Calendário da bolsa: sete efeitos até 2016, nenhum depois
Virada do mês, véspera de feriado, rali de Papai Noel e segunda-feira ruim passaram no teste com os dados de 2006 a 2016. Medidos em 2017–2026 sem mudar nada, nenhum se repetiu. O Sell in May só parecia funcionar porque o CDI era alto.

Em 1 minuto
- Com 20 anos de dados e dezenas de datas possíveis, algum dia sempre parece especial por puro acaso; só a prova cega separa efeito de coincidência.
- Sete efeitos de calendário passaram no teste com 2006–2016; medidos em 2017–2026, sem mudar nada, nenhum se repetiu.
- O Sell in May 'rende' mais que o Ibovespa porque passa metade do ano no CDI alto do Brasil, e não por causa de maio.
Ao fim desta aula você vai saber
- Desconfiar de qualquer regra testada só no passado inteiro
- Separar o efeito de uma data do efeito de estar no CDI
- Calcular quanto o custo de operar em datas fixas come de uma vantagem pequena
A tese: o calendário publicado é calendário gasto
Todo mês de maio alguém lembra: "sell in May and go away", venda em maio e volte em novembro. Em dezembro aparece o rali de Papai Noel. Em janeiro, o efeito janeiro. E há quem jure que a véspera de feriado sobe e a segunda-feira cai. São as regras mais fáceis da bolsa: não exigem gráfico, só um calendário.
Também são as mais fáceis de testar, e o teste certo aqui é o da prova cega. O resultado cabe numa frase: o que parecia real até 2016 não apareceu de novo. As poucas regras de data que já tiveram alguma vantagem parecem tê-la perdido justamente por terem ficado conhecidas.
O mecanismo: três forças que criam e matam um efeito de calendário
1. Muitas datas, algum vencedor por acaso. Dias da semana, meses, viradas, vésperas, feriados, semanas do ano: são dezenas de combinações. Com um teste estatístico de 5%, uma em cada vinte ideias sem efeito nenhum passa por pura sorte. Quem testa muitas datas sempre encontra uma "que funciona".
2. Às vezes existe uma causa. A virada do mês tinha uma explicação plausível: salários, aportes de fundos e reinvestimento de dividendos entram no começo do mês e empurram os preços. Uma causa real torna o efeito mais crível, mas não garante que ele seja grande o bastante para pagar o custo, nem que dure.
3. Quando a regra fica conhecida, alguém a antecipa. Se todo mundo sabe que o primeiro pregão do mês sobe, alguém compra no último pregão do mês anterior. Depois, alguém compra um dia antes desse. A vantagem vai se espalhando até sumir.
O teste: duas metades de dez anos
Foram testados dez efeitos no Ibovespa e numa carteira de peso igual das ações líquidas (a mesma quantia em cada ação que negociava bastante por dia):
- Com os dados de 2006 a 2016, decidiu-se quais efeitos pareciam reais, com um teste estatístico de 5%: só passa o efeito que teria no máximo 5% de chance de aparecer por acaso.
- Só esses foram medidos em 2017 a 2026, sem mudar nenhuma regra.
Se o efeito é real, ele aparece de novo. Se era coincidência, ou se foi gasto, some.
Antes de continuar: Sete dos dez efeitos de calendário passaram no teste com os dados de 2006–2016. Quantos se repetiram em 2017–2026, sem mudar nenhuma regra?
a) Os sete · b) Quatro ou cinco · c) Um ou dois · d) Nenhum
Resposta: Nenhum. Nenhum. Os sete efeitos que pareciam reais na primeira metade desapareceram na segunda. O Sell in May e o efeito janeiro nem chegaram a passar na primeira.
O resultado: sete passaram, nenhum voltou

Retorno médio por pregão no dia do efeito contra os outros dias, em centésimos de ponto percentual, nas duas metades. A diferença da primeira metade some na segunda. Teste do Quantor, Ibovespa e carteira de peso igual, 2006–2026.
O mais forte era o primeiro pregão do mês no Ibovespa: no período todo, ele rendeu em média 0,33%, contra 0,03% dos outros dias. A virada do mês (último pregão e os três primeiros) também parecia firme. Na carteira de peso igual, passaram o rali de Papai Noel, a véspera de feriado, o último pregão do mês e a segunda-feira ruim.
Na segunda metade, nenhum se repetiu.
A ideia: Efeito de calendário publicado costuma ser efeito de calendário gasto. Antes de seguir uma data, pergunte o que ela fez na metade que ninguém usou para criá-la.
O caso da virada do mês
A virada do mês é o caso mais instrutivo, porque tinha tudo: explicação econômica, efeito estatístico e resultado. Na carteira de peso igual, ficar comprado só nesses dias rendeu +14,0% ao ano no período todo, mais que o CDI. Quem olhasse os 20 anos juntos teria uma regra simples e vencedora.
Mas quase todo o ganho veio de 2006–2016. Em 2017–2026, o efeito desapareceu. A explicação mais provável é a terceira força: quando uma regra simples fica conhecida, muita gente passa a antecipá-la. O número dos 20 anos juntos não mentiu sobre o passado. Ele só não dizia nada sobre o futuro, porque misturava o período em que o efeito existia com o período em que ele já tinha sido gasto.
O caso do Sell in May: o mérito era do CDI
O Sell in May "rende" +12,3% ao ano contra +8,6% do Ibovespa nos 20 anos, e é esse número que circula. Em dinheiro, R$ 100 a cada taxa por 20 anos dariam cerca de R$ 1.018 contra R$ 521.
+12,3% ao ano Sell in May (fora da bolsa de maio a outubro, no CDI), 20 anos · +8,6% ao ano Ibovespa no mesmo período · 93% → 54% das escolhas aleatórias de seis meses no CDI que o Sell in May bateu, na 1ª e na 2ª metade
Só que a diferença entre os dias de maio a outubro e os outros não é estatisticamente significativa. O ganho vem de outro lugar: o CDI brasileiro foi alto e o Ibovespa rendeu pouco, então passar qualquer metade do ano na renda fixa já ajudava. A forma de provar isso é comparar o Sell in May com escolhas aleatórias de seis meses para ficar no CDI. Na primeira metade, ele bateu 93% delas. Na segunda, só 54%, praticamente o resultado de um sorteio, e ficou abaixo do próprio Ibovespa.
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