Buffett em números: por que a regra falhou na B3
Rentabilidade alta por cinco anos, margem gorda, pouca dívida e preço razoável. Na B3, esses critérios deram o pior resultado entre os mestres, abaixo até de um sorteio. No S&P 500, quase empataram com o índice.

O investidor mais famoso do mundo
Warren Buffett começou como aluno de Benjamin Graham, comprando empresas muito baratas. Com o tempo, e com a influência do sócio Charlie Munger, mudou de ideia. Em essência, passou a defender que é melhor comprar uma empresa extraordinária a um preço justo do que uma empresa comum a um preço extraordinário. À frente da Berkshire Hathaway desde os anos 1960, construiu um dos maiores patrimônios do planeta seguindo essa filosofia.
Buffett nunca publicou uma lista de critérios. O que ele escreve, nas cartas anuais aos acionistas, fala de vantagem competitiva, de gestão honesta, de negócios que ele entende. Mas autores como Robert Hagstrom e Mary Buffett tentaram traduzir a parte que cabe em números. É essa tradução que circula nos fóruns e que testamos aqui.
O que testamos
Todo abril, entre as ações que negociavam pelo menos R$ 5 milhões por dia (um piso para dar liquidez, ou seja, para dar para comprar e vender sem mexer o preço), inclusive as que depois saíram da bolsa:
- ROE de 15% ou mais, hoje e em cada um dos 4 anos anteriores. ROE é o lucro dividido pelo patrimônio: quanto a empresa rende sobre o dinheiro dos sócios.
- Margem líquida de 10% ou mais: de cada R$ 100 vendidos, pelo menos R$ 10 viram lucro.
- Dívida que cabe em 5 anos de lucro.
- P/L entre 0 e 20: preço razoável, de até 20 vezes o lucro de um ano.
Compra as 10 de maior ROE, com o mesmo peso (a mesma quantia em cada uma), e segura até o abril seguinte. Bancos e seguradoras entram só com o ROE e o P/L, porque Buffett sempre teve bancos. De mai/2011 a set/2026, sem e com a trava. Na versão com trava, a trava do Ibovespa manda a carteira inteira para o CDI quando o índice fecha o mês abaixo da sua média de 5 meses, e a traz de volta quando ele volta.
O resultado

O que olhar: a linha do CDI termina acima de todas, inclusive das duas versões da regra. R$ 1.000 viraram R$ 2.061 pela regra, R$ 2.875 com a trava, R$ 4.200 no CDI e R$ 2.782 no Ibovespa.
+4,8% ao ano (ganho médio por ano, já composto), com queda de −45% no pior momento. Abaixo do CDI (+9,8%), abaixo do Ibovespa (+6,9%) e abaixo de um sorteio de 10 ações com o mesmo calendário (+6,3%). Entre os sete mestres que testamos desde 2011, foi o pior. Com a trava do Ibovespa, +7,1% e queda de −33%: melhora, mas continua perdendo do CDI.

Repare: só o bloco do meio foi positivo de verdade; o último ficou em zero. Retorno ao ano em cada bloco, contra o CDI e o Ibovespa do mesmo bloco.
Por bloco (cada pedaço do período): −5,2% ao ano em 2011–15, +21,2% em 2016–20 e +0,2% em 2021–26. De 2021 a 2026, praticamente zero, enquanto o CDI pagava 11% ao ano.
O que deu errado: rentabilidade de pico
Olhe a carteira de abril de 2013. Quatro das 10 ações eram do setor imobiliário (Helbor, Lopes, Direcional e EZTec), escolhidas porque vinham de anos seguidos de ROE alto. No ano seguinte, Lopes caiu 45%, Direcional 30% e Helbor 18%, e a carteira perdeu 12%. Em abril de 2014, lá estavam elas de novo: Helbor caiu 53% e Lopes 47%.
Uma explicação possível: na B3, cinco anos de ROE alto podem marcar o topo de um ciclo, e não uma vantagem duradoura. Foi o caso das construtoras em 2011–13. O número de rentabilidade parecia de empresa excelente justamente quando o ciclo estava para virar. O critério não diferencia uma coisa da outra. Buffett diferenciaria, e é essa a parte que não cabe na planilha.
O que quase ninguém sabe. A mesma regra, com os mesmos cortes, deu o pior resultado entre os mestres na B3 e o melhor entre os mestres clássicos nos EUA. No S&P 500 (o índice das maiores empresas americanas), sem viés de sobrevivência (incluindo as empresas que saíram do índice), o Buffett dos números rendeu +13,7% ao ano de 2011 a 2026. Ficou quase empatado com o índice (+14,3%) e acima da média das ações com pesos iguais (+12,2%). Na B3, +4,8%, abaixo até do sorteio. E os fatores de qualidade isolados também falharam aqui: as 10 de maior ROE renderam +7,3% ao ano, e as 10 de maior margem, +4,5%, ambas abaixo do CDI.

O que olhar: a mesma regra fica perto do índice nos EUA e bem atrás na B3. Mesmo critério, 10 ações, empresas que existiam em cada data. Nos EUA, em dólar.
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