Quando valuation para de funcionar
Em três situações o preço se solta dos fundamentos por meses ou anos — euforia, pânico e mudança real no negócio. Reconhecer em qual você está evita duas perdas opostas.

A ideia: o longo prazo pode demorar muito
Tudo o que esta trilha ensinou até aqui parte de uma premissa silenciosa: no longo prazo, o preço de uma ação acompanha o que a empresa lucra. Empresa boa acaba reconhecida; múltiplo absurdo acaba corrigido.
Benjamin Graham resumiu a ideia numa imagem famosa: no curto prazo, o mercado funciona como uma votação, em que conta a popularidade; no longo prazo, como uma balança, em que conta o peso. O problema é que ninguém diz quanto dura o curto prazo. Podem ser seis meses, seis anos ou, para algumas empresas, para sempre.
O valuation não para de valer. O que acontece é que, em certas janelas, outras forças ficam maiores que ele. Saber reconhecer essas janelas é metade do trabalho.
Primeiro cenário: a euforia
Na euforia, o preço sobe por causa de uma história sobre o futuro, e qualquer múltiplo parece justificável.

Em cima, o preço em escala logarítmica (cada faixa multiplica o preço por cerca de três). Embaixo, o P/L aproximado; × marca os trimestres com prejuízo em 12 meses.
Em 2020, a pandemia fechou lojas e empurrou as compras para a internet, e a MGLU3 virou símbolo dessa mudança. A receita de 12 meses cresceu de R$ 19,9 bilhões no fim de 2019 para R$ 29,2 bilhões no fim de 2020. Mas o lucro de 12 meses caiu, de R$ 0,9 bilhão para R$ 0,3 bilhão no terceiro trimestre. O preço, enquanto isso, mais que dobrou. O P/L aproximado passou de 400.
Qualquer aluno desta trilha diria que aquilo não fazia sentido pelo P/L. E estaria certo, mas por muito tempo parecia errado: o preço seguiu subindo até o fim de 2020. Depois, a história perdeu força, o juro subiu (aula 10) e a empresa passou dois anos no prejuízo. Do fim de 2020 a junho de 2026, o preço ajustado caiu 98%.
Sinais típicos de euforia: múltiplos muito acima da faixa histórica do setor, argumentos do tipo "o múltiplo não importa, importa o crescimento", métricas ajustadas substituindo o lucro na comunicação e muito dinheiro novo entrando no papel.
Segundo cenário: o pânico
No pânico, o preço cai por medo, e quem vende não está escolhendo empresa: está reduzindo risco de qualquer jeito. Boas e ruins caem juntas.
Entre 23 de janeiro e 23 de março de 2020, o Ibovespa caiu 46,8%, de 119.528 para 63.570 pontos. No fim do ano estava em 119.306. Quem olhasse os múltiplos em março veria descontos enormes, e muitos eram reais. Mas quem comprasse em fevereiro, achando que o preço já tinha caído o bastante, ainda veria mais uma queda grande antes da virada.
Sinais típicos de pânico: tudo caindo junto, inclusive empresas sem relação com a causa da crise; rendimentos do lucro e dos dividendos muito acima do normal sem cortes à vista; manchetes dominando as decisões.
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