Halving: três observações viraram lei
O corte da emissão do Bitcoin a cada quatro anos é um fato do código. O ciclo de quatro anos pendurado nele se apoia em três pontos, e os três discordam no que importa: o tamanho da alta.

Em 1 minuto
- O halving é um fato: a cada 210 mil blocos, cerca de quatro anos, a emissão nova de Bitcoin cai pela metade. O último foi em abril de 2024.
- O ciclo de quatro anos em cima dele se apoia em três observações. Elas acertaram o quando (picos 15 a 17 meses depois) e erraram feio o quanto (+2.166%, +548%, +91%).
- O que dá para medir com muito mais dados é com quem o Bitcoin anda: desde 2020, mais com a bolsa americana do que com o próprio calendário.
Ao fim desta aula você vai saber
- Explicar o que o halving muda na oferta e quanto isso pesa
- Desconfiar de qualquer padrão com menos de trinta observações
- Usar o ambiente de risco, e não o calendário, como contexto
A tese: um fato, uma história e uma amostra de três
O halving é um fato. A cada 210 mil blocos registrados na rede do Bitcoin, o que dá mais ou menos quatro anos, a quantidade de bitcoins novos criados em cada bloco cai pela metade. Aconteceu em 28/11/2012, 09/07/2016, 11/05/2020 e 20/04/2024. No último, a recompensa por bloco foi de 6,25 para 3,125 bitcoins. O próximo está previsto pelo código para perto de 2028.
Em cima do fato se pendurou uma história: o "ciclo de quatro anos", com fundo, alta, euforia e queda cronometrados pelo código. Ela aparece em vídeo, em gráfico colorido, em contagem regressiva.
A ideia: O problema não é a história ser falsa. É ela se apoiar em três observações. Com três pontos, quase qualquer padrão parece intencional.
O mecanismo: por que três pontos enganam
1. O cérebro completa o desenho. Três altas seguidas de três quedas, em intervalos parecidos, formam uma figura limpa. Mas três repetições não distinguem um ciclo real de três moedas que caíram do mesmo lado. Jogue uma moeda três vezes e tire três caras: acontece uma vez a cada oito tentativas, sem moeda viciada nenhuma.
2. O corte de oferta é pequeno e anunciado com anos de antecedência. Depois de 2024, a emissão nova caiu para cerca de 164 mil moedas por ano (3,125 por bloco, uns 144 blocos por dia, pelo alvo de um bloco a cada 10 minutos). Sobre um estoque de cerca de 20,1 milhões em outubro de 2026, isso é algo perto de 0,8% ao ano. É um efeito real, mas conhecido por todo o mercado desde 2009, quando a regra foi escrita. Informação que todos conhecem tende a entrar no preço antes.
3. Há outras explicações para os mesmos pontos. As grandes quedas do Bitcoin em 2018 e 2022 aconteceram em anos em que o banco central americano subia os juros. Em 10/01/2024, três meses antes do último halving, a SEC (a CVM americana) aprovou os primeiros fundos negociados em bolsa que compram Bitcoin à vista, o que trouxe um comprador novo, com regras de fundo e não de fé. Com três pontos, não há como separar o efeito do halving do efeito dos juros ou do comprador novo.
Os três ciclos, lado a lado
Pegamos o fechamento do Bitcoin no mês de cada halving que cabe numa série mensal confiável (a de 2012 fica de fora: o mercado era minúsculo e os dados, frágeis) e acompanhamos o que veio depois.
Antes de continuar: Depois do halving de 2016, o Bitcoin subiu +2.166% até o pico; depois do de 2020, +548%. Quanto subiu depois do de abril de 2024, até o pico de fechamento?
a) Uns +1.300%: a média dos dois anteriores · b) Uns +500%: repetiu o de 2020 · c) Uns +250% · d) +91%: menos de um décimo da média
Resposta: +91%: menos de um décimo da média. +91%, de US$ 60.637 em abril de 2024 para US$ 115.758 em julho de 2025. Quem fez a média dos dois ciclos anteriores esperava mais de dez vezes isso.
| Halving | Mês do halving | Pico de fechamento | Meses até o pico | Alta até o pico | Queda depois do pico |
|---|---|---|---|---|---|
| 2016 | US$ 625 (jul/2016) | US$ 14.156 (dez/2017) | 17 | +2.166% | −76% |
| 2020 | US$ 9.461 (mai/2020) | US$ 61.319 (out/2021) | 17 | +548% | −73% |
| 2024 | US$ 60.637 (abr/2024) | US$ 115.758 (jul/2025) | 15 | +91% | −49% |
O relógio, de fato, repetiu: 17, 17 e 15 meses. E depois de cada pico veio uma queda grande, nos fechamentos de mês. Quem só olha o calendário sai convencido.
Agora olhe a coluna do tamanho. Cada ciclo entregou cerca de um quarto do anterior ou menos: de +2.166% para +548%, de +548% para +91%. A média dos dois primeiros dava +1.357%. O terceiro entregou +91%.
17 · 17 · 15 meses do halving ao pico: o quando repetiu · +2.166% · +548% · +91% a alta até o pico: o quanto não repetiu · −76% · −73% · −49% a queda depois de cada pico
O calendário acertou o quando e errou feio o quanto. E o quanto é o que decide o resultado. Uma alta de +91% seguida de uma queda de −49% deixa quem comprou no mês do halving e vendeu no fundo seguinte praticamente onde começou: US$ 60.637 em abril de 2024, US$ 58.559 em junho de 2026.
O Bitcoin mudou de companhia
Uma coisa dá para medir com muito mais do que três pontos: com quem o Bitcoin anda. Nos retornos mensais de 2015 a 2019, 60 observações, a correlação do Bitcoin com o S&P 500 foi de 0,11: praticamente nenhuma relação. De janeiro de 2020 a setembro de 2026, 81 observações, foi de 0,53. Nos últimos 36 meses, 0,39.
O Bitcoin passou a se comportar mais como um ativo de risco americano, que sobe e cai junto com o apetite por risco do mundo. Faz sentido com o que mudou no período: mais dinheiro institucional, fundos listados, o mesmo investidor comprando ações de tecnologia e Bitcoin com a mesma lógica.
Com o Ibovespa, em reais, a história é outra:
| Período | Bitcoin × S&P 500 (em dólar) | Bitcoin em reais × Ibovespa |
|---|---|---|
| 2015–2019 | 0,11 | −0,09 |
| 2020–set/2026 | 0,53 | 0,08 |
| Últimos 36 meses | 0,39 | −0,28 |
A correlação com a bolsa brasileira ficou perto de zero e, nos últimos anos, negativa. Parte disso é o câmbio: de 2020 a setembro de 2026, a correlação mensal entre o dólar e o Ibovespa foi de −0,71. Quando a bolsa brasileira sofre, o dólar costuma subir, e o Bitcoin, cotado em dólar, ganha esse empurrão em reais. É o mesmo mecanismo do módulo 1 deste curso, aplicado a um ativo muito mais volátil.
Voltar à trilha Cripto sem féTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.