Entrar
Medir: volatilidade · Aula 6 de 6

Termômetro de risco: a média que esconde o medo

Em 23/09/2026, o termômetro da aba Risco marcava 37, zona normal, com o VIX Brasil mais tenso que 98% dos dois anos anteriores. Um mês depois, marcava 88. Ler o número sem ler os medidores é ler a temperatura média de uma sala com um doente dentro.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Termômetro de risco: a média que esconde o medo

Em 1 minuto

  • O termômetro de risco junta cinco medidores de medo num número de 0 a 100, pela média dos percentis de dois anos.
  • Média esconde extremo: em 23/09/2026 ele marcava 37 com o VIX Brasil no percentil 98; quem manda, nesses casos, é o medidor, não a média.
  • Medo alto esteve mais perto de bons pontos de entrada do que de desastres nos dados desde 2011, mas o caminho cobrou até −33% no mês seguinte.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Refazer a conta do termômetro e ver qual medidor está puxando o número
  • Reconhecer medo concentrado e medo espalhado
  • Traduzir a zona em tamanho de posição e expectativa, não em direção

A tese: o número que resume tudo pode esconder o que importa

Um termômetro que junta vários medidores num número só é útil: resume o clima numa olhada. Mas toda média tem um defeito conhecido. Se quatro pessoas numa sala estão com frio e uma está com febre de 40 graus, a temperatura média parece normal.

Esta aula fecha o módulo juntando tudo o que veio antes: a histórica, a implícita, o endereço e a forma do medo. E mostra quando confiar no resumo e quando descer aos medidores.

A ideia: Quando um medidor está no extremo e a média parece mansa, quem manda é o medidor, não a média.

O mecanismo: três forças por trás do termômetro

1. Cada medidor vira um percentil. Números de medo têm escalas diferentes: o VIX e o VIX Brasil em volatilidade anual, o MOVE (a volatilidade dos juros americanos) numa escala própria, o spread de crédito em pontos percentuais. Para somar laranjas com laranjas, cada um vira o seu percentil dos últimos dois anos: quanto do período ficou abaixo do valor de hoje. Percentil 98 quer dizer mais tenso que 98% dos dois anos. A trilha de matemática do curso Método Quant explica por que a janela muda a leitura.

2. A média resume, e dilui. O termômetro é a média simples dos cinco percentis: VIX (ações americanas), MOVE (juros americanos), VVIX (a oscilação do próprio VIX), VIX Brasil e crédito (quanto as empresas arriscadas pagam a mais nos EUA). Se a curva do VIX inverter (aula 5), somam-se 10 pontos. As zonas: abaixo de 30, calmo; de 30 a 60, normal; de 60 a 80, alerta; 80 ou mais, estresse. Quatro medidores tranquilos puxam para baixo um que esteja no teto.

3. O medo se espalha, ou não. Um susto local costuma acender um medidor só. Um susto que vira crise contamina os outros: juros, crédito, o VIX de lá. A diferença entre os dois casos está nos medidores, não no número final.

Setembro de 2026: 37 pontos e um medidor no teto

Foi o que a aba Risco mostrou em 23/09/2026:

A aba Risco do Quantor em 23/09/2026, com o termômetro e os medidores marcados

Print da aba Risco em 23/09/2026. Os números são explicados no texto.

O termômetro (1) marcava 37, zona normal. Logo ao lado, a própria aba avisava (2) que o medo estava concentrado em um lugar. Esse lugar era o VIX Brasil (3), mais tenso que 98% dos dois anos anteriores. O VIX (4) estava mais calmo que 86% dos dois anos, e a curva do VIX (5) em 0,84, sem inversão.

A conta é aberta:

Medidor Percentil de 2 anos em 23/09/2026
VIX 14
MOVE 48
VVIX 10
VIX Brasil 98
Crédito 13
Média (14 + 48 + 10 + 98 + 13) ÷ 5 = 36,6

Quatro medidores tranquilos esconderam que o medo brasileiro estava no topo. A aba usa um critério simples para o aviso: um medidor no percentil 85 ou mais com a média em zona calma ou normal.

Outubro de 2026: de 37 a 88 em um mês

O histórico do termômetro conta o mês seguinte. Em 22/09, 34. Em 01/10, a três dias do primeiro turno, 68. Em 16/10, 87. Em 23/10, a última sexta antes do segundo turno, 88, zona de estresse. No pregão seguinte, 26/10, o Ibovespa caiu 13,9%.

Antes de continuar: Em 27/10/2026, o termômetro marcava 74 (alerta). Qual medidor estava MAIS tenso?

a) O VIX Brasil, como em setembro · b) O VIX americano · c) O crédito: o spread das empresas arriscadas nos EUA

Resposta: O crédito: o spread das empresas arriscadas nos EUA. Crédito no percentil 92, VIX Brasil em 86, MOVE em 78, VIX e VVIX em 58. O medo deixou de estar concentrado: espalhou-se para juros e crédito.

A conta de 27/10/2026:

37 23/09/2026: medo concentrado no VIX Brasil (98) · 88 23/10/2026: estresse, na véspera do −13,9% · 74 27/10/2026: alerta, com crédito em 92 e MOVE em 78

(58 + 78 + 58 + 86 + 92) ÷ 5 = 74,4. O número caiu de 88 para 74, mas a leitura piorou em um ponto: em setembro, um medidor gritava e quatro dormiam; em 27/10, nenhum dormia. Um detalhe de leitura: o VIX Brasil de 26/10 (21,57) é provisório, como a aula 2 explicou, e entra no percentil 86 desse dia.

O que o medo alto antecedeu

Resta a pergunta que todo mundo faz: o que acontece depois que o medo sobe? Separamos cada pregão desde 21/02/2011 pela faixa do VIX Brasil naquele dia e olhamos o Ibovespa 12 meses depois.

VIX Brasil no dia Ibovespa em 12 meses (média) Mais alto em
qualquer pregão +9,2% 65%
abaixo de 20 +12,2% 79%
20 a 25 +8,9% 62%
25 a 35 +14,1% 78%
acima de 35 +35,5% 84%

A ideia: Nesses dados, medo caro esteve mais perto de bons pontos de entrada do que de desastres. Mas o caminho cobrou caro de quem entrou.

O termômetro conta a mesma história no histórico desde 2017, medido no BOVA11. Nos 209 pregões em zona de estresse, o fundo subiu em média 26,2% nos 12 meses seguintes, com 90% de casos positivos. Na zona calma, 9,7%, e no mês seguinte a um dia calmo o BOVA11 subiu em só 55% das vezes. Repare no resto das tabelas: no VIX Brasil, a faixa mais fraca foi a de 20 a 25, não a calma; no termômetro, a calma foi a mais fraca. O que os dois estudos têm em comum é o topo: o medo alto veio antes dos melhores 12 meses.

Voltar à trilha Medir: volatilidadeTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.