Dólar: o seguro que rende mal e paga na hora certa
De 2006 a 2026, o dólar rendeu 4,4% ao ano contra 10,2% do CDI. Mesmo assim, uma carteira com 85% de Ibovespa e 15% de dólar rendeu mais que o Ibovespa sozinho e caiu menos. Nos seis anos em que a bolsa perdeu mais de 10%, o dólar subiu em todos.

Em 1 minuto
- Sozinho, o dólar rendeu mal em 20 anos: 4,4% ao ano, menos da metade do CDI. O prêmio desse seguro é o carry.
- Mas ele sobe justamente quando a bolsa brasileira cai: nos seis anos desde 2007 em que o Ibovespa perdeu mais de 10%, o dólar subiu em todos.
- Com 15% em dólar e rebalanceamento anual, a carteira rendeu mais que o Ibovespa sozinho (8,6% contra 8,1% ao ano) e caiu menos (39% contra 50%).
Ao fim desta aula você vai saber
- Explicar por que um ativo que rende pouco pode melhorar a carteira
- Fazer a conta do rebalanceamento depois de um ano de crise
- Separar a fatia permanente em dólar da decisão mensal de hedge
A tese: o dólar é um seguro, e seguro rende mal
Seguro de carro rende mal. Na maior parte dos anos, você paga e não recebe nada de volta. Ninguém conclui por isso que seguro é um mau negócio: ele existe para o ano em que o carro bate.
A ideia: O dólar, para quem investe no Brasil, se parece com um seguro: na média rende pouco, e nos anos em que a bolsa brasileira apanha costuma subir.
As aulas anteriores mostraram por quê. O real e a bolsa dependem das mesmas coisas: o humor global com emergentes (aula 3) e o preço das commodities (aula 4). Quando essas coisas pioram, os dois caem juntos, e o dólar, que é o preço do real ao contrário, sobe.
O mecanismo: três forças
1. O seguro tem prêmio, e o prêmio é o carry. Guardar dólar no lugar do CDI custa a diferença de juros entre os dois países. Em 26/10/2026, eram cerca de 9,6 pontos ao ano (aula 2). É esse custo que faz o dólar render tão menos que o CDI no longo prazo.
2. O sinistro vem na hora certa. A correlação mensal entre o dólar e o Ibovespa foi de −0,64 desde 2004 (aula 4). Quando a bolsa cai forte, o dólar costuma subir forte. O seguro paga justamente no ano em que a carteira mais precisa.
3. O rebalanceamento transforma o seguro em retorno. Uma carteira que volta todo ano ao mesmo peso é obrigada a vender o que subiu e comprar o que caiu. Depois de um ano de crise, isso significa vender dólar caro e comprar bolsa barata. É aqui que um ativo de retorno baixo melhora o retorno do conjunto.
O prêmio do seguro em 20 anos
De julho de 2006 a agosto de 2026, a conta ficou assim para R$ 100 aplicados:
Antes de continuar: Uma carteira com 85% de Ibovespa e 15% de dólar, rebalanceada todo dezembro, de 2006 a 2026. Comparada ao Ibovespa sozinho, como ela foi?
a) Rendeu menos, porque o dólar rendeu quase metade do Ibovespa · b) Rendeu mais e caiu menos no pior momento · c) Rendeu igual, só caiu menos · d) Rendeu mais, mas caiu mais
Resposta: Rendeu mais e caiu menos no pior momento. Rendeu 8,6% ao ano contra 8,1% do Ibovespa sozinho, e a pior queda foi de 39% contra 50%. Pôr um ativo que rendeu 4,4% ao ano aumentou o retorno do conjunto.
| R$ 100 em julho de 2006 → agosto de 2026 | Valor final | Ao ano | Pior queda no caminho |
|---|---|---|---|
| CDI (aproximado pela Selic) | R$ 704 | 10,2% | nenhuma |
| Só dólar | R$ 239 | 4,4% | −33% |
| Só Ibovespa | R$ 479 | 8,1% | −50% |
| 85% Ibovespa e 15% dólar | R$ 526 | 8,6% | −39% |
Repare no último número. Colocar na carteira um ativo que rendeu quase metade do Ibovespa aumentou o retorno e diminuiu a pior queda. O motivo é o rebalanceamento: todo dezembro a carteira volta a 85/15. Depois de um ano de dólar forte e bolsa fraca, isso obriga a vender dólar caro e comprar bolsa barata. Depois de um ano ao contrário, faz o inverso.
A conta não inclui custos nem impostos, e o passado não se repete igual. Mas mostra o mecanismo. E mostra também o lado honesto: o CDI sozinho ganhou de todas as outras linhas nesse período, sem nenhuma queda. O dólar não é um investimento melhor que o CDI. É um amortecedor para quem já decidiu ter bolsa.
Quando o seguro pagou
Desde 2007, o Ibovespa caiu mais de 10% em seis anos.
Antes de continuar: Nesses seis anos em que o Ibovespa caiu mais de 10%, em quantos o dólar subiu contra o real?
a) Em 2 dos 6 · b) Em 4 dos 6 · c) Nos 6
Resposta: Nos 6. Subiu nos seis: 2008, 2011, 2013, 2015, 2021 e 2024. O seguro pagou em todos os anos de sinistro desde 2007.
| Ano | Ibovespa | Dólar contra o real |
|---|---|---|
| 2008 | −41,2% | +31,5% |
| 2011 | queda de mais de 10% | +12,2% |
| 2013 | queda de mais de 10% | +15,4% |
| 2015 | −13,3% | +49,1% |
| 2021 | queda de mais de 10% | +7,3% |
| 2024 | −10,4% | +27,7% |
E houve o susto de 2020, que não aparece inteiro no ano fechado: do topo de janeiro ao fundo de março, o Ibovespa caiu 46,8%. Do fim de 2019 ao fim de maio de 2020, o dólar subiu 32,8%.
Quem tinha dólar nesses momentos tinha, além do amortecedor, munição: uma parte do patrimônio que valia mais justamente quando as ações brasileiras estavam baratas. O rebalanceamento é a regra que obriga a usar essa munição, em vez de deixá-la parada por medo.
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