Dívida: o número que só mata quando a receita some
Dívida líquida sobre EBITDA diz quantos anos de geração da operação pagariam a dívida. O mesmo 4× é rotina numa transmissora de energia e perigo numa construtora. O que separa as duas é a previsibilidade da receita.

A ideia: dívida não quebra empresa; vencimento sem receita quebra
A aula anterior mostrou que dívida pode inflar o ROE. Esta mostra o outro lado: a dívida é a linha do balanço que decide se a empresa atravessa um ano ruim.
Pense em duas famílias com o mesmo financiamento de casa. Uma tem dois salários de servidor público. A outra vive de comissão de vendas. A dívida é igual; o risco não. O que importa não é o tamanho da parcela, é a chance de a renda faltar no mês em que a parcela vence.
A mesma dívida é rotina numa empresa de receita previsível e é perigo numa empresa de receita que oscila. O número sozinho não classifica nada; o tipo de negócio, sim.
Como se mede: dívida líquida sobre EBITDA
O indicador mais usado tem duas partes.
Dívida líquida é tudo o que a empresa deve pagando juros (empréstimos, títulos de dívida, aluguéis de longo prazo registrados como dívida) menos o dinheiro que ela tem em caixa e aplicações. É o que sobraria de dívida se ela usasse todo o caixa para pagar.
EBITDA é o lucro da operação antes de juros, impostos, depreciação e amortização. É uma medida, imperfeita, de quanto a operação gera por ano para pagar credores.
Dividindo um pelo outro, você tem quantos anos da geração atual seriam necessários para quitar a dívida. Veja a conta montada na Petrobras:

Balanço de 31/12/2025 e EBITDA dos últimos 12 meses. O resultado confere com o que a tela Analisar papel mostra.
A empresa devia R$ 384,0 bilhões em empréstimos e financiamentos e R$ 238,5 bilhões em arrendamentos: R$ 622,6 bilhões de dívida bruta. Tinha R$ 50,6 bilhões em caixa e aplicações. Dívida líquida: R$ 572,0 bilhões. Dividida pelo EBITDA de R$ 273,3 bilhões, dá 2,09×: pouco mais de dois anos de geração operacional. Em setembro de 2026, a mediana das ações líquidas da B3 era 2,1×.
A mesma régua, negócios diferentes

Dados do Quantor em 23/09/2026. Números negativos querem dizer mais caixa que dívida.
A WEGE3 (−0,30×) e a LREN3 (−0,49×) têm mais caixa do que dívida: o indicador fica negativo. A TAEE11, transmissora, está em 4,41×, o dobro da mediana, e a EGIE3, geradora, em 4,17×. A CSAN3, holding, em 8,95×. A MRVE3, construtora, em 11,63×.
Uma transmissora recebe uma receita definida em contrato por décadas, corrigida por índice de inflação, paga por quem usa a rede. O EBITDA dela quase não oscila, e o ativo dura muito mais que a dívida. Para ela, 4× é desenho, não acidente.
Uma construtora depende de vender apartamentos, de o comprador conseguir financiamento e de os juros não subirem. O EBITDA dela oscila com o ciclo. E aqui está a armadilha: o denominador é que se mexe. Se o EBITDA de uma empresa com 4,4× cai 60% num ano ruim, a mesma dívida passa a valer 4,4 ÷ 0,4 = 11×, sem que ela tenha pegado um real a mais. Quase toda crise de endividamento começa pela queda do EBITDA, não pela alta da dívida.
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