O All Weather não atravessa a fronteira
Ray Dalio desenhou uma carteira para todos os climas num país onde o caixa rende quase nada. Em reais, de 1999 a 2026, dividir o dinheiro em quatro pernas cortou a pior queda de 52% para 10%, mas rendeu 10,7% ao ano contra 12,2% do CDI.

A ideia: exportar o mapa, não a carteira
Ray Dalio, fundador da Bridgewater, a maior gestora de fundos multimercado do mundo, escreveu sobre duas coisas diferentes, e o investidor brasileiro costuma copiar a errada.
A primeira é um mapa. Todo ativo é, no fundo, uma aposta em duas variáveis: o crescimento da economia e a inflação. Cada uma pode subir ou cair, o que dá quatro "climas". Ações gostam de crescimento com inflação comportada; títulos longos gostam de crescimento e inflação caindo; ouro e commodities, de inflação subindo.
A segunda é uma carteira: o All Weather, lançado pela Bridgewater nos anos 1990, que distribui o risco entre ações, títulos longos do governo americano, ouro e commodities para não depender de acertar o clima.
O mapa atravessa a fronteira. A carteira, nem tanto. Ela foi pensada num país em que o dinheiro parado rende pouco. Em janeiro de 2020, Dalio chegou a dizer em Davos que "cash is trash", o caixa é lixo. No Brasil, o caixa é o CDI.
O teste: uma carteira para todos os climas, em reais
Não temos a série longa dos títulos públicos longos brasileiros nem do ouro em reais, então montamos a versão possível com dados de fontes oficiais: Ibovespa, CDI, dólar e o S&P 500 convertido em reais, 25% em cada, rebalanceados uma vez por ano, de dezembro de 1999 a agosto de 2026.

Escala log. O S&P 500 entra sem dividendos, o que subestima essa perna em cerca de 1 a 2 pontos por ano.
Dividir funcionou no que promete: a pior queda da carteira foi de 9,6%, contra 51,6% do Ibovespa. O pior ano, 2008, terminou em −3,9%, enquanto o índice caiu 41%.
Mas olhe o topo do gráfico. A carteira rendeu 10,7% ao ano. O CDI, sem uma única queda, rendeu 12,2%. Descontada a inflação do período (6,1% ao ano pelo IPCA), o CDI entregou cerca de 5,8% de juro real ao ano. No Brasil, o ativo mais "burro" da mesa já pagou o que a carteira diversificada buscava tomando risco.
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