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Viver de renda · Aula 1 de 4

A regra dos 4% é uma conta americana

O número famoso nasceu num país de juro real perto de 2%. No Brasil, quanto dá para tirar por ano depende do juro real que você consegue travar, depois do imposto, e ele já foi de 3,37% a 7,56% em seis anos.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
A regra dos 4% é uma conta americana

Em 1 minuto

  • A regra dos 4% vem de um estudo americano de 1994, num mercado em que o título público pagava perto de 2% acima da inflação.
  • No Brasil, a retirada que preserva o capital é o juro real depois do imposto: 5,85% com o IPCA+ 2035 de 25/09/2026, 2,29% com o de janeiro de 2020.
  • Sacar 4% de 100% do CDI, de 2006 a 2025, comeu um quarto do capital em poder de compra, mesmo com a Selic alta.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Transformar a taxa do Tesouro IPCA+ em juro real líquido de imposto
  • Calcular a renda que preserva o capital e a que o consome em 30 anos
  • Saber quanto patrimônio uma renda mensal exige

A tese: o número viajou, a conta que o gerou ficou nos EUA

Um dia a pergunta muda. Não é mais "quanto investir por mês". É "quanto posso tirar por ano sem o dinheiro acabar". A resposta mais repetida no mundo é a regra dos 4%: retire 4% do patrimônio no primeiro ano e corrija esse valor pela inflação nos anos seguintes.

Ela vem de um estudo de William Bengen, publicado em 1994. Ele testou as janelas de 30 anos do mercado americano com uma carteira de metade a 60% em ações e viu que 4% ao ano sobreviveram a todas, inclusive às de quem se aposentou perto de 1929 e de 1966. Foi uma conta honesta, feita para um país em que o título público pagava perto de 2% acima da inflação.

A ideia: A regra dos 4% é a resposta de um país com juro real de 2%. A sua retirada é a resposta do juro real que você consegue travar, depois do imposto.

O que este módulo faz é trocar o número importado pela conta brasileira. Esta aula cuida do ponto de partida: quanto o dinheiro rende de verdade antes de você mexer nele. As próximas tratam da ordem dos anos ruins, do dividendo como fonte de renda e da decisão de reinvestir ou gastar.

O mecanismo: três forças que decidem a retirada

1. A retirada que preserva o capital é o juro real líquido. Se o patrimônio rende 5% acima da inflação depois do imposto e você tira 5%, ele fica do mesmo tamanho em poder de compra para sempre. Tire mais e você está comendo o principal. Tire menos e ele cresce. Toda taxa de retirada é uma comparação com esse número.

2. O imposto morde também a parte que só repõe a inflação. O IR de renda fixa incide sobre o rendimento nominal inteiro, e não só sobre o ganho acima do IPCA. Por isso o juro real que aparece na tela do Tesouro não é o que sobra. Com o Tesouro IPCA+ 2035 a 7,56% (taxa de compra de 25/09/2026) e uma inflação suposta de 4% ao ano:

Passo Conta Resultado
Rendimento nominal 1,0756 × 1,04 − 1 11,86%
Depois do IR de 15% 11,86% × 0,85 10,08%
Tirando a inflação 1,1008 ÷ 1,04 − 1 5,85%

Dos 7,56% de juro real, o imposto leva 1,7 ponto. A hipótese de cobrar o IR todo ano é uma simplificação: no Tesouro ele é cobrado no resgate, a 15% depois de dois anos, e o efeito real é um pouco menor. A ordem de grandeza não muda.

3. O prazo transforma "preservar" em "gastar até o fim". Quem aceita terminar a vida com o patrimônio perto de zero pode tirar mais que o juro real, porque vai consumindo o principal aos poucos. Com 5,85% reais líquidos, o saque no início de cada ano que zera o dinheiro em exatamente 30 anos é de 6,75%. É mais que os 4% americanos, e é também um plano que não deixa margem para viver 35 anos.

O que isso significa em reais: R$ 1 milhão por 30 anos

A mesma conta, com cinco juros reais diferentes. Os três primeiros são taxas de compra do Tesouro IPCA+ publicadas pelo Tesouro; o de janeiro de 2020 é o que a aula atual registrou para o IPCA+ 2035 naquele mês; a última linha é só a ordem de grandeza do juro real americano de Bengen, com o mesmo imposto brasileiro, para comparar.

Juro real bruto Real líquido (IR 15%, IPCA 4%) Retirada que preserva Retirada que zera em 30 anos Saque de R$ 40 mil por ano: o que sobra no ano 30
7,56% (IPCA+ 2035, 25/09/2026) 5,85% 5,85% 6,75% R$ 2,24 milhões
7,43% (IPCA+ 2035, 24/10/2025) 5,74% 5,74% 6,68% R$ 2,14 milhões
7,14% (IPCA+ 2050, 25/09/2026) 5,49% 5,49% 6,52% R$ 1,92 milhão
3,37% (IPCA+ 2035, jan/2020) 2,29% 2,29% 4,54% R$ 0,23 milhão
2% (a referência americana) 1,12% 1,12% 3,90% acaba no ano 30

Valores em reais de hoje, com o saque feito no começo de cada ano. Com o juro de setembro de 2026, sacar R$ 50 mil por ano (5%) ainda deixa R$ 1,43 milhão no ano 30; R$ 60 mil deixam R$ 0,61 milhão; R$ 70 mil acabam com o dinheiro no ano 28.

Antes de continuar: Com o juro real de janeiro de 2020 (3,37% no IPCA+ 2035), alguém saca R$ 50 mil por ano, 5%, de R$ 1 milhão. Quando o dinheiro acaba?

a) Não acaba: 5% é uma retirada moderada · b) Por volta do ano 40 · c) No ano 27 · d) No ano 15

Resposta: No ano 27. Acaba no ano 27. Com 2,29% reais líquidos, qualquer saque acima disso come o principal; 5% o consome em menos de três décadas. O mesmo saque, com o juro de setembro de 2026, deixaria R$ 1,43 milhão no ano 30.

A diferença entre 7,6% e 3,4% de juro real não é de grau. É de método. Com o primeiro, a renda fixa indexada à inflação paga o plano sozinha e ainda sobra. Com o segundo, a conta brasileira vira a americana: para sacar 4% ou 5%, é preciso ter ações, e aí a ordem em que os anos bons e ruins aparecem passa a decidir o resultado, que é o assunto da aula 2.

O caso brasileiro que ninguém faz: 4% do CDI, de 2006 a 2025

A objeção natural é que o Brasil tem juro alto, então qualquer pós-fixado aguenta 4%. Os números dizem outra coisa.

Antes de continuar: R$ 1 milhão em 100% do CDI, com IR de 15% sobre o rendimento de cada ano, sacando 4% ao ano corrigidos pela inflação de 2006 a 2025. Quanto sobrou em poder de compra?

a) Cresceu: uns R$ 1,4 milhão · b) Ficou perto de R$ 1 milhão · c) Uns R$ 750 mil · d) Acabou

Resposta: Uns R$ 750 mil. Sobraram R$ 0,75 milhão em dinheiro de 2006: um quarto do capital se foi em 20 anos. O CDI líquido de imposto rendeu, em média, só 3,06% acima da inflação por ano, e em 2020 e 2021 rendeu menos que ela.

Com o CDI e o IPCA de cada ano, do Banco Central, o resultado em dinheiro de 2006 foi este:

Saque anual (corrigido pela inflação) O que sobrou de R$ 1 milhão no fim de 2025
4% R$ 0,75 milhão
5% R$ 0,48 milhão
6% R$ 0,21 milhão

A razão está no juro real líquido. Descontado o IR de 15% sobre o rendimento nominal, o CDI pagou em média 3,06% acima da inflação por ano nesses 20 anos. Em 2020, perdeu 2,1% para ela; em 2021, 5,7%. A Selic alta da maior parte do período veio quase sempre junto com inflação alta, e o imposto cobra das duas partes. O pós-fixado não trava nada: ele paga o juro real que o Copom e a inflação de cada ano entregarem.

É por isso que a primeira linha da tabela anterior usa um título indexado ao IPCA com taxa travada, e não o CDI. Quem leva o IPCA+ até o vencimento recebe a taxa contratada, faça a inflação o que fizer, porque ela é somada ao valor do título.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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