Entrar
O prazo e o day trade · Aula 4 de 5

A fábrica de 99% de acerto

Acerto alto é uma das coisas mais fáceis de fabricar no mercado: basta trocar perdas pequenas e frequentes por perdas raras e enormes. Uma regra com 99% de acerto na melhor janela de três anos deu prejuízo em 20 anos.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
A fábrica de 99% de acerto

Em 1 minuto

  • Acerto alto se fabrica aceitando perdas raras e enormes em troca de ganhos pequenos e frequentes; a ferramenta mais comum é o preço médio.
  • Numa simulação sobre um preço sem tendência, a regra acertou 97,2% e perdeu dinheiro: ganho médio de R$ 38, perda média de R$ 1.440.
  • A regra "segura até ficar verde" teve 99% de acerto na melhor janela de três anos e prejuízo nos 20 anos completos.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Calcular a expectativa de uma regra a partir do acerto, do ganho médio e da perda média
  • Achar o acerto mínimo para uma regra empatar
  • Reconhecer preço médio, grid e martingale pelo comportamento da posição

A tese: acerto alto é fácil de fabricar

Imagine um anúncio: "robô com 99% de acerto, três anos de histórico, print da conta no verde todo mês". Parece o fim da discussão. Quem acerta 99 de cada 100 vezes só pode ganhar dinheiro.

Não pode. Acerto alto é uma das coisas mais fáceis de fabricar no mercado. Basta aceitar perdas raras e enormes em troca de ganhos pequenos e frequentes.

A ideia: Acerto não paga conta. O que paga é a chance de acertar vezes o ganho médio, menos a chance de errar vezes a perda média.

Essa conta tem nome, expectativa, e o curso Método Quant dedica uma aula a ela. Aqui você vê por dentro a máquina que produz o acerto bonito, e a ferramenta mais usada por ela tem nome conhecido: preço médio.

O mecanismo: três forças que fabricam o acerto

1. Alvo curto, perda sem limite. A regra põe um alvo pequeno, por exemplo 1% acima da compra, e nenhum stop. Como o mercado oscila, o alvo pequeno é atingido quase sempre. A perda, quando vem, não tem tamanho combinado.

2. A posição cresce quando perde. Se o preço cai, em vez de sair, a regra compra de novo. O preço médio da posição desce, o alvo fica mais perto e, como o mercado quase sempre devolve um pouco, mais um dia verde. É o preço médio, o grid (comprar em degraus pré-definidos) ou o martingale (dobrar a aposta depois de cada perda). Os três escondem o risco no mesmo lugar: no tamanho.

3. O tempo esconde a perda. Uma operação que não bate o alvo não é encerrada; fica esperando voltar. Enquanto espera, não conta como perda. A estatística só registra o erro quando ele é grande demais para continuar escondido.

A simulação: a escada e o penhasco

Para ver a máquina funcionar sem a interferência de nenhum mercado real, a pesquisa do Quantor fez uma simulação didática: um preço sorteado ao acaso, sem tendência nenhuma, oscilando 1,2% ao dia, por mil dias. A regra: alvo de +1% sobre o preço médio; se o preço cair 2%, dobra a posição; no máximo quatro dobras (16 vezes o lote inicial de R$ 1.000); se cair mais 3% depois disso, sai no prejuízo, porque não há mais margem para dobrar.

Os primeiros 59 trades foram todos ganhos: uma escada perfeita até +R$ 2.179, em 530 dias. Qualquer print desse período mostraria 100% de acerto.

Antes de continuar: A regra terminou os mil dias com 107 operações e 97,2% de acerto. Qual foi o resultado final?

a) Perto de +R$ 4.000: a escada continuou · b) Perto de +R$ 2.000: parou de subir · c) Prejuízo

Resposta: Prejuízo. −R$ 368. O ganho médio foi de R$ 38 e a perda média, de R$ 1.440. Uma perda apagou 36 ganhos, e três perdas levaram a conta para o vermelho.

97,2% de acerto em 107 operações · +R$ 38 ganho médio · −R$ 1.440 perda média

Não foi um sorteio azarado. A mesma regra rodou em 2.000 preços sorteados diferentes: o acerto mediano ficou em 96%, e 59% das simulações terminaram no prejuízo. Num preço sem tendência, o preço médio não cria vantagem; ele só muda o formato das perdas. Em vez de muitas perdas pequenas, poucas e enormes.

O que os testes em dados reais mostraram

A pesquisa testou a mesma estrutura no mini índice e no Ibovespa, sempre com custo de operação descontado:

Teste Acerto Ganho médio Perda média Resultado
Day trade, alvo de 50 pontos, sem stop (WIN, 2 anos) 96% +R$ 8 −R$ 400 −R$ 4.374
O mesmo com preço médio (WIN, 2 anos) 95,8% +R$ 20 −R$ 569 −R$ 2.565
"Segura até ficar verde" (índice, 20 anos) 97% pequeno −10% por derrota −33%, com queda máxima de −79%

Houve um teste positivo na mesma família: um grid na VWAP (o preço médio do dia ponderado pelo volume), com até 4 contratos, terminou dois anos com +R$ 1.064 e ganho médio de R$ 184 nos dias bons. O pior dia sozinho (−R$ 4.441) devolveu 24 dias verdes. Um dia um pouco pior e a conta virava.

O truque da vitrine

O teste "segura até ficar verde" esconde um segundo truque, que vale para qualquer método vendido com histórico. Fotografado só na melhor janela de três anos, de 2017 a 2020, ele mostrou 99% de acerto e fator de lucro de 3,1 (tudo o que ganhou dividido por tudo o que perdeu). Nos 20 anos completos, fator de lucro de 0,99, e prejuízo: para cada R$ 100 perdidos, R$ 99 ganhos.

O trade perdedor médio ficou 21 dias preso esperando o preço voltar; o pior, 158 dias. Uma operação que fica 158 dias esperando não é operação curta, mesmo que tenha sido vendida assim. É swing disfarçado, que esconde tempo e dorme posicionado sem ter sido dimensionado para isso: exatamente a mistura de prazos que a aula 1 apontou como o erro mais caro.

Voltar à trilha O prazo e o day tradeTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.