Capital de giro: o balanço que sangra crescendo
Para vender, a empresa compra estoque antes e recebe do cliente depois. Esse intervalo prende dinheiro, e quanto mais ela cresce, mais dinheiro fica preso. É assim que empresa lucrativa fica sem caixa.

A ideia: crescer custa dinheiro
Imagine uma padaria que vende bem. Para vender mais pão amanhã, ela precisa comprar mais farinha hoje. Se o cliente paga no cartão, o dinheiro só cai daqui a um mês. Se o moinho quer receber em uma semana, a padaria paga a farinha antes de receber pelo pão. Quanto mais ela vende, maior o buraco entre pagar e receber.
Esse buraco tem nome: capital de giro. É o dinheiro preso na operação só para ela funcionar no tamanho atual. A conta cabe numa linha:
Necessidade de capital de giro = estoques + contas a receber − fornecedores
Lucro não é caixa, e o lugar onde a diferença costuma se esconder é o capital de giro. É a linha do balanço que mais faz empresa lucrativa ficar sem dinheiro, justamente quando ela está crescendo.
O ciclo do dinheiro numa rede de farmácias
Cada parte da conta pode ser traduzida em dias, com números do balanço e da DRE:
- Prazo de estoque: estoque dividido pelo custo do que foi vendido, vezes 365. Quantos dias, em média, a mercadoria fica parada.
- Prazo de recebimento: contas a receber divididas pela receita, vezes 365. Quantos dias o cliente leva para pagar.
- Prazo de pagamento: fornecedores divididos pelo custo do que foi vendido, vezes 365. Quantos dias a empresa leva para pagar quem vendeu para ela.
Na Raia Drogasil de 2025:

O remédio chega no dia 0. O fornecedor é pago no dia 81. O remédio é vendido no dia 112, e o dinheiro entra no dia 146.
O estoque somava R$ 9,58 bilhões contra R$ 31,29 bilhões de custo anual: 112 dias de prateleira. Os recebíveis eram R$ 4,14 bilhões contra R$ 44,25 bilhões de receita: 34 dias para receber. Os fornecedores, R$ 6,91 bilhões: 81 dias para pagar.
O ciclo de caixa é 112 + 34 − 81 = 65 dias. Durante 65 dias, em média, a empresa já pagou o fornecedor e ainda não recebeu do cliente. Esse intervalo precisa ser financiado: pelo caixa da empresa ou por um banco. Em reais, a conta dá R$ 9,58 + R$ 4,14 − R$ 6,91 = R$ 6,8 bilhões presos na operação.
Por que o caixa some quando o negócio vai bem
Se a empresa dobra de tamanho, esse dinheiro preso dobra junto. De 2022 a 2025, a receita da RADL3 cresceu 52%, e o estoque, 56%. A necessidade de capital de giro foi de R$ 4,4 bilhões para R$ 6,8 bilhões.

Em azul, o lucro do ano; em vermelho, quanto caixa ficou preso na operação, segundo o fluxo de caixa.
Em 2023, o dinheiro que ficou preso na operação (R$ 1,46 bilhão) foi maior que o lucro do ano inteiro (R$ 1,09 bilhão). Isso não quer dizer que algo deu errado: numa rede que cresce, mais lojas significam mais prateleiras para encher. Mas é exatamente assim que uma empresa com lucro recorde pode terminar o ano precisando de empréstimo.
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