Comprar barato funciona?
As 10 ações de menor P/VP da B3, refeitas todo mês desde 2011, renderam −2,0% ao ano, com queda de −84%. Barato sozinho foi armadilha. Somando vários múltiplos e uma regra de risco, o quadro muda.

A ideia
"Compre barato e espere." A ideia é antiga e faz sentido: se uma empresa vale R$ 100 e está custando R$ 50, o tempo tende a corrigir a diferença. Os múltiplos, como o P/L (preço sobre lucro) e o P/VP (preço sobre o valor patrimonial, o que a empresa tem menos o que deve), são o jeito mais rápido de achar o que parece barato.
Mas "parecer barato" e "ser barato" são coisas diferentes. Uma ação pode estar com P/VP de 0,3 porque o mercado exagerou no pessimismo. Ou porque o patrimônio no balanço não vale o que diz. Os dois casos aparecem juntos no topo da lista.
Como testamos
Todo fim de mês, de maio de 2011 a setembro de 2026, ordenamos as ações líquidas da B3 (as que negociam bastante dinheiro por dia) por um múltiplo. Compramos as 10 mais baratas, com pesos iguais (a mesma quantia em cada). No mês seguinte, tudo de novo.
Dois cuidados fazem o teste valer:
- Só os balanços que existiam na data. Um balanço entra no teste a partir do dia em que foi entregue à CVM (a xerife do mercado), não do trimestre a que se refere. Ninguém em 2012 sabia o lucro de 2013.
- Base sem viés de sobrevivência, com as empresas que quebraram ou saíram da bolsa.
O teste começa em 2011 porque só a partir daí os balanços cobrem quase todo o universo de ações líquidas.
O resultado

Olhe a barra do P/VP, a mais baixa, e o bloco 2011–15 à direita. Retorno ao ano de cada carteira. À direita, o retorno em cada bloco de cinco anos.
P/VP baixo foi o pior resultado de todos os testes de fatores: −2,0% ao ano. Fator é uma característica usada para escolher ações. A pior queda, o maior tombo do topo até o fundo, chegou a −84%. Com as 20 mais baratas em vez de 10, melhora pouco: +3,3% ao ano e −72% de queda. Na B3 desse período, o fundo da lista de P/VP estava cheio de empresas em crise, baratíssimas até o balanço seguinte.
P/L baixo, com as 10 mais baratas, rendeu +6,7%. Ficou abaixo do CDI, o rendimento da renda fixa mais simples, que pagou +9,8%, e perto do Ibovespa (+6,9%). EV/EBITDA baixo (o valor da empresa inteira, com a dívida, sobre a geração de caixa) chegou a +10,4%. O melhor foi o valor composto, que soma vários múltiplos: +13,2% ao ano.
Olhe os blocos: todos perderam dinheiro em 2011–15, de −8% a −29% ao ano, e todos brilharam em 2016–20. Comprar barato foi uma estratégia de um ciclo só.
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