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FIIs com dados: o que 10 anos de B3 mostram · Aula 2 de 8

DY alto é armadilha

A carteira dos 10 FIIs de maior dividend yield prometia 13,7% ao ano na tela e entregou 5,6% depois do imposto, abaixo do CDI. Doze meses depois da compra, os escolhidos cortaram o rendimento três vezes mais que o resto do mercado.

por Vinícius Rosa7 min de leituraatualizada em
DY alto é armadilha

A tela que seduz

Abra qualquer ranking de FIIs e ordene pelo dividend yield. No topo aparecem fundos pagando 14%, 16%, 20% ao ano, isentos de imposto. O CDI rende menos que isso. A conclusão parece óbvia: compre os que mais pagam.

É a regra mais popular do mercado de FIIs. Também é, nos nossos testes, uma das piores.

O que o DY mede, e o que ele esconde

Dividend yield (DY) é a soma dos rendimentos pagos nos últimos 12 meses dividida pelo preço de hoje. Se um fundo pagou R$ 12 por cota no último ano e a cota custa R$ 100, o DY é 12%.

Repare nas duas pontas da conta. O numerador olha para trás: é o que o fundo já pagou, não o que vai pagar. O denominador é o preço de hoje. Se a cota cai de R$ 100 para R$ 60 e o fundo ainda não cortou o rendimento, o DY pula de 12% para 20%. Sem o fundo pagar um centavo a mais.

Por isso o topo do ranking mistura dois tipos de fundo. O que paga muito de verdade e o que está caindo porque o mercado desconfia dele. Na tela, os dois parecem iguais.

O que testamos

Fizemos um backtest (simular como uma regra teria se saído no passado, com os dados de cada época). Todo mês, de janeiro de 2017 a setembro de 2026, compramos os 10 FIIs líquidos de maior DY, com pesos iguais (a mesma quantia em cada um). Líquidos são os que negociam bastante dinheiro por dia. Contamos o retorno total, com rendimentos reinvestidos, custo de 0,1% por ordem e imposto de 20% sobre o ganho na venda.

Repetimos com 20 fundos e com revisão a cada trimestre e a cada semestre. E também exigindo que o fundo estivesse em alta na sua régua mensal (a linha que acompanha o preço pela média dos últimos 5 meses).

Depois fizemos uma conta que os rankings não fazem: para cada fundo que a regra comprou, o que aconteceu nos 12 meses seguintes?

O resultado

Os 10 maiores DY: a promessa e a entrega

Olhe a diferença entre a promessa e a entrega: a tela prometia 13,7% ao ano, a carteira entregou 5,6% depois do imposto. São 2,6 pontos abaixo do CDI líquido.

  • DY médio da carteira: 13,7%. Era o que a tela mostrava.
  • Retorno total: 6,2% ao ano, ou 5,6% depois do IR. O CDI líquido (depois do imposto de renda de 15%) fez 8,2%.
  • Pior queda: 25%.
  • Com 20 fundos: 6,9% antes e 6,4% depois do IR. Melhor, mas ainda abaixo do CDI líquido.
  • Revisando a cada trimestre ou semestre foi pior: 3,1% a 3,6% depois do IR com 10 fundos.
  • Com a régua do próprio fundo, 5,2% e 5,6%. Filtrar tendência não salvou.

Onde foram parar os 13,7%? No preço. A cota caiu mais do que o rendimento pagou.

A regra que funcionou até parar de funcionar

De 2017 a 2021, a carteira dos maiores DY rendeu 12,3% ao ano depois do imposto, bem acima do CDI. Quem testou nesse período saiu convencido. De 2022 a setembro de 2026, a mesma regra rendeu −1,1% ao ano. Não é um período ruim no meio de um bom. Na prática, é outra regra: o topo do ranking passou a ser ocupado por fundos em crise.

O que quase ninguém sabe. Seguimos as 1.022 posições que a regra comprou de 2017 a 2025 e medimos o que veio depois. Nos 12 meses seguintes, 15,7% dos escolhidos pelo DY cortaram o rendimento em 30% ou mais. Entre os demais FIIs líquidos, foram 5,3%: três vezes menos. E 10,1% perderam mais de 20% já contando os rendimentos, contra 4,9%. O DY alto não prevê renda alta; prevê problema.

O que acontece 12 meses depois

Compare os escolhidos pelo DY com os demais fundos: quem entra no topo do ranking tem três vezes mais chance de ver o rendimento encolher logo depois.

A história de um fundo

O fundo que a regra mais comprou foi o HCTR11, um FII de papel (que investe em CRIs, títulos de dívida imobiliária). Ele esteve entre os 10 maiores DY em 60 dos 117 meses do teste. Os dois seguintes da lista, HABT11 e URPR11, também são fundos de papel.

HCTR11: o DY nunca avisou

Olhe a faixa sombreada, que marca os meses em que o HCTR11 estava entre os 10 maiores DY. O DY ficou alto do começo ao fim; a cota não.

Em janeiro de 2022, a cota do HCTR11 valia R$ 125,70 e o DY de 12 meses era 16,9%. Em setembro de 2026, a cota valia R$ 12,89 e o DY era 25,6%. Nesse intervalo, quem ficou com o fundo perdeu 79%. E isso mesmo recebendo e reinvestindo todos os rendimentos.

Em nenhum momento o DY acendeu um alerta. Pelo contrário: quanto mais o fundo caía, mais atraente ele parecia no ranking. É a armadilha em estado puro. Exemplo histórico, não recomendação.

Por que o DY alto engana tanto em FII

O rendimento é o último a cair. Quando os créditos ou os imóveis de um fundo começam a dar problema, o mercado vende a cota antes de o fundo cortar a distribuição. Durante meses, o DY sobe justamente porque o preço está caindo.

O prêmio pode ser risco. Um FII de papel que paga muito mais que os outros costuma ter comprado créditos mais arriscados. O rendimento extra é o pagamento por esse risco. E às vezes o risco acontece.

O DY mistura passado e presente. Um rendimento extraordinário (venda de imóvel, multa recebida) entra inteiro na conta dos 12 meses e não se repete.

Onde o teste pode enganar

O mercado mudou de tamanho. Em 2017 havia poucos FIIs líquidos. A carteira dos maiores DY quase coincidia com o mercado inteiro.

Uma parte dos cortes é normal. Fundos de papel atrelados à inflação (ao IPCA, o índice oficial de preços) pagam mais quando o IPCA sobe e menos quando ele cai. Nem todo corte é crise.

Resultado passado não garante futuro. Pode haver anos em que os maiores DY vão bem, como em 2017–2021.

A versão prática

  1. Nunca compre pelo DY sozinho. Ele é o resultado de uma conta com o preço, não uma qualidade do fundo.
  2. Desconfie do topo do ranking. DY muito acima dos pares do mesmo segmento costuma ser preço caindo.
  3. Olhe o gráfico da cota junto com o DY. DY subindo com a cota caindo é o padrão do HCTR11.
  4. Compare com o CDI líquido, em retorno total. Um DY de 14% com a cota caindo 10% ao ano rende menos que o Tesouro Selic.

No Quantor

Nos Rankings, universo FIIs, Maiores dividend yield traz os fundos que mais pagaram, com o filtro de liquidez ligado. A nota do ranking já avisa: DY muito alto costuma ser preço que caiu ou rendimento que não se repete, e a lista tira os yields acima de 25%, que quase sempre são erro ou evento único. Confira o P/VP (preço dividido pelo patrimônio por cota) e a régua ao lado. Na tela Analisar papel do fundo, o bloco Dividendos mostra o histórico mês a mês. O gráfico mensal mostra se a cota vem caindo.

Teste você mesmo

Abra Maiores dividend yield nos FIIs e escolha os três primeiros da lista. Para cada um, veja na tela Analisar papel onde estava a cota um ano atrás. Se ela caiu mais de 15%, o DY alto é, em boa parte, o preço caindo.

O que fica

  • O DY é uma conta com o preço: ele sobe quando o fundo cai.
  • Os 10 maiores DY prometiam 13,7% e entregaram 5,6% depois do imposto.
  • Quem entra no topo do ranking corta o rendimento três vezes mais que o resto.

Pergunta para a sua carteira: o FII que mais paga na sua carteira paga muito porque é bom ou porque caiu?

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.