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A economia em quatro regimes · Aula 3 de 8

Inflação: o número do mês não diz nada

Em 2016 o núcleo do IPCA estava em 8,25% e caindo, e o Ibovespa subiu 38,9%. Em janeiro de 2021 ele estava em 2,79%, abaixo da meta, e subindo, e a bolsa caiu 12,1% no ano. O que pesa é a direção.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Inflação: o número do mês não diz nada

Em 1 minuto

  • Para a bolsa, a direção da inflação pesa mais do que o nível: inflação alta e caindo foi melhor que inflação baixa e subindo.
  • A régua usa o núcleo do IPCA em 12 meses contra a própria média de 5 meses; um mês isolado só muda o estado quando a margem é pequena.
  • Em setembro de 2026 o núcleo voltou a ficar acima da média (4,54% contra 4,50%): é o primeiro mês, ainda não confirmado.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Ler os quatro números da inflação e saber qual importa para quê
  • Recalcular o IPCA de 12 meses quando sai o dado do mês
  • Separar choque de preço de inflação persistente

A tese: inflação é direção, não nível

Quando sai o IPCA, a manchete compara o número com a meta: "acima de 3%, ruim; abaixo, bom". O curso Renda Fixa com Dados, no módulo 1, mostra o que a inflação come do seu dinheiro e como o IPCA é medido. Aqui a pergunta é outra: o que a inflação faz com o preço das ações.

E para essa pergunta, o nível importa menos do que parece. O que pesa é para onde a inflação está indo, porque é a direção que decide o próximo passo do Copom. A aula 1 deste módulo mostrou o placar desde 2004: nos meses de inflação caindo na régua, a mediana do Ibovespa nos 12 meses seguintes ficou em +16,4% (Goldilocks) e +15,4% (Slowdown). Nos de inflação subindo, em +1,1% (Stagflation) e −1,8% (Reflation).

Os dois casos mais didáticos da história recente apontam na mesma direção, e com sinais trocados.

O mecanismo: três forças entre o IPCA e a bolsa

1. O Copom reage à direção. O Banco Central persegue a meta de 3%, com tolerância até 4,5%. Uma inflação alta mas cedendo dá espaço para cortar a Selic; uma inflação baixa mas acelerando obriga a subir ou a parar de cortar. O mercado antecipa esses passos, e é a antecipação que mexe no preço.

2. O juro esperado é a taxa de desconto. O preço de uma ação é o lucro futuro trazido para hoje. Quando o mercado passa a esperar juro menor, o mesmo lucro vale mais hoje. Nada mudou na empresa; mudou o concorrente dela, a renda fixa.

3. O núcleo é a parte que o juro alcança. O IPCA cheio inclui itens que balançam por motivos que o juro não resolve: alimento, energia, combustível. O núcleo tira esses itens e mede a parte persistente, ligada a salário, serviços e demanda. É ela que o Copom consegue combater, e por isso é ela que a aba Macro usa no regime.

Os quatro números, e qual usar

Em setembro de 2026 (dado divulgado em outubro), a inflação brasileira mostrava:

Número Agosto de 2026 Setembro de 2026 Para que serve
IPCA do mês −0,32% +0,82% quase nada sozinho: é o mais ruidoso
IPCA em 12 meses 4,22% 4,58% a manchete e o juro real
Núcleo em 12 meses 4,40% 4,54% o regime e o Copom
Meta 3% (até 4,5%) 3% (até 4,5%) o compromisso, não uma medida

IPCA: SGS 433 e 13522. Núcleo: média dos núcleos EX3 e de médias aparadas do Banco Central (SGS 27839 e 4466), acumulada em 12 meses, como na aba Macro.

Repare no IPCA do mês: −0,32% em agosto, +0,82% em setembro. Em dois meses ele foi de "deflação" a um dos meses mais altos do ano (só março, com 0,88%, foi maior), e qualquer manchete pode escolher um dos dois. O acumulado de 12 meses existe justamente para tirar esse ruído: ele troca um mês antigo por um novo a cada divulgação.

Como a régua lê a inflação

A régua compara o núcleo de 12 meses com a média exponencial dos últimos cinco meses, uma média que pesa mais os meses recentes. Acima dela, inflação subindo. Abaixo, caindo.

A régua tem uma virtude: um mês isolado raramente vira o estado. Ele só vira quando a margem já era pequena. Foi o que aconteceu agora. Em agosto de 2026, o núcleo estava em 4,40% contra média de 4,48%: caindo, como vinha desde junho. Em setembro, foi a 4,54% contra média nova de 4,50%. Bastaram 0,04 ponto para a seta virar.

A ideia: Inflação alta e caindo foi melhor para a bolsa do que inflação baixa e subindo. Pergunte a direção antes de olhar o nível.

É o primeiro mês. A aba Macro vai tratá-lo como transição até que outubro confirme, ou desminta.

2016: Goldilocks com a inflação perto de 8%

Em abril de 2016, o núcleo do IPCA estava em 8,25%, quase o triplo da meta atual. Mas estava abaixo da própria média, de 8,33%: caindo. Ao mesmo tempo, o IBC-Br mostrava a economia 5,15% menor do que um ano antes. Péssimo no nível, mas melhor que a média recente, de −5,76%: a queda estava perdendo força.

Resultado da régua: crescimento subindo, inflação caindo. Goldilocks, com a economia encolhendo e a inflação perto de 8%. O núcleo ficou abaixo da média de abril a dezembro, nove meses seguidos, e 2016 teve 8 meses classificados como Goldilocks.

Antes de continuar: 2016 começou com o IPCA de 12 meses em 10,71% e a economia em recessão. Quanto o Ibovespa rendeu no ano?

a) Caiu uns 10% · b) Ficou perto de zero · c) Subiu uns 15% · d) Subiu quase 40%

Resposta: Subiu quase 40%. +38,9%. O IPCA de 12 meses terminou o ano em 6,29%. Ainda alto, mas caindo havia meses, e o mercado antecipou o ciclo de cortes da Selic.

Quem esperou a inflação voltar para perto da meta só voltou em 2017, quando o IPCA fechou o ano em 2,95%, com boa parte do movimento feito. Em 2017 o Ibovespa ainda subiu 26,9%, mas os 38,9% de 2016 já tinham ficado para trás.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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