Inclinação da curva: o formato que quase ninguém lê
A taxa de um vencimento diz quanto rende. A diferença entre o curto e o longo diz o que o mercado espera do Copom e quanto ele cobra pelo medo, e muda de sinal antes da Selic.

Em 1 minuto
- O nível da curva é o que o Copom já fez; o formato é o que o mercado espera depois e quanto cobra pelo risco.
- Em 21/08/2026, o DI de 5 anos pagava 0,33 ponto acima do de 2 anos; em 23/10, 0,05: a curva quase ficou plana, com o longo caindo muito mais que o curto.
- De 1999 a 2019, a ponta curta abaixo da Selic antecipou cortes em 90% das vezes; acima dela, altas em só 61%, porque a curva carrega prêmio.
Ao fim desta aula você vai saber
- Medir a inclinação de 2 × 5 anos e de 1 × 10 anos
- Reconhecer os três formatos e os quatro movimentos da curva
- Saber quando o formato engana
A tese: o nível é notícia velha, o formato é a notícia
"O prefixado de 2032 está pagando tanto." É o tipo de frase que circula, e o número sozinho diz pouco: ele já está no preço de tudo, da ação ao CDB. O que ajuda a entender o momento é comparar os prazos entre si. A diferença entre o que o mercado cobra para emprestar por pouco tempo e por muito tempo se chama inclinação da curva.
A ideia: O nível mostra o que o Copom já fez. O formato mostra o que o mercado acha que vem depois, e quanto ele cobra pelo medo.
A aula anterior leu uma reunião na ponta curta. Esta lê a curva inteira de uma vez.
O mecanismo: três forças que desenham o formato
1. A ponta curta obedece ao Copom. Os vencimentos de até um ano são, quase só, a média das Selics que o mercado espera para as próximas reuniões. Se ele espera cortes, a ponta curta fica abaixo da Selic de hoje; se espera altas, acima.
2. A ponta longa obedece à confiança. Daqui a cinco ou dez anos, ninguém sabe quem estará no Banco Central nem como estarão as contas públicas. Quem empresta por esse prazo cobra pela inflação que pode voltar, pelo fiscal, pelo câmbio. Esse pedaço da taxa se chama prêmio de prazo, e o Banco Central não controla confiança por decreto.
3. O mundo puxa o longo. Quando o juro longo americano sobe, o investidor estrangeiro passa a exigir mais do título brasileiro longo também. O curto quase não sente; o longo sente na hora, sem nada ter mudado em Brasília.
Juntando as três: o formato é a soma de "o que se espera do Copom" com "quanto se cobra pelo risco de longo prazo". O trabalho de quem lê é separar as duas parcelas.
Os três formatos
- Invertida: os prazos longos pagam menos que os curtos, ou a ponta curta já está abaixo da Selic. O mercado acha que o juro de hoje é alto demais para durar e cobra cortes.
- Plana: todos os prazos pagam parecido. Sem ciclo forte à vista, ou com cortes esperados compensados por prêmio de risco.
- Positiva, ou inclinada: os longos pagam bem mais. Ou o mercado espera altas, ou está cobrando caro pelo risco de longo prazo.
Para medir, a aba Juros usa duas réguas, em pontos-base (um ponto-base é 0,01 ponto percentual): o vencimento de janeiro mais perto de 5 anos menos o mais perto de 2 anos, e o de 10 anos menos o de 1 ano.
A curva de 2026, em três fotos
A base do Quantor guarda a curva DI de cada pregão desde 21/08/2026. Três datas contam a história:
| Pregão | Selic | DI jan/2027 − Selic | 2 × 5 anos | 1 × 10 anos |
|---|---|---|---|---|
| 21/08/2026 | 14,00% | −0,29 ponto | +33 bp | +65 bp |
| 23/09/2026 | 13,75% | −0,21 ponto | +24 bp | +47 bp |
| 23/10/2026 | 13,75% | −0,28 ponto | +5 bp | −12 bp |
Em agosto, a curva era positiva com a ponta curta abaixo da Selic: cortes esperados, mas prêmio cobrado no longo. Em setembro, depois do corte, a inclinação já tinha encolhido. Em outubro, a curva ficou quase plana entre 2 e 5 anos e invertida entre 1 e 10 anos. Essa é a foto de 23/10/2026: no pregão seguinte, 26/10, o DI de janeiro de 2029 saltou de 12,64% para 15,22% (a aula 2 do módulo 3 mostra esse dia), e a foto mudou de novo.
Antes de continuar: Em 05/10/2026, num único pregão, sem reunião do Copom, a curva achatou. Quanto caiu o DI de janeiro de 2032, comparado com o de janeiro de 2027?
a) Os dois caíram mais ou menos igual, uns 0,10 ponto · b) O curto caiu mais: é ele que obedece ao Copom · c) O longo caiu 1,35 ponto; o curto, 0,12
Resposta: O longo caiu 1,35 ponto; o curto, 0,12. O janeiro de 2032 caiu 1,35 ponto e o janeiro de 2027, 0,12. Foi o prêmio de prazo que saiu, não um corte a mais da Selic.
O movimento de 05/10, o primeiro pregão depois do 1º turno da eleição (a aula 8 do módulo 5 volta a ele), foi quase todo no longo: o janeiro de 2032 caiu 1,35 ponto, o de 2029, 1,16, e o de 2027, só 0,12. Num pregão, a inclinação de 1 × 10 anos foi de +65 para +15 pontos-base. A ponta curta mal se mexeu, e é isso que diz que o Copom não era o assunto. Quando o longo cai muito mais que o curto, o mercado está cobrando menos pelo risco de longo prazo, e não só esperando mais cortes.
Os quatro movimentos
O formato de um dia é uma foto. O que mais informa é como ele muda entre duas datas, e só há quatro jeitos:
| Movimento | O que acontece | A leitura |
|---|---|---|
| Longo cai mais que o curto | a curva achata caindo | alívio: o prêmio de risco sai |
| Curto cai mais que o longo | a curva inclina caindo | corte esperado, com o longo ainda desconfiado |
| Longo sobe mais que o curto | a curva inclina subindo | medo: fiscal, inflação ou o mundo cobrando mais |
| Curto sobe mais que o longo | a curva achata subindo | alta da Selic esperada, com o longo acreditando que ela funciona |
O primeiro é o mais benigno para a bolsa e para os títulos longos. O terceiro é o pior, e o mais traiçoeiro quando aparece com o Copom cortando: corte com desconfiança.
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