Ignorar a ruína: −50% exige +100%
A vantagem do seu método só serve se você ainda estiver na mesa quando ela aparecer. Em 2020, o Ibovespa caiu 46,8% e voltou ao topo em menos de um ano; quem estava alavancado em duas vezes chegou a −75% e, um ano depois, ainda devia 24%.

A ideia: a melhor análise do mundo não serve para quem saiu do jogo
Perder 50% não é o contrário de ganhar 50%. Para voltar de −50%, você precisa de +100%. De −75%, precisa de +300%. De −90%, de +900%. A conta é conhecida (a trilha Mente de ferro mostra a tabela), e quase ninguém a usa na hora de decidir o tamanho de uma posição.
Larry Hite, que gerenciou fundos sistemáticos por décadas, resume em uma ideia que virou frase de parede, aqui em paráfrase: se você não aposta, não pode ganhar; se perde todas as fichas, não pode mais apostar.
A qualidade da escolha importa menos do que a capacidade de continuar escolhendo. Toda vantagem é uma média de longo prazo. Ela só chega ao seu extrato se você estiver vivo por tempo suficiente.
A curva da ruína, com casos da B3
A recuperação necessária não cresce em linha reta. Até uns 20% de queda, parece linear e o cérebro aceita. Depois de 33%, ela dispara, e o cérebro continua achando que "um bom ano resolve".

Cada ponto é uma queda real, medida em fechamentos. A escala vertical é log: cada linha é um degrau muito maior que o anterior.
O Ibovespa em 2020 caiu 46,8% e precisava de +88% para voltar. Voltou, em menos de um ano. Os papéis individuais da figura foram mais fundo: HAPV3 caiu 84,7% entre janeiro de 2021 e março de 2023 (precisaria de +555%); IRBR3, 95,4% desde janeiro de 2020 (precisaria de +2.093%); MGLU3, 94,7% entre janeiro de 2021 e outubro de 2023 (+1.800%). Nesses níveis, "esperar voltar" deixa de ser estratégia e vira esperança.
O caso: o mesmo tombo, com e sem dinheiro emprestado
A queda de 2020 é o melhor laboratório, porque o índice voltou. O que muda é quem estava lá para ver. Simulamos R$ 100 aplicados no topo de 23 de janeiro de 2020, com o Ibovespa diário:

Branco: o índice sem dívida. Amarelo: duas vezes o índice, com a alavancagem refeita todo dia. Sem contar os juros do empréstimo, que só piorariam o resultado alavancado.
- Sem dívida: no fundo de 23 de março, −46,8%. Em 6 de janeiro de 2021, o índice já estava de volta ao topo. Em março de 2021, −2,4%.
- Duas vezes, refeito todo dia (como funciona um fundo alavancado): no fundo, −75,4%. Para voltar, precisava de +306%. Em março de 2021, com o índice praticamente no zero a zero, ainda estava −24,1%.
- Duas vezes, com um empréstimo fixo do tamanho do capital (o jeito mais comum de "operar com margem"): no fundo, de cada R$ 100 sobravam R$ 6,37. Nenhuma corretora espera isso: a chamada de margem liquida a posição muito antes, no preço do dia. A ruína acontece no fundo, não na recuperação.
O índice voltou. Quem estava alavancado, não. Volatilidade é o preço oscilando. Risco é o preço oscilando até um ponto em que você deixa de existir como participante.
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