A curva DI não prevê o Copom, ela cobra por ele
Cada vencimento do DI futuro é o preço de uma aposta com dinheiro de verdade. Em setembro de 2026, a curva cobrava 14% ao ano para 2028 e 2029, enquanto os economistas esperavam Selic de 10% a 10,5%.

A ideia: uma tabela de preços, não uma bola de cristal
A aula 1 tratou a Selic como um número só. Mas quem empresta dinheiro por três anos não quer saber só da Selic de hoje: quer saber a Selic de amanhã, do ano que vem, de 2029. Ninguém sabe. Então o mercado faz o que sempre faz com o que ninguém sabe: põe um preço.
Esse preço é a curva DI. Na B3 existem contratos de "DI futuro", um para cada vencimento. A taxa de cada contrato é a média do CDI que comprador e vendedor aceitaram, com dinheiro em risco, para o período entre hoje e aquele vencimento. Quem acha que o CDI vai ficar acima dessa taxa ganha se estiver certo; quem acha que vai ficar abaixo, ganha no caso contrário.
A curva não é a previsão de ninguém. É o ponto em que as apostas empataram, com o custo do risco já embutido. Previsão você compara com o que os economistas dizem. Preço você compara com a sua opinião, e decide se vale a pena ficar do outro lado.
A curva de 23/09/2026

Cada ponto da linha é um contrato de DI futuro; no eixo de baixo, quanto tempo falta até o vencimento. A linha tracejada é a mesma curva 21 pregões antes. 1 ponto-base (bp) é 0,01 ponto percentual.
Leia da esquerda para a direita:
- O começo fica abaixo da Selic. O contrato de janeiro de 2027 estava em 13,54%, com a Selic em 13,75% e o CDI em 13,65%. Uma média abaixo do CDI atual até dezembro só fecha se houver cortes. É o que os economistas do Boletim Focus esperavam: 13,63% na reunião de novembro e 13,50% em dezembro.
- Depois, a curva sobe. Janeiro de 2029 em 13,79%, janeiro de 2032 em 14,03%, e daí em diante praticamente reta até 2035 (14,04%).
- Tudo desceu no mês. Em 21 pregões, o janeiro de 2027 caiu 16 bp e os vencimentos longos caíram até 47 bp. Quando a ponta longa cai mais que a curta, o mercado está cobrando menos pelo risco de longo prazo, e não só esperando mais cortes.
A conta do juro a termo
A curva tem um segredo escondido entre os vencimentos. Se até janeiro de 2028 o mercado cobra 13,57% ao ano, e até janeiro de 2029 cobra 13,79%, o ano de 2028 sozinho precisa custar mais que 13,79% para a média subir. A conta exata (juntando os dois prazos em dias úteis) dá 14,06%. Esse número é o juro a termo: o CDI médio que o mercado cobra para um ano lá na frente.
Agora compare com quem faz previsão:

Barras amarelas: o CDI médio que a curva de 23/09 cobra para cada ano. Barras azuis: a Selic que a mediana do Focus de 18/09 espera no fim do mesmo ano.
Para 2027, a curva cobra 13,58%; o Focus espera terminar o ano com a Selic em 12%. Para 2028, 14,06% contra 10,50%. Para 2029, 14,22% contra 10,00%. São de 3,5 a mais de 4 pontos de distância.
Quem está certo? A pergunta está errada. A curva não diz que a Selic será 14% em 2029. Diz que, para travar uma taxa até lá, o mercado exige esse retorno, porque carregar um título por anos no Brasil tem riscos: inflação, contas públicas, eleição, câmbio. Parte da distância é prêmio por esse risco. Se você acredita no Focus, a curva está pagando para você discordar dela; se não acredita, está cobrando para você concordar.
Onde engana
O juro a termo é um péssimo profeta. No fim de 2020, com a Selic em 2%, o Tesouro Prefixado com vencimento em janeiro de 2022 pagava 2,93% ao ano, e o de janeiro de 2023, 4,48%. O mercado precificava juro baixo por anos. Em agosto de 2022, a Selic estava em 13,75%. A curva errou de muito; quem travou aquelas taxas passou 2021 e 2022 rendendo menos que o CDI.
Vencimento sem negócio não é opinião. No dia 23/09/2026, o contrato de janeiro de 2029 teve 34.550 negócios; os de 2039 a 2041, nenhum. Taxa de contrato sem negócio é calculada por interpolação, e parece preço sem ser.
Um dia é ruído. Leilão do Tesouro, vencimento de contrato, um estrangeiro desmontando posição: a curva pode andar num dia por motivo técnico, sem nenhuma notícia econômica. Vinte e um pregões dizem muito mais que um.
Na prática
1. Olhe dois vencimentos, nunca um. A diferença entre eles diz o caminho; um número sozinho diz pouco.
2. Compare a ponta curta com a Selic. Abaixo, o mercado espera corte; acima, alta. A distância diz o tamanho.
3. Calcule o juro a termo antes de comprar um prefixado. Se você espera Selic bem abaixo do que a curva cobra, o título paga para você estar certo. Se não tem opinião, está correndo risco à toa.
4. Confira os negócios do dia. Conclusão tirada de vencimento ilíquido é conclusão sobre um número de planilha.
No Quantor
A aba Juros tem a curva DI contrato a contrato: hoje, um pregão atrás e 21 pregões atrás, com o número de negócios de cada vencimento. Logo abaixo, o CDI médio que o mercado precifica para cada ano (o juro a termo desta aula) e a inclinação da curva. No alto da aba, a expectativa do Focus para as próximas reuniões do Copom, para comparar preço com previsão.
A Selic é o que o Copom já decidiu. A curva é quanto o mercado cobra pelo que ele ainda vai decidir.
Voltar à trilha Juros, DI e renda fixa: a régua de tudoTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.