O ponto de partida: R$ 10 mil, R$ 1 mil por mês e uma regra escrita em 31/12/2009
O projeto final começa num dia de dezembro de 2009, com o Ibovespa em 68.588 pontos e a Selic em 8,75%. Tudo o que vem depois é seguir uma folha escrita naquele dia, sem saber nada do futuro. A folha cabe numa página e decidiu 699 operações em 16 anos.

Em 1 minuto
- O projeto final simula uma carteira real: R$ 10 mil em 31/12/2009 e R$ 1 mil por mês até setembro de 2026, com custos e imposto.
- Toda decisão vem de uma folha escrita em dezembro de 2009, com o que se sabia naquele mês: pesos de exemplo, aporte, banda e a régua EMA-5.
- Seguida à risca, a folha terminou com R$ 614.622 líquidos, contra R$ 479.574 do Tesouro Selic e R$ 475.226 do BOVA11, com pior queda de 7,0%.
Ao fim desta aula você vai saber
- Escrever a sua própria folha de regras em uma página
- Dividir o primeiro aporte e os seguintes pela regra, sem opinião do dia
- Saber exatamente o que o projeto conta e o que ele não conta
A tese: a carteira se decide num dia só
Quase todo mundo acha que investir bem é tomar boas decisões o tempo todo: comprar na hora certa, sair antes da queda, trocar o que está ruim pelo que está subindo. O projeto final deste curso mostra o contrário. A carteira que você vai acompanhar por 16 anos tomou uma decisão importante só uma vez, em 31/12/2009, quando alguém escreveu numa folha o que faria em cada situação. Depois disso, ninguém mais pensou. Só seguiu.
Esse é o ponto do módulo. Não vamos escolher, olhando para trás, o que teria dado certo. Vamos fazer o que uma pessoa comum poderia ter feito naquele dezembro: olhar para os dados daquele mês, escrever regras simples e aplicá-las mês a mês, com o custo de cada ordem e o imposto de cada venda descontados. As cinco aulas seguintes abrem cada peça: a renda fixa, as ações, os FIIs e o exterior, as crises no caminho e, por fim, a revisão honesta do que foi método e do que foi sorte.
O que se sabia em dezembro de 2009
O investidor do projeto não sabe nada do futuro. Ele sabe o que estava nos jornais e nas telas no último dia útil de 2009:
| O dado | Em dezembro de 2009 |
|---|---|
| Ibovespa | 68.588 pontos em 30/12/2009 |
| Selic meta | 8,75% ao ano |
| Dólar (PTAX de venda) | R$ 1,7412 em 31/12/2009 |
| Ação mais negociada da bolsa | PETR4, com R$ 570 milhões por dia em média no mês |
| Terceira mais negociada | OGXP3, com R$ 297 milhões por dia |
Ninguém sabia que a bolsa passaria seis anos de lado, que o dólar quase triplicaria, que a terceira ação mais negociada do país viraria pó, nem que viria uma pandemia. A folha foi escrita sem nada disso. É por isso que ela serve de teste.
O mecanismo: três forças que a folha controla
1. O peso decide o risco antes de qualquer escolha de ativo. O módulo 1 mostrou que a pior queda da carteira depende mais de quanto está em cada classe do que de qual ação foi escolhida. A folha começa pelos pesos, não pelos papéis.
2. O aporte faz o rebalanceamento quase de graça. Quem põe dinheiro novo todo mês pode corrigir o peso comprando o que ficou para trás, sem vender o que subiu. Vender custa ordem e imposto; comprar com dinheiro novo custa só a ordem.
3. A regra escrita tira a decisão do dia ruim. O módulo 3 mostrou que a vontade de vender aparece no pior mês. Uma folha escrita no dia calmo responde à pergunta "e agora?" antes de ela aparecer.
A folha de regras do projeto
Estas são as regras, exatamente como o código da simulação as aplica. Os pesos são um exemplo didático, não uma recomendação: a aula 6 mostra o que muda com outros.
| Regra | O que diz |
|---|---|
| Dinheiro | R$ 10 mil em 31/12/2009; R$ 1 mil no último dia de cada mês, de janeiro de 2010 a setembro de 2026 |
| Pesos-alvo (exemplo) | 30% Tesouro Selic, 10% IPCA+ longo, 30% ações, 15% FII, 15% exterior |
| Sem FII em 2010 | o IFIX só começa em 30/12/2010; até lá, a fatia de FII espera no Tesouro Selic |
| Aporte | o R$ 1 mil do mês vai inteiro para a classe mais abaixo do alvo, em reais |
| Venda para rebalancear | só quando alguma classe se afasta mais de 5 pontos do alvo; aí todas voltam ao alvo |
| Ações | as 10 empresas mais negociadas em dez/2009, cada uma com 1/10 da parte de ações |
| A régua | no fim de cada mês, papel acima da sua média exponencial de 5 meses fica na ação; abaixo, o dinheiro dele vai para o Tesouro Selic até voltar |
| Teto por papel | nenhum papel acima de 15% da parte de ações; se passar, volta a 10% |
| Papel que sai da bolsa | troca de ações segue no papel novo; OPA em dinheiro vai para os outros papéis |
A régua é a mesma EMA-5 mensal pública da aula de trava do módulo 3, aplicada a cada papel, não ao índice. Não há nenhuma fórmula escondida na seleção nem no momento de entrar.
A ideia: A folha não tenta acertar o que vai acontecer. Ela decide antes o que fazer em cada caso, para que o pior mês não precise de opinião.
O que a simulação desconta: custos e imposto
Uma simulação sem atrito engana. Esta desconta tudo o que uma pessoa física pagaria, com as regras públicas de cada produto:
- Ordem em bolsa: 0,10% de cada compra ou venda de ações, FIIs e ETFs (emolumentos e diferença de preço; corretagem zero). A aula 6 refaz o caso com 0,5%.
- Tesouro Selic: o CDI do dia (série 12 do Banco Central) menos a custódia da B3, de 0,30% ao ano até 2021 e 0,20% desde 2022, sem a isenção de R$ 10 mil (conservador). O rendimento do Tesouro Selic fica muito perto do CDI; aqui usamos o CDI como aproximação.
- IPCA+ e exterior: o IMA-B e o S&P 500 com dividendos, em reais, cada um menos a taxa do ETF que os replica hoje (0,25% e 0,23% ao ano), e 30% dos dividendos americanos retidos lá fora.
- Imposto: ações, 15% do ganho no mês em que as vendas passam de R$ 20 mil, com o prejuízo acumulado compensando; FII, 20% do ganho; ETF de exterior e de IPCA+, 15%; Tesouro Selic pela tabela regressiva, lote por lote, de 22,5% a 15%.
- O fim: o valor "líquido" é o que sobraria vendendo tudo em 30/09/2026 e pagando o imposto.
A primeira decisão: o que fazer com os R$ 10 mil
Em 31/12/2009, a folha divide o dinheiro sem olhar para nada além dos pesos. Como não existe IFIX ainda, os 15% de FII somam-se aos 30% de Tesouro Selic:
| Classe | Peso em 2010 | Em reais |
|---|---|---|
| Tesouro Selic (com a fatia de FII esperando) | 45% | R$ 4.500 |
| IPCA+ longo | 10% | R$ 1.000 |
| Ações (10 papéis) | 30% | R$ 3.000, R$ 300 em cada |
| Exterior | 15% | R$ 1.500 |
Um detalhe já aparece aqui: a régua de dezembro de 2009 estava abaixo para a CIEL3, que tinha estreado em junho. Os R$ 300 dela começam no Tesouro Selic e só vão para a ação quando o preço fechar acima da média.
Os dez papéis saíram do ranking de liquidez da base própria do Quantor para dezembro de 2009, uma classe de ação por empresa: PETR3 e VALE3 ficaram de fora por serem a mesma empresa que PETR4 e VALE5, e entraram as seguintes da lista. O que aconteceu com cada um depois é assunto da aula 3, mas a figura já mostra a lição: entre as dez mais negociadas do país, houve +788% e houve −99,99%.

Retorno total com proventos de 30/12/2009 até setembro de 2026, ou até a saída da bolsa. A OGXP3 seguiu na Dommo (DMMO3) depois de 2019; a barra mostra o caminho inteiro.
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