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O plano antes da carteira · Aula 2 de 4

"100 menos a idade": troque o aniversário pelo prazo e pela queda

Quanto você pode ter em bolsa não depende de quantos anos você tem, e sim de quantos anos faltam para usar o dinheiro e de quanta queda em reais você atravessa sem vender. Em 2008, a bolsa caiu 60%, o CDI subiu 5,5% e o IPCA+ caiu 5,4%.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
"100 menos a idade": troque o aniversário pelo prazo e pela queda

Em 1 minuto

  • A idade é só uma data: o que decide quanto cabe em bolsa é o prazo até usar o dinheiro e a queda em reais que você atravessa sem vender.
  • Em 10 anos, a bolsa nunca deu perda nominal desde 1995, mas perdeu do CDI em 65% das janelas; o prazo reduz o risco de perder, não garante ganhar.
  • A fatia máxima em bolsa é a perda que você tolera em reais dividida pela queda de uma crise real.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Dizer o que o prazo protege e o que ele não protege
  • Calcular a fatia máxima em bolsa pela queda tolerada
  • Escolher pelo menor dos dois limites, prazo e queda

A tese: a idade é só uma data

"Tenha em bolsa 100 menos a sua idade." Aos 30 anos, 70%; aos 65, 35%. É a regra mais repetida do planejamento financeiro, e ela não mede risco nenhum. Mede um aniversário.

Pense em duas pessoas de 50 anos. Uma tem renda estável, já tem a casa quitada e vai usar o dinheiro daqui a 15 anos. A outra se aposenta no mês que vem e vai viver do que juntou. A regra dá às duas os mesmos 50% em bolsa. A idade coincidiu; o problema, não.

O que decide quanto cabe em bolsa são duas coisas que a regra não pergunta: quantos anos faltam até usar o dinheiro e quanta queda, em reais, você atravessa sem vender. A aula anterior mediu as classes e as misturas. Esta dá as duas entradas para escolher entre elas.

O mecanismo: três forças que a idade não enxerga

1. O prazo dilui a oscilação, não a chance de perder do CDI. Quanto mais tempo o dinheiro fica, menor a chance de a bolsa terminar abaixo do ponto de partida. Mas render mais que a renda fixa é outra pergunta, e no Brasil o prazo longo não a resolveu.

2. A queda que importa é em reais, e ela depende do patrimônio inteiro. Perder 40% de R$ 20 mil e perder 40% de R$ 2 milhões são experiências diferentes, mesmo na mesma idade. A tolerância a queda é um valor em reais, não uma porcentagem decorada num questionário.

3. O resto da vida conta mais que o ano de nascimento. Renda estável, filhos, imóvel, data de aposentadoria: tudo isso muda o quanto um ano ruim na bolsa obriga você a vender. A idade só se correlaciona com essas coisas, e mal.

Primeira entrada: o prazo

Veja o que o Ibovespa fez em todas as janelas mensais desde janeiro de 1995, até setembro de 2026, com os dividendos reinvestidos:

Antes de continuar: Em todas as janelas de 10 anos do Ibovespa desde 1995, o índice nunca terminou com perda nominal. Em quantas delas rendeu menos que o CDI?

a) Quase nenhuma: 10 anos é prazo longo · b) Cerca de um terço · c) Cerca de dois terços

Resposta: Cerca de dois terços. 65% delas. O prazo longo tirou o risco de perder dinheiro, mas não o de perder do CDI. Em 15 anos, a bolsa perdeu do CDI em 86% das janelas.

Prazo Janelas com perda nominal Com perda depois da inflação Que perderam do CDI A pior janela
1 ano 34% 42% 49% −44,1% (a partir de set/1997)
2 anos 30% 41% 53% −45,9% (a partir de set/2000)
5 anos 13% 32% 58% −39,3% (a partir de jan/2011)
10 anos 0% 24% 65% +3,8% (a partir de mar/2010)
15 anos 0% 17% 86% +49,2% (a partir de mai/2008)

A tabela diz duas coisas, e as duas importam. A primeira: em um ou dois anos, a bolsa é quase cara ou coroa, com uma cauda feia. Quem tem data marcada para daqui a dois anos não pode carregar uma chance de 30% de perder dinheiro, e uma pior janela de −46%. Por isso a regra deste curso é dura: dinheiro com data nos próximos dois anos não vai para a bolsa.

A segunda: o prazo longo protege de perder dinheiro, não de perder do CDI. A pior janela de 10 anos começou em março de 2010 e terminou 3,8% acima do ponto de partida, depois de dez anos. Com o CDI daquele período, foi uma década perdida. O prazo é a condição para ter bolsa, não a razão.

O caso mais famoso dessa tabela é 2008. O Ibovespa chegou a 73.517 pontos em 20/05/2008 e caiu a 29.435 em 27/10/2008, 60% em cinco meses. Em dezembro de 2009 já estava em 68,6 mil, perto do topo, mas só superou o fechamento de maio de 2008 em 11/09/2017, mais de nove anos depois.

Segunda entrada: a queda tolerada, em reais

A forma honesta de responder quanto você aguenta é ver o que cada classe fez nas duas quedas grandes, do topo ao fundo do Ibovespa, e aplicar à sua carteira.

Do topo ao fundo do Ibovespa 20/05 → 27/10/2008 23/01 → 23/03/2020
Ibovespa −60,0% −46,8%
IFIX (fundos imobiliários) não existia −30,5%
S&P 500 em dólar −39,4% −32,5%
S&P 500 em reais −17,6% −17,7%
IMA-B (títulos IPCA+) −5,4% −10,9%
CDI +5,5% +0,7%
Dólar +35,9% +21,9%

Três lições saem dessa tabela. Os fundos imobiliários caíram quase tanto quanto a bolsa em 2020: não são o amortecedor que parecem. O dólar subiu nas duas crises e transformou uma queda de mais de 30% da bolsa americana numa de menos de 18% em reais. E o IPCA+ caiu nas duas, menos que a bolsa, mas caiu: o módulo 6 mostra os anos em que ele caiu mais.

Agora a conta. Se a parte em bolsa brasileira pode cair como em 2008, a fatia máxima que cabe na sua carteira é:

A ideia: Fatia máxima em bolsa = a perda que você tolera, em reais ÷ a queda de uma crise real.

Com R$ 800 mil e 60% em bolsa, são R$ 480 mil em ações. Um 2008 leva R$ 288 mil em cinco meses (480.000 × 0,60). Se esse número faria você vender, a sua alocação não é 60%: é a que você consegue segurar. Se você tolera R$ 120 mil, a conta dá R$ 200 mil em bolsa, ou 25% da carteira.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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