Leilão, circuit breaker e after: quando o pregão muda de regra
Há momentos em que a bolsa deixa de casar as ordens uma a uma: no leilão, quando o pregão inteiro para, nas sessões de pouca gente. É nessas janelas que uma ordem a mercado sai cara e um stop não protege como você imaginava.

Em 1 minuto
- No leilão, a bolsa acumula as ordens e calcula um preço único; uma ordem a mercado num leilão de pouca gente define esse preço contra você.
- No circuit breaker, o pregão inteiro para: em março de 2020 foram seis paradas em oito pregões, e nenhuma ordem executou durante elas.
- Um stop protege contra o movimento contínuo, não contra o salto: ele executa no preço da reabertura, qualquer que seja.
Ao fim desta aula você vai saber
- Reconhecer as janelas em que o pregão muda de regra
- Calcular quanto uma ordem a mercado paga num leilão ralo
- Montar ordens que protegem o preço e saber o que elas arriscam
A tese: o preço que aparece nem sempre é um preço de mercado
Quase o dia inteiro, a B3 funciona em pregão contínuo: cada ordem que chega procura a melhor oferta do outro lado e fecha negócio na hora. É o modelo que todo mundo imagina quando pensa em "comprar a mercado".
Mas há janelas em que a regra muda. No leilão, as ordens são acumuladas e o preço sai de uma conta. No circuit breaker, o pregão inteiro para. E nas sessões de pouca gente, como os primeiros minutos do dia e o horário estendido depois do fechamento, o livro fica fino.
A ideia: Nessas janelas, o preço na tela tem a aparência de um preço de mercado e a qualidade de informação de poucas ordens.
Quem não sabe disso chama de azar o que é mecânica. E é nessas janelas, não nos dias calmos, que uma carteira à prova de crise é posta à prova na execução.
O mecanismo: três janelas, três regras
1. O leilão troca o "agora" por um preço único. Na pré-abertura e no fechamento, e sempre que um papel entra em leilão, o sistema acumula as ordens por alguns minutos e, no fim, calcula o preço que casa o maior número de ações. Todos os negócios saem a esse preço único. Uma ordem a mercado entra dizendo "aceito o que sair". Num papel cheio, isso não muda nada. Num papel com pouca gente na fila, é a sua ordem que puxa o preço.
2. O circuit breaker para tudo. É o freio da bolsa inteira. Pela regra da B3, se o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior, a negociação para por 30 minutos. Se, na volta, a queda chega a 15%, para por mais uma hora. Em 20%, a B3 decide o tempo da parada e avisa o mercado. As paradas não valem nos últimos 30 minutos do pregão, e se o freio for acionado na última hora o fechamento pode ser adiado em até 30 minutos. Além do freio geral, cada papel pode entrar num leilão de volatilidade quando se afasta muito do preço de referência.
3. As sessões de pouca gente têm livro fino. Logo depois da abertura, o livro ainda está se formando. No after-market, a sessão depois do fechamento, há menos participantes e regras próprias de preço e de quantidade. Pela grade que a B3 publicou para valer a partir de 09/03/2026 (Ofício Circular 005/2026-PRE), o mercado à vista negocia das 10h00 às 16h55, faz o leilão de fechamento das 16h55 às 17h00 e tem after-market das 17h30 às 18h00. A B3 muda essa grade algumas vezes por ano; confira a vigente no site dela.
O leilão vazio, na conta
Imagine um papel pouco negociado que fechou ontem a R$ 10,00. No leilão de abertura, a fila de quem vende está assim: 100 ações a R$ 10,05, 100 a R$ 10,15, 100 a R$ 10,25 e 200 a R$ 10,35. Você manda uma ordem a mercado de 400 ações.
Antes de continuar: Com essa fila, a quanto saem as suas 400 ações no leilão?
a) R$ 10,00 cada, o fechamento de ontem · b) Uns R$ 10,15 cada, na média da fila · c) R$ 10,35 cada, todas no preço do último lote · d) O leilão é cancelado
Resposta: R$ 10,35 cada, todas no preço do último lote. Para caberem 400 ações, o preço único do leilão sobe até R$ 10,35, onde há ações suficientes à venda. Todas saem a esse preço: R$ 4.140, 3,5% acima do fechamento de ontem.
No leilão não há preço médio da fila: o preço é um só para todos. A sua ordem a mercado aceitou qualquer preço, então o leilão subiu até onde havia ações para ela. Minutos depois, com o pregão contínuo aberto e o livro cheio, o papel pode estar de volta perto de R$ 10,00.
Com uma ordem limitada a R$ 10,15, que diz o preço máximo que você aceita, você compraria só as 200 ações que cabem até esse preço, a R$ 10,15 cada, e o resto da ordem esperaria. Pagaria menos, mas levaria menos. Não existe versão da escolha em que você não paga nada.
Um detalhe de custo: pela tabela da B3, a tarifa de negociação nos leilões de abertura e de fechamento é de 0,007%, um pouco acima dos 0,005% do pregão contínuo para quem negocia até R$ 3 milhões por dia. É centavo; o que pesa no leilão é o preço, não a tarifa.
Março de 2020: o laboratório do circuit breaker
O começo da pandemia testou todas as regras de uma vez.
Antes de continuar: Em 12/03/2020, o Ibovespa fechou em −14,8%. Quanto ele chegou a cair no pior momento do dia?
a) Uns 12% · b) Uns 15% · c) Uns 20% · d) Uns 30%
Resposta: Uns 20%. Chegou a cair 19,6%, perto do terceiro degrau do freio, e parou duas vezes no mesmo dia. No pregão seguinte, 13/03, subiu 13,9%.
6 paradas do pregão em 8 pregões, entre 09/03 e 18/03/2020 · −14,8% o fechamento de 12/03/2020 · +13,9% o pregão seguinte, 13/03/2020 · 63.570 pontos, o fechamento mais baixo do mês, em 23/03/2020
O pregão parou nos dias 9, 11, 12 (duas vezes), 16 e 18 de março. Os fechamentos desses dias, na série diária do Ibovespa da base do Quantor:
| Dia | Fechamento do Ibovespa | Variação no dia |
|---|---|---|
| 09/03/2020 | 86.067 | −12,2% |
| 10/03/2020 | 92.214 | +7,1% |
| 11/03/2020 | 85.171 | −7,6% |
| 12/03/2020 | 72.583 | −14,8% |
| 13/03/2020 | 82.678 | +13,9% |
| 16/03/2020 | 71.168 | −13,9% |
| 18/03/2020 | 66.895 | −10,3% |
| 23/03/2020 | 63.570 | −5,2% |
Duas lições práticas saem dessa tabela. Primeira: com o pregão parado, nenhuma ordem executa. Um stop, a ordem automática de venda num preço definido, não dispara no meio da parada. Segunda: quando o pregão volta, a execução acontece no preço da reabertura, que pode estar muito abaixo do preço que você marcou.
Cuidado: O stop protege contra o movimento contínuo. Contra o salto, não.
E a tabela mostra uma terceira coisa: a parada não diz para onde o mercado vai. Depois de 11/03, veio −14,8%. Depois de 12/03, +13,9%. Quem vendeu tudo na reabertura de um dia de freio vendeu no meio de uma sequência que alternava tombos e altas de dois dígitos. O módulo 3 mostra como a carteira atravessa essas quedas; aqui fica a execução.
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