Taleb na B3: o que a conta de risco não mostra é o que te quebra
Desde 2000, o Ibovespa teve 21 dias de queda maior que quatro desvios. A curva normal, base da maioria das contas de risco, previa 0,2. A defesa de Taleb não é prever o próximo dia ruim, é não estar inteiro nele.

A ideia: a conta de risco mede o dia comum
Toda conta de risco que um investidor encontra parte de uma premissa silenciosa: o futuro vai se parecer com a amostra. Ela mede quanto o papel costuma oscilar e diz, por exemplo, que em 19 de cada 20 dias a perda não passa de tanto. O número está certo. O problema é o vigésimo dia.
Nassim Taleb passou três livros, Iludidos pelo Acaso (2001), A Lógica do Cisne Negro (2007) e Antifrágil (2012), atacando essa premissa. Ele separa dois mundos. No Mediocristão, nenhuma observação sozinha muda a média: a altura de uma pessoa, por exemplo. No Extremistão, uma só observação muda tudo: a fortuna de um bilionário numa sala de mil pessoas.
A bolsa é Extremistão com cara de Mediocristão. Quase todos os dias parecem normais. Os poucos que não parecem decidem a década.
O teste: quantos dias "impossíveis" o Ibovespa teve
A curva normal, o sino que sustenta a maioria dos modelos de risco, diz com que frequência cada tamanho de queda deveria acontecer. Medimos a oscilação típica do Ibovespa desde 2000 (1,7% ao dia) e contamos os dias que caíram muito além disso:

6.623 pregões de 2000 a setembro de 2026. "Desvio" é a oscilação diária típica do índice.
Quedas maiores que quatro desvios (6,5% ou mais num dia): o modelo esperava 0,2 em quase 27 anos. Aconteceram 21. Maiores que cinco desvios: esperado, praticamente zero; aconteceram 9. Quatro delas vieram em março de 2020: −12,2% no dia 9, −14,8% no dia 12, −13,9% no dia 16 e −10,3% no dia 18.
Não é que o modelo esteja mal calculado. Ele descreve bem a parte do mundo que se comporta bem. Só não serve para o dia que importa.
Nas ações, a cauda é mais grossa
Um índice nunca quebra. Uma empresa pode. Nos preços mensais desde 2006, entre as 147 ações que hoje têm liquidez na B3, 90 caíram 70% ou mais do topo em algum momento, e 31 caíram 90% ou mais. E essa conta é otimista: as empresas que sumiram da bolsa não estão nela.
Às vezes o tombo vem em um dia. Em 12 de janeiro de 2023, depois de a Americanas anunciar inconsistências contábeis bilionárias, a ação caiu 77% num único pregão. Nenhum gráfico, média ou nota de risco avisou antes.
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