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Dólar e o mundo · Aula 4 de 6

Ibovespa: o índice de commodities que finge ser bolsa

Entre dezembro de 2010 e dezembro de 2015, a VALE3 caiu 69%, a PETR4 71% e o dólar subiu 138%. Medido em dólares, o Ibovespa perdeu 74%. Bolsa e câmbio caíram pelo mesmo motivo, em sentidos opostos.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Ibovespa: o índice de commodities que finge ser bolsa

Em 1 minuto

  • Uma fatia grande do Ibovespa vende minério, petróleo e aço com preço em dólar decidido lá fora; o país vive da mesma receita.
  • Quando a commodity cai, as maiores empresas do índice ganham menos e o real enfraquece: bolsa e dólar se mexem pelo mesmo motivo, em sentidos opostos. Desde 2004, a correlação mensal foi de −0,64.
  • De 2010 a 2015, o Ibovespa caiu 37% em reais e 74% em dólares. Ter bolsa, Vale e dólar ao mesmo tempo é, em boa parte, a mesma aposta.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Medir quanto da sua carteira depende do preço das commodities
  • Ler o Ibovespa em reais e em dólares e entender a diferença
  • Saber quando o dólar amortece a bolsa e quando não amortece

A tese: comprar o Ibovespa é comprar um pedaço do preço do minério

Comprar o Ibovespa parece comprar "o Brasil": bancos, varejo, energia, saneamento. Mas uma fatia grande do índice, algo entre 25% e 30%, está em três tipos de empresa: a Vale, a Petrobras e as siderúrgicas. As três vendem produtos com preço em dólar, decidido no mercado mundial.

Isso cria um elo escondido entre o índice e o câmbio.

A ideia: Quando o minério e o petróleo caem, o Brasil recebe menos dólar, o real enfraquece e o dólar sobe; ao mesmo tempo, as maiores empresas do índice ganham menos e caem. Bolsa e câmbio se mexem pelo mesmo motivo, em sentidos opostos.

Quem não vê esse elo acha que tem três posições diferentes quando tem, em boa parte, uma só.

O mecanismo: três forças

1. A receita não é decidida aqui. A Vale vende minério de ferro com preço em dólar por tonelada. A Petrobras vende petróleo e derivados com referência internacional. A Gerdau vende aço. Quando o preço de referência cai à metade, o lucro despenca antes de qualquer decisão da empresa.

2. O país vive da mesma receita. Minério, petróleo, soja e carne são uma parte grande do que o Brasil vende ao mundo. Preço alto traz mais dólar para cá e fortalece o real; preço baixo faz o contrário. É um dos ingredientes do fator Brasil da aula 1, e o motivo de o real andar diferente dos vizinhos que não exportam commodity.

3. O índice acompanha o ciclo. O peso de cada empresa no Ibovespa depende do valor de mercado. Depois de anos de commodity cara, a Vale vale mais e pesa mais; quem compra o índice nesse momento compra a versão mais exposta ao ciclo, justamente perto do topo dele.

O que os números dizem

O resultado aparece na correlação, que vai de −1 a +1 (−1 seria "um sempre sobe quando o outro cai").

Antes de continuar: Desde 2004, em 253 meses, qual foi a correlação entre o retorno mensal do dólar contra o real e o do Ibovespa?

a) Perto de zero: um não tem nada a ver com o outro · b) Uns +0,3: tendem a subir juntos · c) Uns −0,3: um pouco opostos · d) Uns −0,6: fortemente opostos

Resposta: Uns −0,6: fortemente opostos. Foi de −0,64. E em janelas de 3 anos ficou sempre negativa, entre −0,79 e −0,40. Não houve nenhum período de três anos em que dólar e bolsa andassem juntos.

Uma correlação de −0,64 é alta para mercados financeiros. Ela quer dizer que, num mês em que o dólar sobe forte, o Ibovespa quase sempre cai, e o contrário. Não é lei, mas é uma das relações mais estáveis do mercado brasileiro: em nenhuma janela de três anos desde 2004 ela ficou positiva.

O caso completo: 2010 a 2015

O ciclo de commodities que tinha levado o minério para perto de US$ 190 a tonelada no início de 2011 terminou com o minério perto de US$ 40 no fim de 2015. Veja o que aconteceu de dezembro de 2010 a dezembro de 2015, contando os dividendos reinvestidos:

De dez/2010 a dez/2015 Variação
VALE3 −69%
GGBR4 −77%
PETR4 −71%
Ibovespa em reais −37%
Dólar contra o real (R$ 1,66 → R$ 3,96) +138%
Ibovespa em dólares −74%

As três maiores empresas de commodity perderam mais de dois terços do valor, mesmo pagando dividendos. O Ibovespa, que tem bancos e outras empresas no meio, caiu menos. E o dólar mais que dobrou.

Agora faça a conta do estrangeiro. Ele perdeu na bolsa e perdeu no câmbio ao mesmo tempo: 0,63 ÷ 2,38 = 0,265, ou seja, o Ibovespa medido em dólares caiu 74%. As duas quedas vieram, em boa parte, da mesma fonte: o fim do ciclo de commodities somado à recessão de 2015 e 2016.

Vinte anos em duas moedas

×4,9 o Ibovespa em reais, de março de 2006 a setembro de 2026 · ×2,05 o mesmo Ibovespa medido em dólares · ×2,39 o dólar contra o real: a distância entre as duas linhas

Até 2011, o Ibovespa em reais e em dólares andava junto, e o índice em dólar até subia mais, porque o real se valorizava com a commodity cara. Depois, as duas linhas se separaram. De março de 2006 a setembro de 2026, o Ibovespa quase quintuplicou em reais, mas só dobrou em dólares. A diferença entre os dois números é o câmbio: 4,9 ÷ 2,39 ≈ 2,05.

Para o investidor brasileiro, isso tem uma consequência direta. Boa parte do ganho nominal da bolsa nesses 20 anos foi a desvalorização do real, e a desvalorização do real foi, em boa parte, o ciclo de commodities e o fator Brasil.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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