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Projeto final: dez/2009 a set/2026 · Aula 6 de 6

A revisão honesta: o que faríamos diferente, e o viés de olhar para trás

O S&P 500 em reais transformou o aporte do projeto em R$ 1,49 milhão, contra R$ 614 mil da carteira. Mas isso só se escolhe sabendo que o dólar iria de R$ 1,74 para R$ 5,18. A revisão separa o que foi método do que foi sorte, testa os pesos e fecha o curso.

por Vinícius Rosa13 min de leituraatualizada em trecho aberto
A revisão honesta: o que faríamos diferente, e o viés de olhar para trás

Em 1 minuto

  • Olhando para trás, o melhor teria sido 100% S&P 500 em reais: R$ 1,49 milhão. Mas em 2009 ninguém sabia que o dólar quase triplicaria.
  • Variando os pesos, o resultado do projeto muda bastante (de R$ 520 mil a R$ 713 mil) e a pior queda quase nada (de 7,0% a 7,9%). O que a folha controla é o risco.
  • Parte do resultado foi sorte: a cesta de 2009 teve PETR4, ITUB4 e B3. Com o BOVA11 no lugar, o final seria R$ 533 mil.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Separar o que foi método do que foi sorte num resultado passado
  • Testar a sua folha com outros pesos, outra banda e outro custo
  • Revisar a própria carteira com um checklist de uma página

A tese: o melhor resultado do passado é a pior régua para o futuro

Toda revisão de carteira começa com a mesma tentação. Você olha os 16 anos, vê qual peça rendeu mais e pensa: "devia ter posto tudo ali". É o viés de olhar para trás, o nome que a psicologia dá à sensação de que o resultado era óbvio depois que ele aconteceu. Ele faz o passado parecer previsível e convence a pessoa de que, da próxima vez, ela vai saber.

A revisão honesta faz o contrário. Pergunta o que a pessoa poderia saber no dia em que escreveu a folha, separa o que veio do método do que veio da sorte e muda só o que teria sido possível mudar naquele dia. É a última aula do projeto e do curso.

O mecanismo: três forças que enganam a revisão

1. O vencedor só existe depois. Em 2009, o exterior era uma de cinco peças. Ele virou o vencedor por causa de um câmbio que ninguém previu.

2. Um caso é uma amostra de um. A cesta de 2009 teve PETR4, ITUB4 e B3 entre os grandes acertos. Outra data teria outra cesta.

3. O risco não aparece no resultado final. O número do fim mostra quanto sobrou, não quanto doeu no caminho. Duas carteiras com o mesmo final podem ter quedas muito diferentes.

O dólar que ninguém sabia

Antes de continuar: Em 31/12/2009, a PTAX de venda estava em R$ 1,7412. Em 30/09/2026, fim do projeto, onde ela estava?

a) Perto de R$ 2,50 · b) Perto de R$ 3,50 · c) Perto de R$ 5,20 · d) Perto de R$ 1,70: o real se recuperou

Resposta: Perto de R$ 5,20. R$ 5,1809: o dólar multiplicou por 2,975, alta de 6,7% ao ano. Somado aos 14,3% ao ano do S&P 500 em dólar, deu 22,0% ao ano em reais, antes de imposto e taxas.

Esse é o número que distorce a revisão inteira. Rodando o mesmo aporte em 100% S&P 500 em reais, com a taxa do ETF, os 30% retidos nos dividendos e o imposto de vender tudo no fim, o resultado é de R$ 1.485.325, mais que o dobro da carteira do projeto.

Carteira, com custos e imposto Líquido em 30/09/2026 Pior queda
100% S&P 500 em reais R$ 1.485.325 −26,6%
A carteira do projeto R$ 614.622 −7,0%
100% Tesouro Selic R$ 479.574 0%
100% BOVA11 R$ 475.226 −44,2%

Alguém em dezembro de 2009 teria escolhido os 100% lá fora? Para isso, teria de saber três coisas: que o real perderia dois terços do valor, que a bolsa americana renderia 14% ao ano por 16 anos e que aguentaria ver o patrimônio cair 26,6% em 2022, num ano em que o Brasil ia bem. Quem acerta as três não precisa de carteira. E o câmbio continua imprevisível: em 26/10/2026, já fora do projeto, a PTAX saltou de R$ 5,0377 para R$ 5,5007 de um pregão para o outro, 9,2% num dia.

Cuidado: Escolher hoje a peça que mais rendeu nos últimos 16 anos é escolher com o jornal de amanhã de ontem. Ninguém tem o de amanhã de verdade.

Sorte ou método: a tabela da revisão

O que aconteceu Sorte ou método? Por quê
O exterior rendeu 22% ao ano em reais sorte dependia do câmbio, que ninguém sabia
A banda vendeu o exterior caro três vezes método a regra de 5 pontos vende o que disparou, sem prever
A cesta ganhou do BOVA11 em parte sorte PETR4 (+594%), ITUB4 (+554%) e B3 (+788%) estavam na lista
A OGX custou pouco método tamanho de 3% e a régua
A posição da OGX terminou no lucro, com a Dommo sorte a compra pela PRIO não estava em plano nenhum
As crises foram longas, boas para a régua em parte sorte numa sequência de quedas de um mês, a régua ajudaria menos
A pior queda ficou em 7,0% método pesos, régua e aporte, em qualquer das variações abaixo

A segunda linha da cesta pede um teste. Trocando a cesta de dez papéis pelo BOVA11 com a mesma régua (a trava do índice do módulo 3), a carteira termina com R$ 533.024 líquidos e pior queda de 6,1%. Com o BOVA11 sem régua, R$ 571.227 e −15,0%. Parte da diferença para os R$ 614.622 veio de ter, por acaso, três das maiores altas da bolsa na lista de 2009.

O teste de sensibilidade: mexer nos pesos

A revisão honesta não troca a folha pela que teria dado mais. Ela muda uma regra de cada vez e vê o que acontece com o resultado e com a queda.

Variação, todas com custos e imposto Líquido em 30/09/2026 Pior queda
A folha do projeto R$ 614.622 −7,0%
Exterior 0% (os 15% no Tesouro Selic) R$ 519.793 −7,6%
Exterior 30% (o Tesouro Selic cai para 15%) R$ 712.841 −7,9%
Banda de 10 pontos em vez de 5 R$ 607.480 −8,2%
Rebalanceamento todo dezembro, sem banda R$ 608.323 −7,4%
Sem a régua nas ações R$ 676.393 −15,8%
Custo de 0,5% por ordem em vez de 0,1% R$ 589.420 −6,9%
Sem custo, sem taxa e sem imposto R$ 736.469 −6,8%

O que sobrou no fim contra a pior queda no caminho, em cada variação

Cada ponto é a mesma pessoa, com os mesmos aportes e as mesmas regras de custo e imposto, mudando uma regra. O 100% S&P 500 em reais está fora da escala.

O desenho conta a lição. Os pontos da folha e das variações de peso e banda ficam todos à esquerda, com quedas entre 7,0% e 8,2%, e se espalham na vertical. O exterior mexeu muito no resultado e quase nada no risco. Só duas mudanças empurraram a queda para o dobro: tirar a régua e trocar a cesta pelo BOVA11 sem régua.

A banda de 5 ou de 10 pontos e o rebalanceamento anual deram quase o mesmo. Com 0,5% por ordem, os custos de bolsa foram de R$ 4.890 para R$ 23.431. E entre o caso sem atrito e o real, ficaram R$ 121.847 em custos, taxas e imposto.

O que faríamos diferente

Só vale mudar o que alguém poderia ter decidido em 2009, sem saber o futuro.

1. Uma regra para não repor um papel em queda livre. A regra de pesos iguais pôs aportes na OGX enquanto ela caía. Sem a régua, isso custou R$ 5.917 até 2013. Uma frase na folha ("papel fora da régua não recebe aporte") teria resolvido sem prever nada.

2. Menos idas e voltas na régua. Os dez papéis trocaram de lado 462 vezes, e o dinheiro que entrava e saía do Tesouro Selic em menos de seis meses pagou 22,5% de imposto. A régua no conjunto (BOVA11 com trava) fez 56 trocas, com queda parecida, mas sem o ganho da cesta. É uma troca entre giro e seleção, e as duas escolhas são defensáveis.

3. Não aumentar o exterior por causa do resultado. A tentação depois desta aula é subir o exterior para 30%. O resultado de 2009 a 2026 não é motivo: ele veio de um câmbio que pode andar para o outro lado. Se for para mudar o peso, que seja pela queda que você aguenta, como no módulo 1.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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