Quanto em cada classe: a mistura se escolhe pela queda, não pelo retorno
De 2011 a 2026, o CDI rendeu 9,9% ao ano sem cair, o Ibovespa 6,5% com tombo de 41% e o S&P 500 em reais 22,7% porque o dólar subiu. De 2000 a 2026, as misturas mais agressivas não renderam nada a mais que as conservadoras e caíram dez vezes mais.

Em 1 minuto
- Cada classe traz um retorno, uma queda e um jeito de andar junto (ou não) com as outras; a mistura certa é a que tem a maior queda que você aguenta.
- De 2011 a 2026, ir da mistura mais conservadora à mais agressiva somou 1,8 ponto por ano de retorno e 19 pontos de pior queda.
- De 2000 a 2026, as misturas com mais bolsa não renderam mais nada: só caíram mais.
Ao fim desta aula você vai saber
- Ler retorno, oscilação e pior queda de cada classe
- Converter a pior queda de uma mistura em reais
- Escolher a sua mistura pelo limite em reais da aula de diagnóstico
A tese: a mistura é escolhida pela queda, não pelo retorno
"Quanto eu ponho em renda fixa, em ações, em fundo imobiliário e lá fora?" É a pergunta mais comum de quem arruma a carteira, e a mais cheia de receitas prontas: 60/40, um quarto em cada, 100 menos a idade. Todas começam pelo lugar errado. Elas escolhem a mistura pelo retorno esperado, que ninguém sabe, e ignoram a queda, que é o que faz as pessoas abandonarem a mistura no meio.
Antes de qualquer conta, um lembrete: este módulo cuida do dinheiro que já passou da reserva de emergência. A reserva vem antes, mora no pós-fixado com liquidez diária e está explicada no curso Renda Fixa com Dados. Tudo daqui para a frente supõe que ela existe.
O que esta aula faz é medir. As quatro classes, cada uma com o retorno, a oscilação e a pior queda que de fato tiveram. Depois, as misturas entre elas. A escolha continua sendo sua, mas passa a ser feita olhando para o número certo.
O mecanismo: três forças que fazem a mistura valer mais que as partes
1. Cada classe tem uma queda própria, e ela não é proporcional ao retorno. Uma classe pode render mais e cair menos que outra, num período, por motivos que nada têm a ver com risco: o câmbio, o juro, a década. O retorno é o que mais varia de um período para outro. A queda é o que mais se repete.
2. As classes não caem juntas na mesma intensidade. O que faz uma mistura cair menos que a média das partes é a correlação, a medida de −1 a +1 de quanto duas coisas sobem e caem no mesmo mês. Quando uma peça cai e a outra não, a mistura amortece. O módulo 2 mede isso em detalhe, nos meses comuns e nos meses de crise.
3. O rebalanceamento vende o que subiu e compra o que caiu. Refazer os pesos uma vez por ano obriga a carteira a tirar de quem foi bem e pôr em quem foi mal, sem opinião. É esse movimento que transforma peças que andam diferente num retorno melhor que o da média delas.
As quatro classes, medidas
O período em que existem dados das quatro vai de janeiro de 2011 a setembro de 2026, porque o IFIX, o índice dos fundos imobiliários da B3, começa em dezembro de 2010. CDI é o que rende a renda fixa pós-fixada. O Ibovespa é a bolsa brasileira, com os dividendos reinvestidos. O S&P 500 é a bolsa americana com dividendos, convertida em reais pelo dólar de cada dia. Fechamentos de fim de mês, sem imposto e sem custos.
| Classe, jan/2011 → set/2026 | Retorno ao ano | Oscilação ao ano | Pior queda |
|---|---|---|---|
| CDI | 9,9% | 1,0% | nenhuma |
| IFIX | 8,8% | 10,3% | −22,0% (mar/2020) |
| Ibovespa | 6,5% | 20,8% | −41,1% (fundo em jan/2016) |
| S&P 500 em reais | 22,7% | 16,5% | −26,2% (set/2022) |
Oscilação é o tamanho típico do sobe e desce em um ano. Pior queda é a maior distância do topo até o fundo nos fechamentos mensais.
Duas coisas saltam. Nesses 15 anos, a bolsa brasileira rendeu menos que o CDI e caiu muito mais. E o campeão, o S&P 500 em reais, teve duas fontes de retorno somadas: o índice subiu 14,2% ao ano em dólar e o dólar subiu 7,5% ao ano contra o real. Cerca de um terço do resultado foi câmbio.
Um detalhe que mostra como o retorno é frágil: até agosto de 2026, o Ibovespa rendia 6,2% ao ano nesse período. Em setembro ele subiu 5,0%, e a média de mais de quinze anos passou a 6,5%. Um único mês mexeu 0,3 ponto na média. A pior queda, ao contrário, não se mexeu.
A correlação mês a mês entre o Ibovespa e o IFIX foi de 0,54: costumam cair juntos, e os dois sofrem quando o juro brasileiro sobe. Entre o Ibovespa e o S&P 500 em reais, foi de −0,20. Dos 23 meses do período em que o Ibovespa caiu mais de 5%, o dólar subiu em 22.
As misturas, medidas
Agora, as misturas, com os pesos refeitos todo mês de dezembro. São exemplos para enxergar a troca, não recomendações. Os quatro números de cada linha são CDI, Ibovespa, IFIX e S&P 500 em reais.
| Mistura, jan/2011 → set/2026 | Retorno ao ano | Pior queda | Em R$ 500 mil |
|---|---|---|---|
| 100% CDI | 9,9% | nenhuma | R$ 0 |
| 80 / 10 / 5 / 5 | 10,5% | −4,0% | R$ 20 mil |
| 60 / 20 / 10 / 10 | 11,0% | −8,7% | R$ 44 mil |
| 40 / 30 / 15 / 15 | 11,4% | −13,4% | R$ 67 mil |
| 20 / 40 / 20 / 20 | 11,9% | −18,2% | R$ 91 mil |
| 0 / 50 / 25 / 25 | 12,3% | −23,0% | R$ 115 mil |
| 100% Ibovespa | 6,5% | −41,1% | R$ 205 mil |
Em todas as misturas, a pior queda aconteceu no mesmo mês: março de 2020. Repare na forma da troca. Da linha mais conservadora com bolsa (80/10/5/5) à mais agressiva (0/50/25/25), o retorno subiu 1,8 ponto por ano e a pior queda, 19 pontos. Em R$ 500 mil, é a diferença entre ver R$ 20 mil sumirem e ver R$ 115 mil sumirem em dois meses.
A ideia: O risco a mais pagou, mas pagou pouco perto do susto que trouxe.
E o peso de cada peça importa mais que o número delas. Duas misturas com os mesmos 40% de CDI e 30% de Ibovespa, trocando só os 30% restantes:
−21,7% 40% CDI e 60% Ibovespa, sem FII nem exterior (8,2% ao ano) · −17,3% 40/30 com os 30% restantes em IFIX (8,9% ao ano) · −10,8% 40/30 com os 30% restantes em S&P 500 em reais (13,7% ao ano)
Pôr 30% em fundos imobiliários tirou pouco da queda, porque eles caíram junto com a bolsa em 2020. Pôr os mesmos 30% em exterior cortou a queda pela metade. Parte desse resultado é o dólar do período, que não se repete por encomenda. A outra parte é estrutural: a peça de fora depende de outras coisas.
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