Unit, BDR, FII e ETF: quatro coisas que não são ação
TAEE11, AAPL34, HGLG11 e BOVA11 aparecem na mesma tela, com o mesmo gráfico. Nenhum deles é uma ação comum, e cada um pede números diferentes para ser lido e um lugar diferente na carteira.

Em 1 minuto
- Unit, BDR, FII e ETF têm gráfico e candle como uma ação, mas são contratos diferentes: um pacote, um recibo, um condomínio e uma cesta.
- A TAEE11 valia 0,3% menos que a soma das partes em 23/09/2026 e negociava cerca de 19 vezes mais que TAEE3 e TAEE4 juntas.
- Cada tipo pede um número próprio e ocupa um lugar próprio na carteira: errar a categoria é contar duas vezes o mesmo risco ou nenhuma vez o risco certo.
Ao fim desta aula você vai saber
- Classificar um código da B3 pelo final e pelo contrato que ele representa
- Fazer a soma das partes de uma unit e separar empresa e dólar num BDR
- Escolher o número certo para ler cada tipo (P/L, P/VP, rendimento, retorno total)
A tese: o gráfico é igual, o contrato não
Quem aprende que ação termina em 3 (ordinária) ou 4 (preferencial) abre o home broker e encontra TAEE11, HGLG11, BOVA11 e AAPL34. Todos têm gráfico, livro de ofertas e candle. Todos sobem e descem no mesmo pregão. A conclusão natural é que são "ações com outro final".
Não são. São quatro contratos diferentes: um pacote de ações da mesma empresa, um recibo de uma ação listada lá fora, uma cota de condomínio de imóveis e uma cesta que copia um índice. A tela trata os quatro do mesmo jeito porque a tela só mostra preço. O que chega à sua conta, o risco que você carrega e o número que descreve cada um são diferentes.
A ideia: Antes de perguntar se está barato, pergunte o que você comprou. O erro de categoria custa mais que o erro de conta.
Numa carteira que quer atravessar crise, isso não é detalhe. Um BDR é, ao mesmo tempo, uma aposta na empresa e no dólar. Um ETF de índice já é uma carteira inteira. Um FII responde aos juros de um jeito que uma ação de varejo não responde. Quem classifica errado conta duas vezes o mesmo risco, ou nenhuma vez o risco que importa.
O mecanismo: três forças que separam os quatro
1. O que está por baixo do código. A unit é feita de ações da própria empresa. O BDR é lastreado em ações guardadas lá fora por uma instituição depositária. O FII é dono de imóveis ou de títulos ligados a imóveis. O ETF é dono de uma cesta que segue as regras de um índice. Quatro lastros, quatro fontes de valor.
2. Como o dinheiro chega até você. A unit paga os proventos das ações que a compõem. O BDR repassa o dividendo da empresa estrangeira depois do imposto do país de origem e da conversão para reais. O FII distribui rendimento todo mês, tirado do aluguel ou dos juros dos títulos. O BOVA11, o ETF mais conhecido, não distribui nada: os proventos das empresas ficam dentro da cota e aparecem no preço.
3. Qual número descreve cada um. P/L serve para a unit, porque por trás dela há uma empresa com lucro. Para o FII, o lucro contábil mistura reavaliação de imóvel, que não vira dinheiro; o número útil é o P/VP (preço da cota dividido pelo patrimônio por cota) e a origem do rendimento. Para o ETF, o número é o retorno total contra o índice que ele copia. Para o BDR, são dois números: o da empresa, em dólar, e o do câmbio.
O que significa na prática: o final do código
| Final | O que costuma ser | Exemplo | O que olhar primeiro |
|---|---|---|---|
| 3 e 4 | Ação ordinária e preferencial | PETR3, PETR4 | a empresa e a classe (a aula 2 trata do voto) |
| 11 | Unit, FII ou ETF (o final não diz qual) | TAEE11, HGLG11, BOVA11 | o que está por baixo |
| 34 e 35 | BDR não patrocinado de ação | AAPL34 | empresa em dólar e câmbio, separados |
| 39 | BDR de ETF estrangeiro | — | o índice lá fora e o câmbio |
O detalhe que confunde mais gente está na segunda linha: o final 11 é usado por três coisas sem nada em comum. A única forma de saber é olhar o nome e o tipo do ativo no cadastro. Leva dez segundos e evita o erro mais comum desta aula.
A unit por dentro: TAEE11
A unit junta, num só código, ações ordinárias (ON, que votam) e preferenciais (PN, que em geral não votam e costumam ter preferência nos dividendos) da mesma empresa. A TAEE11, da Taesa, é 1 TAEE3 + 2 TAEE4. Com os fechamentos de 23/09/2026: R$ 13,59 + 2 × R$ 13,90 = R$ 41,39. A TAEE11 fechou a R$ 41,27, 0,3% abaixo.
A diferença é pequena por um motivo mecânico: quando ela abre demais, alguém compra as partes, monta o pacote e vende a unit (ou o contrário), embolsando a diferença. Essa arbitragem mantém o pacote colado na soma.
Antes de continuar: Em setembro de 2026, quanto a TAEE11 negociava por dia comparada com TAEE3 e TAEE4 somadas?
a) Mais ou menos o mesmo: é a mesma empresa · b) Umas 3 vezes mais · c) Umas 20 vezes mais
Resposta: Umas 20 vezes mais. R$ 67,5 milhões por dia na TAEE11 contra R$ 3,5 milhões em TAEE3 e TAEE4 juntas: cerca de 19 vezes mais. O dinheiro prefere o pacote.
O dinheiro escolhe o pacote, e isso tem consequências práticas. Quem precisa vender numa crise vende com menos atrito o código mais negociado. A aula de liquidez do módulo de custos (cp-custos 3) mostra quanto isso pesa no preço que você consegue de verdade.
Há ainda um efeito que engana quem lê a aba Aluguel. Montar e desmontar o pacote exige tomar ações emprestadas. Em 22/09/2026, a TAEE11 tinha 29 dias para cobrir, o tempo que os vendidos levariam para recomprar tudo no volume normal. Num papel comum, esse número sugeriria muita gente apostando na queda. Numa unit, boa parte é a mecânica da arbitragem.
O BDR: uma empresa e uma moeda no mesmo preço
O BDR (recibo de ação estrangeira negociado no Brasil) permite comprar, em reais, uma empresa listada lá fora. O AAPL34 representa ações da Apple. O preço dele é, essencialmente, uma conta:
preço do BDR ≈ preço da ação lá fora × dólar ÷ quantos BDRs equivalem a uma ação
Com números redondos, só para ver o mecanismo: se a ação sobe 2% lá fora e o dólar cai 2% no mesmo dia, o BDR fica praticamente parado. Quem estranha que "meu BDR andou menos que a empresa" não achou uma falha. Achou o câmbio.
Para uma carteira à prova de crise, o câmbio é justamente o ponto. Em crises brasileiras, o real costuma se desvalorizar, e a parte em dólar sobe em reais quando a bolsa daqui cai. É por isso que o módulo de montagem (cp-montar 2) mede a correlação do exterior em reais com o Ibovespa. Mas a mesma força trabalha contra quando o real se valoriza. O BDR é a soma de dois riscos, e você só controla o tamanho dos dois se medir cada um. O dividendo do BDR chega depois do imposto do país de origem e tem regra própria aqui; o curso Passaporte Global trata da declaração.
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