Dobrar depois de perder: a revanche que o mercado sempre ganha
Depois de uma perda, o instinto manda aumentar a aposta para recuperar rápido. Numa sequência real de nove perdas pequenas da régua no BOVA11, quem dobrou zerou a conta; quem manteve o tamanho terminou no lucro.

A ideia: a perda pede revanche, e a revanche é o erro
Você perdeu numa operação. Depois perdeu de novo. A conta está no vermelho, e uma ideia começa a parecer muito lógica: "se eu colocar o dobro na próxima, um acerto recupera tudo."
É a ideia mais antiga dos cassinos (tem até nome, martingale) e uma das mais caras da bolsa. Ela parece racional porque a conta de um único acerto fecha. O que ela esquece é que ninguém sabe quando o acerto vem, e a sequência de erros pode ser mais longa do que o seu dinheiro.
Depois de uma perda, os profissionais operam menor, não maior. A perda é informação sobre a sua execução, não só sobre o mercado.
O que os magos fazem
Paul Tudor Jones conta a Schwager que, depois de um período ruim, reduz o tamanho das posições até sentir que voltou ao ritmo. Marty Schwartz faz o mesmo, e também depois de um ganho grande, porque euforia e raiva estragam o julgamento pelo mesmo caminho. Tudor Jones mantinha na mesa uma placa cuja mensagem era, em essência, que quem perde é quem faz preço médio em posição perdedora.
Bruce Kovner dá a origem do erro: o ponto de saída deve seguir a lógica do mercado, não a da conta bancária. Quando a pressa de recuperar manda, o tamanho vira função da ansiedade.
O caso: a mesma sequência, três reações
Para ver o efeito isolado, pegamos uma sequência real e mudamos só o tamanho. As operações são as da régua mensal do Quantor no BOVA11 (o ETF do Ibovespa): compra quando o mês fecha acima da média exponencial de 5 meses, vende quando fecha abaixo. A partir de julho de 2010, vieram nove perdas seguidas, todas pequenas, entre −2% e −6%. Depois, ganhos.
Três investidores com R$ 100 mil seguiram exatamente essas operações:
- Fixo: R$ 50 mil em toda operação, ganhe ou perca.
- Encolher (o jeito de Tudor Jones): R$ 50 mil normalmente, R$ 25 mil depois de uma perda, volta a R$ 50 mil depois de um ganho.
- Dobrar: começa com R$ 25 mil e dobra a posição depois de cada perda.

Cada marca embaixo é uma operação real. Na tabela, a posição de quem dobrava: em vermelho, as que já eram maiores que o patrimônio.
Os números:
| Pior momento | Fevereiro de 2020 | |
|---|---|---|
| Fixo (R$ 50 mil) | R$ 83,5 mil | R$ 118,0 mil |
| Encolher depois de perder | R$ 90,6 mil | R$ 111,2 mil |
| Dobrar depois de perder | zerado em fev/2013 | zerado |
Repare que as perdas eram pequenas. O que matou foi a progressão: R$ 25 mil, 50, 100, 200, 400, 800 mil. Já na terceira operação a posição era maior que o patrimônio, ou seja, só existia com dinheiro emprestado (margem, mini-índice). Na sétima, uma queda de 3,6% sobre R$ 1,6 milhão levou quase tudo que sobrava. Na oitava, a conta zerou. Os ganhos que vieram depois (+7%, +25%, +16% e +31%) pagaram quem ainda estava vivo.
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