Goodwill: o ativo que só dá notícia ruim
Quando uma empresa compra outra pagando mais do que ela vale no papel, a diferença vira um ativo chamado goodwill. Ele nunca sobe sozinho. Ou fica parado, ou é baixado de uma vez, como prejuízo.

A ideia: um ativo que é uma aposta
Quando você lê o lado do ativo no balanço, procura o que a empresa tem: caixa, estoque, fábricas, lojas. Em algum ponto aparece uma linha com um nome estranho: goodwill, ou ágio por expectativa de rentabilidade futura. Ela parece mais um bem. Não é.
Goodwill é o registro de uma aposta. A empresa pagou hoje por lucros que ainda não existem e lançou a diferença no ativo. Enquanto a aposta parece boa, a linha fica parada. Quando deixa de parecer, vira prejuízo, de uma vez e com anos de atraso.
É a única linha do balanço que só dá notícia ruim: ou fica igual, ou é baixada.
De onde nasce o goodwill
O goodwill só existe quando uma empresa compra outra. Veja com números redondos:

Exemplo ilustrativo. À esquerda, o preço pago; à direita, como ele entra no balanço da compradora.
A compradora paga R$ 3,0 bilhões. A empresa comprada tinha R$ 0,8 bilhão de patrimônio, medido a valor justo: caixa, fábricas, estoques, menos as dívidas dela. Sobram R$ 2,2 bilhões pagos acima do que ela tinha.
Esse prêmio é dividido em duas partes. Uma parte vai para intangíveis identificáveis: marcas, carteiras de clientes, tecnologia, coisas que têm nome e vida útil estimada. Esses viram despesa aos poucos, ano a ano, na DRE. O resto, que não cabe em lugar nenhum, é o goodwill: a aposta de que a combinação vai gerar lucros maiores no futuro. Quanto mais caro o comprador pagou, maior o goodwill. Ele é a medida exata do otimismo.
Por que ele estoura de uma vez
Pelas regras contábeis atuais, o goodwill não vira despesa ano a ano. Em vez disso, passa por um teste de recuperabilidade todo ano: a empresa projeta o caixa que o negócio comprado vai gerar, traz esse caixa a valor presente com uma taxa de desconto e compara com o valor no balanço. Se a projeção cobre o valor, nada acontece. Se não cobre, a diferença é baixada como prejuízo. Essa baixa se chama impairment.
Três coisas fazem a baixa chegar tarde e em bloco:
1. Quem faz a projeção é quem aprovou a compra. Ninguém gosta de assinar que pagou caro.
2. Juro alto derruba o teste sem o negócio piorar. A mesma projeção, descontada a uma taxa maior, vale menos hoje. Quem comprou com juro baixo passa a testar o mesmo ativo com uma taxa bem mais alta. A aula 9 mostra quanto um ponto de juro muda o valor de uma empresa.
3. A baixa puxa outras coisas junto. O prejuízo reduz o patrimônio, a dívida passa a pesar mais em relação a ele, e contratos de empréstimo com limites de endividamento podem ser acionados.
Voltar à trilha Ler um balanço em 10 aulasTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.