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Testar uma estratégia sem se enganar · Aula 7 de 7

Ler um backtest: o retorno médio é a última linha

Duas estratégias com o mesmo retorno podem ser vidas opostas. Antes do número do post, vêm o CDI do mesmo período, a pior queda, o tempo para voltar, os blocos, a concentração e quanto do resultado é só CDI.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Ler um backtest: o retorno médio é a última linha

Em 1 minuto

  • O retorno médio é a linha menos importante de um backtest: ele esconde a queda, o tempo para voltar e de onde veio o ganho.
  • Antes dele vêm o CDI do mesmo período, a pior queda e o tempo de recuperação, os blocos, a concentração e a parte que é só CDI.
  • Muitos setups que "batem o CDI" são quase só CDI: o Keltner rendeu +11,3% ao ano, mas a parte dos dias comprado foi +2,0%.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Preencher a ficha de seis linhas para qualquer teste
  • Calcular quanto uma queda exige para voltar e quanto tempo isso leva
  • Separar o ganho da regra do ganho do caixa

A tese: o número do post é o que menos importa

O post mostra um número: "+18% ao ano". É a linha menos importante de um backtest.

Duas estratégias com o mesmo retorno médio podem ser vidas completamente diferentes. Uma sobe devagar e nunca cai mais que 15%. A outra passa quatro anos no prejuízo, perde metade do dinheiro no caminho e recupera tudo num único ano bom. Na planilha, as duas rendem 18%. Na vida real, quase ninguém aguenta a segunda até o fim, e quem sai no meio não recebe os 18%: recebe a queda.

A ideia: Ler um resultado é olhar tudo o que o retorno médio esconde, e só depois olhar o retorno.

O mecanismo: três coisas que a média apaga

1. O caminho. A média de 20 anos não diz se o dinheiro passou nove deles abaixo do topo. Quem segue a regra vive o caminho, não a média.

2. A origem. Um resultado pode vir de uma década, de três meses ou de duas ações. A média de 20 anos soma tudo e não diz de onde veio.

3. O caixa. No Brasil, o dinheiro fora da bolsa rende CDI. Uma regra que passa a maior parte do tempo de fora carrega o CDI no próprio resultado e leva o crédito por ele.

A ficha de seis linhas

Linha 1: o CDI do mesmo período. De 2006 a 2026, o CDI deu +10,2% ao ano, mas variou bastante: +11,1% em 2006–2012, +9,6% em 2013–2019, +10,0% em 2020–2026. Qualquer estratégia de ações precisa ser comparada com o CDI do mesmo período do teste. Uma estratégia que rende 11% ao ano com quedas de 40% no caminho não é boa no Brasil. É um CDI com sustos.

Linha 2: a pior queda e o tempo para voltar. A pior queda (ou drawdown) mede quanto a estratégia perdeu do topo até o fundo. O tempo de recuperação mede quanto demorou para voltar ao topo anterior. Juntos, dizem se você aguentaria segui-la.

Antes de continuar: O Ibovespa, com proventos, caiu 50% entre maio e novembro de 2008. Quanto tempo levou para voltar ao topo de maio de 2008?

a) Cerca de 1 ano: a recuperação de 2009 foi forte · b) Cerca de 3 anos · c) Cerca de 5 anos · d) Mais de 9 anos

Resposta: Mais de 9 anos. Só em setembro de 2017: nove anos e quatro meses abaixo do topo, mesmo contando os proventos. A alta forte de 2009 não bastou, porque caiu de novo de 2011 a 2016.

Uma queda de 50% exige uma alta de 100% para empatar. Uma de −87%, como a da PETR4 segurando, exige +669%. A conta é assimétrica, e o tempo de volta cresce mais rápido que a queda.

Linha 3: bloco a bloco. Divida o período em blocos e olhe cada um contra o CDI do bloco. Nos FIIs, o IFIX fez +19,9% ao ano em 2017–2019 e −3,9% em 2020–2022. Quem olha só um desses blocos tira a conclusão oposta de quem olha o outro. E um bloco recente ruim pesa mais do que parece, porque é o mais parecido com o mercado em que você vai operar.

Linha 4: concentração. Pergunte de onde veio o ganho. Se tirar os melhores meses ou as melhores ações e o resultado desaparecer, a estratégia é uma aposta em poucos eventos. Nos Estados Unidos, uma carteira de crescimento de dividendos bateu o S&P 500 na prova cega, mas a vantagem morava em 2021–2022, com petroleiras de dividendo variável. Sem esses dois anos, fez +18,8% ao ano, contra +23,1% do índice. Na B3, as ações pouco negociadas de uma carteira rendiam 3,2% ao mês; sem os 10 melhores meses delas, 1,8%.

Linha 5: quanto é CDI. Muitas regras passam a maior parte do tempo fora da bolsa. Isso não é defeito, mas muda a leitura.

+11,3% ao ano, o Canal de Keltner em 437 ações, contra +10,5% do CDI · 12% do tempo comprado: no resto, o dinheiro estava no CDI · +2,0% ao ano, a parte que vem só dos dias comprado

O RSI(2) de Connors, comprado 4% do tempo, tem +0,3% de parte própria. Esses setups batem o CDI porque são quase só CDI. O mesmo vale para ditados de calendário como o "Sell in May": o ganho que aparece vem, em boa parte, de passar metade do ano no CDI alto brasileiro (o curso Gráfico Sem Mentira mostra o teste).

Linha 6: as provas do módulo. Custo maior e imposto (aula 3), sorteio com as mesmas condições (aula 5), prova cega (aula 4) e o número de tentativas (aula 6). O resultado que não passou por elas não está pronto para ser lido.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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