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Mão na massa · Aula 1 de 3

O plano escrito para o dia da queda

Desde 1995, o Ibovespa teve nove quedas de 20% ou mais, uma a cada três anos e meio. No dia em que ela chega, ninguém decide bem. O plano de uma página decide antes o que fazer em −10%, −20% e −30%.

por Vinícius Rosa13 min de leituraatualizada em trecho aberto
O plano escrito para o dia da queda

Em 1 minuto

  • Queda grande não é exceção: desde 1995, o Ibovespa caiu 20% ou mais nove vezes, uma a cada três anos e meio, e passou 33% dos pregões mais de 20% abaixo do próprio recorde.
  • No dia dos −20% ninguém sabe se a queda para ali ou vai a −60%: das nove, cinco pararam perto e quatro afundaram mais 26% a 56%.
  • Por isso o que fazer em −10%, −20% e −30% precisa estar escrito antes, num dia calmo, numa página só.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Saber com que frequência e profundidade o Ibovespa cai, e quanto demora para voltar
  • Escrever o plano de uma página com os três degraus da queda
  • Calcular quanto dinheiro sai do CDI para a bolsa no rebalanceamento

A tese: a decisão da queda se toma antes da queda

O senso comum diz que, numa crise, o investidor precisa de sangue-frio. Ninguém tem sangue-frio num dia de −14%. Disciplina é um recurso que acaba, e acaba justamente nos dias em que você mais precisa dela. A solução não é ser uma pessoa melhor no dia da queda. É ter decidido antes, quando você ainda era uma pessoa calma.

Na Odisseia, Ulisses sabia que ia querer se jogar no mar ao ouvir as sereias. Não treinou força de vontade: pediu para ser amarrado ao mastro. Os economistas chamam isso de pré-compromisso, uma decisão tomada com calma que tira opções do seu eu futuro. Morgan Housel, em A Psicologia Financeira, diz algo parecido em outra chave: a parte mais importante de um plano é prever que ele não vai sair como planejado, e deixar margem para isso.

A ideia: O plano não serve para prever a queda. Serve para que, quando ela vier, a decisão já esteja tomada e escrita.

Esta aula é o mastro. Ela conta todas as quedas do Ibovespa desde 1995 e, com esses números, monta uma página que responde o que fazer em cada degrau.

O mecanismo: três forças que estragam a decisão no dia da queda

1. A queda grande é uma fila, não um evento. Em 2008, o Ibovespa caiu 60% em cinco meses seguidos: −10,4%, −8,5%, −6,4%, −11,0% e −24,8%, de junho a outubro. Cada mês pede uma nova decisão, e cada decisão é tomada com mais medo que a anterior.

2. O medo mede o passado. A vontade de vender cresce com a queda que já aconteceu, não com a que vem. Por isso ela é máxima perto do fundo, que é quando vender custa mais.

3. Sem regra, tudo vira opção. Vender tudo, vender metade, comprar mais, trocar de estratégia, esperar. Cada opção parece razoável no calor do dia, e o cérebro escolhe a que faz a dor parar mais rápido.

Todas as quedas desde 1995

Medimos o Ibovespa diário de 02/01/1995 a 23/10/2026, a partir do recorde de cada momento. A queda que já estava em curso no início da série fica de fora, porque o topo dela não está nos dados. Restam 31 anos.

Antes de continuar: Desde setembro de 1995, quantas vezes o Ibovespa caiu 20% ou mais a partir de um recorde?

a) Duas: 2008 e 2020 · b) Quatro · c) Nove · d) Mais de vinte

Resposta: Nove. Nove, uma a cada três anos e meio em média. Quedas de 10% ou mais foram 21, uma a cada ano e meio. No ritmo do passado, quem investe por 30 anos atravessaria umas oito quedas de 20%.

Topo Fundo Queda Meses até o fundo Meses do fundo ao novo topo
19/09/1995 13/11/1995 −22,1% 1,8 2,1
08/07/1997 10/09/1998 −65,0% 14,1 14,5
27/03/2000 16/10/2002 −55,8% 30,7 12,9
26/01/2004 10/05/2004 −27,7% 3,4 6,4
09/05/2006 13/06/2006 −21,8% 1,1 5,4
20/05/2008 27/10/2008 −60,0% 5,3 106,5
26/02/2018 18/06/2018 −20,4% 3,7 4,5
23/01/2020 23/03/2020 −46,8% 2,0 9,5
07/06/2021 14/07/2022 −26,5% 13,2 17,0

Na mediana, a queda levou 3,7 meses do topo ao fundo e 9,5 meses do fundo ao novo topo. Mas a mediana esconde a cauda: depois de 2008, o índice levou quase nove anos para voltar ao recorde de maio daquele ano, só em 11/09/2017.

E estar abaixo do topo é o estado normal da bolsa, não a exceção. Desde agosto de 1995, o Ibovespa passou 95% dos pregões abaixo do próprio recorde, 59% mais de 10% abaixo, 33% mais de 20% abaixo e 16% mais de 30% abaixo.

O que acontece em cada degrau

A pergunta que o plano precisa responder é: quando a queda chega a um degrau, o que costuma vir depois?

Degrau Quedas que chegaram nele Das que chegaram, quantas foram ao próximo
−10% 21 9 de 21 chegaram a −20% (43%)
−20% 9 4 de 9 chegaram a −30% (44%)
−30% 4 4 de 4 chegaram a −40% (100%)

Antes de continuar: No dia em que o Ibovespa cruzou −20%, o que veio depois nas nove quedas?

a) Quase sempre o fundo estava perto, no máximo mais 5% · b) Quase sempre caiu mais uns 30% · c) Metade parou perto, metade afundou muito

Resposta: Metade parou perto, metade afundou muito. Em cinco, o índice caiu no máximo mais 8,3% até o fundo (1995, 2004, 2006, 2018 e 2021). Em quatro, caiu mais 26,1% (2020), 43,4% (2000), 48,8% (2008) e 56,1% (1997). Com os dados de hoje, os dois grupos são indistinguíveis no dia.

Cuidado: No dia dos −20%, ninguém sabe se o fundo está perto ou se a queda vai a −60%. O plano precisa funcionar nos dois casos, sem saber qual é.

Isso descarta os dois planos mais populares. "Vendo em −20% e volto depois" sai perto do fundo em cinco de nove vezes. "Compro tudo o que tenho em −20%" gasta toda a munição antes do pior em quatro de nove. O plano que funciona nos dois casos tem degraus e não gasta tudo num só.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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