Como juros mudam o valuation
O mesmo lucro vale menos quando o juro sobe e mais quando o juro cai. Não é humor do mercado; é a conta de trazer dinheiro futuro para hoje. E quem promete lucro mais distante sente mais.

A ideia: "caro comparado com quê?"
Toda pergunta do tipo "essa ação está cara?" esconde outra: comparada com o quê? No Brasil, a resposta de fundo é sempre a mesma: comparada com o que o dinheiro rende sem risco, a Selic e os títulos do Tesouro.
Quando o Tesouro paga muito, uma ação precisa oferecer muito para valer a troca. O mercado passa a exigir mais rendimento do lucro (o earnings yield da aula 5), e, para o rendimento subir sem o lucro mudar, o preço tem de cair. Quando o Tesouro paga pouco, o contrário.
O juro está dentro de todo P/L. Um múltiplo pode subir ou cair sem que nada mude na empresa, só porque mudou o preço do dinheiro.
A conta de trazer o futuro para hoje
Comprar uma ação é comprar lucros futuros. E um real daqui a dez anos vale menos que um real hoje, porque o real de hoje pode ser aplicado. Quanto maior o juro, menos vale o real do futuro.
Existe uma conta de livro-texto que mostra isso de forma limpa. Para um lucro que cresce a um ritmo constante para sempre, o P/L "justo" é:
P/L justo = 1 ÷ (retorno exigido − crescimento do lucro)
O retorno exigido é o juro sem risco mais um prêmio pelo risco de ser sócio de uma empresa. A conta é simplificada demais para achar o preço certo de uma ação, mas é perfeita para ver a sensibilidade:

Números ilustrativos. As duas empresas têm o mesmo lucro hoje; só muda quanto ele cresce.
Numa empresa madura, com lucro crescendo 2% ao ano, subir o retorno exigido de 10% para 15% leva o P/L justo de 12,5 para 7,7: −38%. Numa empresa que cresce 8% ao ano, o mesmo aumento leva o P/L de 50 para 14,3: −71%.
A diferença vem de onde está o valor. Na empresa que cresce, a maior parte dos lucros que justificam o preço está longe no futuro, e é exatamente o lucro distante que o juro mais encolhe. Quanto mais o preço depende de lucro futuro, mais o juro pesa.
A WEGE3 contra a Selic
A teoria aparece nos dados. Veja o P/L de 12 meses da WEGE3 e a Selic, trimestre a trimestre:

Linha verde: P/L da WEGE3 (eixo da esquerda). Linha amarela tracejada: Selic meta (eixo da direita).
No fim de 2020, com a Selic na mínima histórica de 2%, a WEGE3 chegou a P/L 67. Um ano e meio depois, no meio de 2022, com a Selic em 13,25%, estava em 31. No mesmo intervalo, o lucro de 12 meses da empresa cresceu de R$ 2,4 bilhões para R$ 3,6 bilhões, +50%. O preço, ajustado por dividendos, caiu 30%. A empresa melhorou; o múltiplo desabou. O juro ajuda a explicar a diferença.
Em 23/09/2026, a Selic estava em 13,75%, definida pelo Banco Central em 17 de setembro, e o P/L da WEGE3 em 34,3.
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