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Os mestres, aplicados à B3 · Aula 8 de 10

Kahneman na B3: a tela ao vivo fala com o seu pior sistema

O Sistema 1 vê uma ação que caiu metade e conclui "está barata". A taxa-base da B3 diz outra coisa. Das ações líquidas que caíram 50% em 12 meses desde 2006, só 34% voltaram ao preço de antes em até 3 anos, e 33% caíram outros 50%.

por Vinícius Rosa4 min de leituraatualizada em trecho aberto
Kahneman na B3: a tela ao vivo fala com o seu pior sistema

A ideia: o problema não é a emoção, é o atalho

Daniel Kahneman, psicólogo que ganhou o Nobel de Economia em 2002, resumiu décadas de pesquisa com Amos Tversky em Rápido e Devagar (2011). O livro descreve dois modos de pensar. O Sistema 1 é rápido, automático, conta histórias e responde antes de você pedir. O Sistema 2 é lento, faz contas e só entra em cena quando é chamado.

Ilustração: o pensamento rápido e o pensamento lento

À esquerda, a reação imediata; à direita, a conta feita com calma.

O Sistema 1 não é vilão: acerta a maior parte da vida. O problema é que, na bolsa, ele troca perguntas difíceis por perguntas fáceis. "Esta ação vai subir?" vira "esta ação parece barata?". E a tela de cotações é feita de estímulos para o Sistema 1. O lado emocional disso, o medo na queda e a ansiedade de olhar demais, está na trilha Mente de ferro. Aqui o assunto são os erros de raciocínio.

Três atalhos que a bolsa aciona

A taxa-base esquecida. Kahneman mostrou que as pessoas julgam um caso pelo quanto ele se parece com uma história, e ignoram a frequência geral daquilo acontecer, a taxa-base. "Empresa boa que caiu muito" parece a história de uma recuperação. A pergunta do Sistema 2 é outra: de todas as ações que caíram assim, quantas se recuperaram?

A âncora. Um número visto primeiro contamina a estimativa seguinte, mesmo quando não tem nada a ver com ela. Na bolsa, as âncoras mais fortes são o preço de antes da queda e o seu preço médio. O papel não sabe quanto você pagou.

O que você vê é tudo o que há. Kahneman chamou isso de WYSIATI (a sigla em inglês para "what you see is all there is"): o Sistema 1 monta uma história coerente com o que tem na frente e não sente falta do que não viu. Um P/L baixo na tela vira "barato" sem que você pergunte por que o lucro está como está.

O teste: a taxa-base de "caiu metade"

Contamos, nos fechamentos mensais com proventos das ações líquidas da B3 desde 2006, todas as vezes em que uma ação caiu 50% ou mais em 12 meses. Depois olhamos os três anos seguintes:

O que aconteceu depois das grandes quedas na B3

241 quedas; 201 com três anos de história depois. Retornos com proventos.

Foram 241 quedas assim. Nos 201 casos com três anos de futuro:

  • Só 39% voltaram ao preço de antes da queda em algum momento dos três anos seguintes.
  • 34% caíram outros 50% a partir do preço "barato".
  • 64% estavam acima do preço da compra três anos depois.

Repare como os três números contam histórias diferentes. Comprar depois da queda deu lucro na maioria dos casos: o repique existe. Mas lucro não é vantagem: no teste de 20 anos do Quantor, comprar papéis depois de quedas fortes rendeu menos até que papéis sorteados ao acaso. Mas quem ancorou no preço de antes esperou em vão em seis de cada dez casos, e um em cada três viu o "barato" ficar pela metade de novo. A taxa-base não diz se a sua ação vai voltar. Diz quão raro é voltar, antes de a história da empresa convencer você.

E ela é otimista: a conta só inclui ações que ainda negociam. As que quebraram no caminho não estão aqui.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.