Curva DI e Copom: a decisão que já estava no preço
A curva de juros não adivinha o que o Banco Central vai fazer. Ela põe preço nisso semanas antes, e quem aprende a ler esse preço para de se surpreender com o comunicado.

Em 1 minuto
- A curva DI é o preço do CDI de cada período futuro, negociado com dinheiro em risco na B3, e por isso ela se move antes do Copom.
- Em 21/08/2026 ela já cobrava cerca de 0,20 ponto de corte para a reunião de setembro, que cortou 0,25; em 23/10 cobrava cerca de 0,18 para a de 04/11.
- De 1999 a 2019, o swap de 1 ano estava do lado certo antes de 11 das 12 viradas da Selic, mas cobrou acima do CDI que veio em 72% dos dias: é preço com prêmio, não previsão.
Ao fim desta aula você vai saber
- Tirar da curva quanto o mercado cobra para a próxima reunião do Copom
- Calcular o juro a termo entre dois vencimentos
- Separar o que a curva cobra do que ela prevê
Selic, CDI e juro real são a régua deste módulo, e o curso Renda Fixa com Dados, módulo 1, mostra cada uma por dentro. Aqui começa o passo seguinte: ler o que o mercado cobra pela Selic que ainda não foi decidida.
A tese: a curva não adivinha o Copom, ela põe preço nele
Toda reunião do Copom vira manchete: "Banco Central corta os juros". Quem lê a manchete acha que a notícia é a decisão. Para quem empresta e toma dinheiro no mercado, a decisão quase nunca é notícia, porque já foi negociada semanas antes.
O lugar onde isso acontece é a curva DI. Na B3 existe um contrato de DI futuro para cada vencimento, e a taxa de cada um é o CDI médio que comprador e vendedor aceitaram para o período entre hoje e aquele vencimento. Ninguém sabe qual será a Selic de dezembro. Mas o mercado precisa travar dinheiro até dezembro todos os dias, então ele dá um preço para essa dúvida.
A ideia: A curva não é a previsão de ninguém. É o ponto em que as apostas empataram, com o preço do risco já embutido.
Previsão se compara com a opinião dos economistas. Preço se compara com a sua própria opinião, e a pergunta muda de "o que vai acontecer?" para "quanto estão me cobrando para eu discordar?".
O mecanismo: três forças por trás de cada taxa
1. Cada contrato é uma média do CDI até o vencimento. O DI de janeiro de 2027 diz quanto o mercado cobra, ao ano, pelo dinheiro de hoje até o primeiro dia útil de 2027. Quem fica comprado na taxa ganha se o CDI desse período vier acima dela; quem fica vendido ganha se vier abaixo. O ajuste é diário, com dinheiro de verdade. Ninguém mantém uma taxa errada por muito tempo sem pagar por isso.
2. A diferença entre dois vencimentos isola um período. Se o mercado cobra uma taxa até janeiro de 2028 e outra até janeiro de 2029, existe uma única taxa para o ano de 2028 sozinho que faz as duas contas fecharem. Ela se chama juro a termo, e a conta é uma divisão de fatores:
(1 + taxa longa)^(prazo longo) ÷ (1 + taxa curta)^(prazo curto) = (1 + juro a termo)^(prazo entre os dois)
Os prazos são contados em dias úteis divididos por 252, que é como o mercado brasileiro conta. Com dois vencimentos bem escolhidos, dá para isolar até um mês, e é assim que se tira da curva o preço de uma reunião do Copom.
3. O preço inclui um prêmio. Quem trava uma taxa por dois anos no Brasil corre o risco de a inflação voltar, de as contas públicas piorarem, de o dólar disparar. Ninguém aceita esse risco de graça. Por isso a curva costuma ficar um pouco acima do CDI que de fato vem depois, e o prêmio cresce com o prazo. Nos vencimentos de poucos meses, ele é pequeno e a curva fica muito perto da expectativa pura. É por isso que a ponta curta é a melhor leitura do Copom.
Como a curva lê uma reunião
O roteiro tem três passos e cabe numa conta de padaria.
Primeiro, o CDI de hoje: ele fica cerca de 0,10 ponto abaixo da Selic meta. Com a Selic em 14,00% em agosto de 2026, o CDI estava em 13,90% ao ano.
Segundo, um contrato que vença depois da reunião. O DI de outubro de 2026 (código V26) vencia em 01/10. Uma parte do prazo dele corre com o CDI de hoje, até a reunião; a outra, com o CDI que vier depois. Conhecendo a primeira parte, sobra uma única incógnita: o CDI que o mercado cobra depois da reunião.
Terceiro, a diferença entre esse CDI implícito e o de hoje é o tamanho do movimento que está no preço.
O simulador abaixo faz a versão anual da mesma conta, com a taxa de 1 ano e a de 2 anos. Os valores iniciais são os de 23/10/2026: o vencimento de janeiro de 2028 a 12,86% e o de janeiro de 2029 a 12,64%, com a Selic em 13,75%.
O Copom de setembro de 2026, pregão a pregão
A base do Quantor guarda a curva DI de cada pregão desde 21/08/2026. A reunião de setembro foi a primeira com a curva inteira registrada antes e depois. A Selic estava em 14,00% e a nova taxa passou a valer em 17/09.
Antes de continuar: 21/08/2026, quatro semanas antes da reunião. Quanto de corte na Selic a curva DI já cobrava?
a) Nada: o mercado esperava o comunicado · b) Uns 0,05 ponto: só um palpite · c) Uns 0,20 ponto: quase o corte inteiro · d) Uns 0,50 ponto: um corte duplo
Resposta: Uns 0,20 ponto: quase o corte inteiro. O CDI implícito depois da reunião estava em 13,70%, cerca de 0,20 ponto abaixo dos 13,90% de então. O Copom cortou 0,25.
A tabela segue o contrato de outubro de 2026 até a véspera:
| Pregão | DI de outubro (V26) | CDI cobrado depois da reunião | Corte no preço |
|---|---|---|---|
| 21/08/2026 | 13,827% | 13,70% | 0,20 ponto |
| 31/08/2026 | 13,795% | 13,67% | 0,23 ponto |
| 08/09/2026 | 13,761% | 13,66% | 0,24 ponto |
| 16/09/2026 | 13,681% | 13,66% | 0,24 ponto |
| Depois: CDI de fato | 13,65% | 0,25 ponto |
Quatro semanas antes, o mercado já cobrava 80% do corte. Na véspera, praticamente todo. No dia em que a Selic nova passou a valer, o DI de janeiro de 2027 andou 3,6 pontos-base (um ponto-base é um centésimo de ponto percentual). A decisão foi negociada em agosto e assinada em setembro.
Não há mágica nisso. O Copom fala muito e em público: comunicado, ata, discursos, o relatório de inflação. Com a inflação e a atividade publicadas, sobram poucas decisões plausíveis, e o mercado precifica cada uma muito antes.
O Copom de 04/11/2026: a curva e o Focus lado a lado
Agora, a reunião seguinte. Em 23/10/2026, o contrato de novembro vencia em 03/11 e o de dezembro em 01/12. O mês de novembro sozinho, tirando os dois dias que ainda correm com o CDI de 13,65%, estava cobrando um CDI de 13,47%: cerca de 0,18 ponto abaixo do atual.
O boletim Focus de 23/10, a pesquisa do Banco Central com cerca de 130 instituições, tinha mediana de 13,50% para a mesma reunião, ou seja, um corte de 0,25, com respostas entre 13,25% e 14,00%.
0,18 ponto o corte que a curva cobrava em 23/10 para a reunião de 04/11 · 0,25 ponto o corte da mediana do Focus de 23/10 · 71% a fração de um corte de 0,25 que estava no preço
Os dois quase concordam, e a diferença conta algo. A curva cobra 71% de um corte de 0,25: o mercado acha o corte provável, não certo. Também não é um número parado. Em 05/10, o mesmo cálculo dava 0,28 ponto, mais de um corte inteiro; em 15/10, 0,16. A Selic não mudou em nenhum desses dias. Mudou o preço da dúvida.
Este é o retrato de 23/10/2026. No pregão seguinte, 26/10/2026, o quadro mudou: o DI de janeiro de 2029 foi de 12,64% para 15,22% e a PTAX subiu 9,19% (a aula 2 do módulo 3 mostra esse dia). Antes de usar estes números, refaça a conta com a curva do dia.
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