Rebalancear sem girar: o custo escondido de cada troca
Voltar ao peso-alvo por banda fez quase o mesmo trabalho que o ajuste mensal com 10 operações em vez de 144. E o aporte ajuda, mas não segura sozinho um vencedor que dispara.

A ideia: rebalancear é bom, rebalancear sempre é caro
Rebalancear é voltar a carteira aos pesos que você decidiu: vender um pouco do que cresceu demais, comprar do que ficou para trás. O ponto de partida é o peso-alvo, o tamanho escrito para cada posição (10% cada numa carteira de dez papéis, por exemplo).
A pergunta é com que frequência. Há três jeitos: por calendário (todo mês, todo ano), por banda (só quando um peso se afasta demais do alvo) e pelo aporte (mandando o dinheiro novo para o que está abaixo do alvo).
Rebalancear serve para controlar o risco, não para turbinar o retorno. E o controle de risco fica quase igual com uma fração das operações. Cada operação a menos vale mais do que a precisão do peso.
O teste: quatro jeitos, a mesma carteira
Dez papéis conhecidos da B3 (PETR4, VALE3, ITUB4, BBAS3, WEGE3, ABEV3, EGIE3, TAEE11, LREN3 e RADL3), 10% cada em agosto de 2014, seguidos até agosto de 2026 de quatro jeitos. "Ajustar" é voltar todos os papéis a 10%.

As quatro curvas, com R$ 100 no início. À direita: quanto viraram, a pior queda, quantas vezes a carteira foi ajustada e o giro por ano. Com os proventos reinvestidos, antes de custos e impostos.
- Nunca mexer: R$ 100 viraram R$ 498 (+14,3% ao ano).
- Todo mês: R$ 586 (+15,9% ao ano), com 144 ajustes e giro de 32% ao ano.
- Uma vez por ano: R$ 617 (+16,4% ao ano), com 12 ajustes e giro de 10%.
- Banda de ±5 pontos: R$ 570 (+15,6% ao ano), com 10 ajustes e giro de 8%.
Giro é quanto da carteira você troca por ano: 32% é um terço do patrimônio passando por ordens todo ano.
Três leituras. Primeiro, rebalancear rendeu de 1,3 a 2,1 pontos ao ano a mais do que não mexer, neste período e nesta carteira. Segundo, o ajuste mensal não ganhou do anual: fez 12 vezes mais operações para chegar a um resultado menor, e a banda chegou perto com 10. Terceiro, e mais importante, a diferença de verdade está no peso. Sem mexer, a WEGE3 chegou a 29% da carteira (aula 6). Com a banda, o ajuste entrava sempre que um papel passava de 15%.
Por que a banda gira menos
O peso de uma posição oscila o tempo todo, e quase sempre isso é ruído. Uma posição de 10% que vai a 11,3% num mês bom não mudou o risco da carteira. Quem rebalanceia todo mês vende esse 1,3 ponto e talvez compre de volta no mês seguinte.
A banda só age quando o desvio passa de um limite. Na carteira do teste, isso aconteceu 10 vezes em 12 anos, sempre porque algum papel disparou acima de 15% ou despencou abaixo de 5%. Conferir todo mês não é operar todo mês.
E cada operação tem custo: corretagem, spread (a diferença entre o preço de quem compra e o de quem vende, que você paga ao atravessar o livro, maior nos papéis pouco negociados) e, na venda com lucro, imposto. Pela regra que valeu por muitos anos, vendas de ações de até R$ 20 mil no mês ficavam isentas para pessoa física, e acima disso o lucro pagava 15%; confira a regra vigente antes de planejar. Imposto pago antes da hora é dinheiro que deixa de render.
Brad Barber e Terrance Odean, num estudo de 2000 com contas de corretora americanas, mediram o custo de girar demais: os 20% que mais negociavam ficaram cerca de 6,5 pontos ao ano atrás do mercado.
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