremo: é a cripto mais parecida com o Bitcoin em tamanho e liquidez. Andou junto, oscilou mais (92% contra 67% ao ano) e terminou atrás.

O teste: cinco regras de escolher moedas contra segurar Bitcoin

Se a moeda individual perde do líder, talvez uma regra perca menos: comprar as maiores, as que estão subindo, as que caíram e "estão baratas", ou simplesmente todas. Testamos as cinco ideias mais comuns, com dado público e contando as moedas que sumiram no caminho.

O teste: arquivo público de cotações diárias da Binance, todos os pares contra o dólar digital (USDT), inclusive os deslistados. A cada fim de mês, o universo são as moedas com pelo menos um ano de história e US$ 1 milhão por dia de negócio, sem stablecoins, tokens alavancados e ações tokenizadas. A carteira compra 10 moedas em pesos iguais e refaz a escolha todo mês, pagando 0,1% por operação. Moeda que deixa de negociar sai pelo último preço. Janeiro de 2019 a setembro de 2026, em dólar.

Antes de continuar: Segurar Bitcoin rendeu 49,5% ao ano de 2019 a setembro de 2026. Qual das cinco regras de escolher moedas chegou mais perto?

a) As 10 que mais subiram em 12 meses: tendência funciona · b) As 10 que mais caíram em 12 meses: comprar barato · c) As 10 mais negociadas, com 24,1% ao ano: menos da metade · d) Todas ganharam do Bitcoin: diversificar reduz risco

Resposta: As 10 mais negociadas, com 24,1% ao ano: menos da metade. A melhor foi a das 10 mais negociadas, com 24,1% ao ano e queda máxima de −88%. Comprar as que mais caíram deu −1,3% ao ano. Nenhuma passou da metade do Bitcoin.

Regra (10 moedas, revistas todo mês) Ao ano Pior queda 2019–20 2021–23 2024–set/26
Segurar Bitcoin +49,5% −73% +179,3% +13,5% +28,1%
As 10 mais negociadas +24,1% −88% +87,2% +6,1% +9,1%
As 10 que mais subiram em 12 meses +18,7% −93% +89,8% +12,1% −10,2%
Todas do universo, peso igual +18,5% −94% +78,4% +67,4% −39,7%
As 10 que mais caíram em 12 meses −1,3% −99% +79,0% +78,5% −66,5%
As 10 que mais subiram em 3 meses −16,8% −99% +48,1% +3,6% −56,9%

E para tirar a dúvida de que o problema é a regra, sorteamos 100 carteiras de 10 moedas por mês, ao acaso, dentro do mesmo universo. A mediana rendeu 12,3% ao ano, com pior queda típica de −95%. O melhor sorteio fez 45,0%. Nenhum dos 100 ganhou do Bitcoin.

Cuidado: Nenhuma regra simples de escolher moedas ganhou de segurar Bitcoin de 2019 a setembro de 2026. Todas renderam menos e caíram mais.

Leia os subperíodos antes de tirar a conclusão errada. Entre 2021 e 2023, comprar todas ou comprar as que mais caíram rendeu bem mais que o Bitcoin. Houve janelas boas para as outras moedas, e quem viveu uma delas tem uma história verdadeira para contar. O problema é o que veio depois: de 2024 a setembro de 2026, as mesmas regras perderam de 40% a 67% ao ano, enquanto o Bitcoin subiu 28,1%. O ganho das janelas boas foi devolvido com juros.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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